Falar sobre responsabilidade ambiental corporativa já não é mais um exercício de marketing institucional ou uma seção bonita no relatório anual. O tema virou uma questão regulatória concreta, com normas específicas, prazos definidos e consequências jurídicas reais para quem não cumprir o que promete. Para empresas de qualquer porte, entender o que está em jogo deixou de ser opcional.
Este conteúdo explica o que é ESG na prática, por que esse tema ganhou peso regulatório tão rápido no Brasil, e como questões como passivos ambientais, incluindo a recuperação de áreas contaminadas, entram nesse novo cenário de exigências.
2026 marca uma virada regulatória para a sustentabilidade corporativa
O ano de 2026 representa um divisor de águas para empresas brasileiras no tema ambiental. Desde janeiro, todas as empresas listadas na B3 precisam publicar relatórios de sustentabilidade seguindo normas internacionais, conforme o padrão definido pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade, com a medida estabelecida pela Resolução CVM nº 193 de outubro de 2023. O prazo final para a primeira publicação completa é maio de 2027, referente ao exercício de 2026.
Segundo Mauricio Colombari, sócio e líder de Sustentabilidade na PwC Brasil, a adoção do padrão internacional de sustentabilidade é um avanço importante para o mercado de capitais brasileiro, promovendo mais transparência, comparabilidade e acesso a fontes de financiamento internacionais. Ele acrescenta, porém, que essa mudança exige das empresas uma resposta coordenada entre áreas de sustentabilidade, contábeis, de controles e tecnológicas, além de revisão profunda da governança corporativa.
A adoção dessas práticas já é significativa entre empresas brasileiras. Um estudo da Amcham Brasil, realizado com 687 empresas, identificou que 71% das empresas brasileiras já adotam práticas ESG, mostrando avanço expressivo na curva de adoção dessas ações em comparação a levantamentos anteriores.
O que é ESG e por que ele deixou de ser apenas discurso
ESG é a sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, ou Ambiental, Social e Governança, em português. O termo descreve um conjunto de critérios usados para avaliar a sustentabilidade e o impacto ético das operações de uma empresa, indo muito além de ações isoladas de plantio de árvores ou campanhas pontuais de conscientização.
O que mudou recentemente é a forma como esse compromisso é cobrado. Como aponta levantamento de tendências para 2026, a era dos relatórios genéricos ficou para trás, e o ESG baseado em dados se tornará o novo padrão de credibilidade para empresas e investidores, com indicadores automatizados e métricas em tempo real sendo integrados aos relatórios de sustentabilidade, permitindo acompanhar de forma precisa o impacto ambiental, social e de governança.
Esse movimento de maior rigor também aparece no campo jurídico. Casos recentes de litígios envolvendo greenwashing, a divulgação enganosa de práticas sustentáveis, mostram que o risco de judicialização aumentou consideravelmente. Conforme análise especializada sobre o tema, o aumento dos litígios corporativos focados em greenwashing e climatewashing demonstra que investidores e sociedade civil estão monitorando a incoerência entre discurso e prática, e a responsabilidade fiduciária agora inclui, inegavelmente, a governança, gestão e prevenção de riscos e impactos climáticos.
Passivos ambientais e seus impactos para a empresa
Entre os diferentes desafios que compõem a agenda ambiental corporativa, os passivos ambientais ocupam um lugar particularmente delicado, já que muitas vezes envolvem problemas herdados de atividades antigas, e não necessariamente da gestão atual da empresa. Um exemplo recorrente desse tipo de passivo é a presença de solos contaminados em terrenos onde a empresa opera ou pretende se instalar.
O cenário brasileiro mostra a dimensão real desse problema. Somente no estado de São Paulo, segundo dados divulgados pela própria CETESB, a companhia tem cadastradas em seu sistema 7,5 mil áreas contaminadas, sendo que a atividade industrial é a maior fonte de contaminação do solo e da água subterrânea nos ambientes urbanos. Desse total, uma parcela significativa já passou por processo de remediação, já que 41% das áreas cadastradas como contaminadas no estado já foram reabilitadas.
Esse tipo de passivo costuma se tornar um problema concreto justamente no momento em que a empresa precisa expandir, vender o imóvel, obter financiamento ou simplesmente mudar o uso de um terreno antigo. Como destaca o presidente da CETESB, Thomaz Toledo, o Brasil está vivenciando a substituição de áreas que no passado foram industriais por edificações para serviços e moradia, processo que também atravessa as principais capitais do país, o que torna a regularização desses terrenos uma etapa cada vez mais relevante dentro da gestão de risco ambiental corporativo.
Identificar, diagnosticar e, quando necessário, remediar áreas com histórico de contaminação não é apenas uma exigência legal isolada, é parte de uma gestão ambiental responsável que protege a empresa de riscos futuros, sejam eles jurídicos, financeiros ou reputacionais.
Gestão de resíduos e economia circular
Outro pilar importante da responsabilidade ambiental corporativa é a forma como a empresa lida com os resíduos gerados em sua cadeia produtiva. O conceito de economia circular, que busca reaproveitar materiais e reduzir desperdício ao máximo, vem ganhando espaço dentro das estratégias ESG mais maduras.
Algumas frentes têm se destacado nesse movimento, segundo análises recentes do setor:
Gestão hídrica e saneamento, com empresas investindo em tecnologias que reduzem desperdício, tratam e reaproveitam água, fortalecendo eficiência operacional e imagem sustentável.
Rastreabilidade de cadeias produtivas, garantindo maior controle sobre a origem de matérias-primas e o destino de resíduos gerados ao longo de toda a operação.
Aprofundamento do olhar sobre fornecedores, já que empresas maiores estão sendo cada vez mais responsabilizadas pelos impactos ambientais e sociais causados por toda a sua cadeia, incluindo fornecedores menores.
Como construir uma cultura de sustentabilidade na empresa
Transformar responsabilidade ambiental em prática consistente, e não apenas discurso pontual, exige uma estrutura organizacional dedicada a esse propósito. Alguns passos costumam orientar empresas que buscam avançar de forma séria nesse tema:
Avaliar a maturidade ESG atual da empresa, identificando lacunas frente às exigências regulatórias mais recentes, como as normas IFRS S1 e S2.
Investir em sistemas de gestão de dados, permitindo mensuração contínua e confiável de indicadores ambientais, sociais e de governança.
Mapear passivos ambientais existentes, incluindo a situação de terrenos e instalações que possam ter histórico de contaminação de solo ou água subterrânea.
Capacitar lideranças e equipes internas, especialmente nas áreas de finanças, compliance e estratégia, para que a sustentabilidade seja tratada como parte do negócio, e não como projeto isolado.
Engajar fornecedores e parceiros, exigindo práticas sustentáveis verificáveis ao longo de toda a cadeia produtiva, e não apenas dentro dos próprios limites da empresa.
Empresas que tratam a sustentabilidade como programa contínuo, com governança própria, dados confiáveis e metas verificáveis, tendem a colher resultados concretos, do acesso a crédito mais barato à atração de investidores e talentos, além de blindagem contra riscos regulatórios e reputacionais cada vez mais presentes no cenário atual.
Perguntas frequentes
ESG é obrigatório para todas as empresas no Brasil?
A obrigatoriedade de relatórios de sustentabilidade no padrão internacional, por ora, se aplica principalmente a empresas listadas na B3. No entanto, a pressão por práticas ESG verificáveis vem se estendendo a empresas de todos os portes, especialmente aquelas que fazem parte de cadeias de fornecimento de grandes companhias.
O que acontece se uma empresa tiver um terreno com solo contaminado?
A empresa precisa seguir o processo de identificação, diagnóstico e, quando necessário, remediação da área, conforme as normas ambientais vigentes no estado onde o imóvel está localizado. Esse processo costuma envolver órgãos ambientais estaduais, como a CETESB em São Paulo, e pode incluir restrições de uso até que a área seja considerada regularizada.
Pequenas e médias empresas também precisam se preocupar com ESG?
Sim, cada vez mais. Embora a obrigatoriedade regulatória formal recaia principalmente sobre empresas listadas em bolsa, fornecedores de todos os portes vêm sendo exigidos a comprovar práticas sustentáveis para manter contratos com grandes compradores, especialmente em cadeias produtivas mais exigentes.
O que é greenwashing e por que ele está sendo mais punido?
Greenwashing é a divulgação de informações enganosas sobre práticas ambientais, criando uma imagem de sustentabilidade que não corresponde à realidade das operações da empresa. O aumento de litígios e a maior exigência de dados verificáveis têm tornado essa prática mais arriscada, com consequências jurídicas e reputacionais cada vez mais sérias para quem a pratica.
Como uma empresa descobre se possui passivos ambientais relacionados a solos contaminados?
O primeiro passo costuma ser consultar os cadastros públicos de áreas contaminadas mantidos pelos órgãos ambientais estaduais, como a CETESB em São Paulo. Em seguida, pode ser necessário contratar uma avaliação ambiental especializada para diagnosticar a real situação do terreno e definir as medidas de regularização necessárias.




