{"id":243473,"date":"2019-04-05T08:26:39","date_gmt":"2019-04-05T11:26:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.lavras24horas.com.br\/portal\/?p=243473"},"modified":"2019-04-05T08:26:39","modified_gmt":"2019-04-05T11:26:39","slug":"um-fantasma-no-trem-parte-13-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lavras24horas.com.br\/portal\/um-fantasma-no-trem-parte-13-2\/","title":{"rendered":"Um Fantasma no Trem &#8211; Parte 13"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(CONTINUA\u00c7\u00c3O)&#8230; terem sido adquiridas em grande n\u00famero, quanto por terem sido p\u00e9ssimas locomotivas&#8230; Sim, p\u00e9ssimas locomotivas n\u00e3o tem como serem \u201cpostas \u00e0 prova\u201d e \u201csobrevivem\u201d. Mas o importante \u00e9 que eram lindas. Eram paix\u00e3o de muito \u201cmaluco por trem\u201d. Ananias as via e temia por seus destinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Andou mais e n\u00e3o esperava por aquilo: deu de cara com uma <em>espanta-dem\u00f4nio<\/em> \u2013 uma das valentes Baldwim AS-616 <em>Diesel<\/em> \u2013 e ela estava\u00a0 completa. Os vidros inteiros, as portas fechadas e, por incr\u00edvel, at\u00e9 o sino dela estava, ainda, dependurado na parte frontal, no meio da horr\u00edvel \u201ctesteira\u201d. Estava ainda completo o visual que inspirara algu\u00e9m a dar-lhe o inibidor apelido&#8230; Teria sido aquela, \u00e0 sua frente, a que colidiu com o <em>Mikado<\/em> \u201cde montagem alta\u201d de Te\u00f3filo, causando-lhe baixa total, l\u00e1 na linha em bitola mista do \u201cp\u00e1tio dos aposentados\u201d de <em>Serra Branca<\/em>? Por que n\u00e3o? No mais, aquela AS-616 era a \u00faltima, remanescente de um total de doze unidades de bitola larga, importada dos E.U.A. (vieram juntamente com um verdadeiro \u201cformigueiro\u201d de <em>canadenses<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As Baldwin AS-616 acabaram de tanto que eram \u201cboas\u201d; de tanto trabalhar pesado. Rebocaram, mesmo em pequeno n\u00famero, uma montanha de min\u00e9rio das minas de Minas. Estava, a \u00faltima delas, ao relento&#8230; Merecia um destino melhor, com certeza; merecia exposi\u00e7\u00e3o num museu, no m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E Ananias continuava seu \u201cturismo ferrovi\u00e1rio\u201d. Deu de cara \u2013 j\u00e1 esperava \u2013 com uma MLW-ALCO RSD-12. Era da fam\u00edlia das <em>Biribas<\/em> e <em>canadenses<\/em>, por\u00e9m j\u00e1 \u201cesteticamente\u201d proveniente de uma gera\u00e7\u00e3o \u201cpolivalente\u201d, no sentido de poder atender a qualquer tipo de servi\u00e7o numa ferrovia \u2013 ou seja, n\u00e3o traziam o \u201cestilo suicida\u201d das <em>Biribas<\/em>.\u00a0 Tamb\u00e9m vieram dos EUA, em pequeno grupo \u2013 as quais, algumas, eram vistas por ali j\u00e1 em estado deplor\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No folclore dos apelidos, as RSD-12 pegaram apelido de <em>jumb\u00e3o<\/em>&#8230; Ananias, que fazia intui\u00e7\u00f5es quando n\u00e3o tinha os dados concretos, s\u00f3 podia interpretar que tinham , as RSD-12, quando em esfor\u00e7o m\u00e1ximo de tra\u00e7\u00e3o, \u201cbarulho de jumbo decolando\u201d, afinal considerava que tinham barulho de jato decolando (quando a <em>carga plena<\/em>) as suas \u201cirm\u00e3s\u201d mais novas. Sim, as RSD-12 tinham \u201cparentes\u201d bem pr\u00f3ximos, em linhas brasileiras. Eram exclusivas para a bitola m\u00e9trica e foram nomeadas MX (MLW-ALCO MX 6.20). Eram locomotivas que existiam em sua regi\u00e3o de morada. As MX traziam o mesmo motor das RSD-12. Um motor que, em esfor\u00e7o m\u00e1ximo, lembrava o barulho de um jato decolando \u2013 por sinal, tais MX, eram excelentes locomotivas que, claro, estavam condenadas a \u201cacabar de tanto trabalhar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias via e \u201cvivia\u201d, naqueles dias, as locomotivas de bitola larga, que eram sempre mais famosas e lembradas por constitu\u00edrem modelos de frotas internacionais \u201cpadronizadas\u201d na \u201cfonte\u201d, ou seja, na Am\u00e9rica do Norte, especialmente nos EUA&#8230; Como sabemos, para a nossa bitola m\u00e9trica, os americanos tiveram que fabricar locomotivas exclusivas \u2013 por isso, a maioria de nossas locomotivas, sempre \u00a0diferiu-se,\u00a0 em porte, das do padr\u00e3o americano. No entanto, a tend\u00eancia (tudo j\u00e1 vinha indicando, em nossas ferrovias) seria adotar, de vez, o padr\u00e3o americano de locomotiva, com adapta\u00e7\u00f5es para rodar em nossas linhas estreitas e tortas. Mas, enfim (e justificando a inclus\u00e3o das nossas locomotivas de bitola estreita), ao \u201cmaluco por trem\u201d interessa todo tipo de locomotiva&#8230; Podemos, entretanto, ir despedindo-nos das antigas locomotivas da bitola m\u00e9trica \u2013 as diversas GM G-8, G-12, G-16 e diversas GT, ou GE U20-C e outras da bitola m\u00e9trica, de mais ou menos pot\u00eancia e, tamb\u00e9m das MX 6.20 e outras mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E Ananias prosseguia. Entrou para a cabine de uma \u201cveterana\u201d SD-18 \u2013 a locomotiva que \u201cse recusava a acabar\u201d. Aquela que encontrou estava at\u00e9 que bastante completa. Faltava-lhe o gerador principal e os motores de tra\u00e7\u00e3o, mas a cabine estava \u00edntegra. Ananias j\u00e1 tinha viajado em cabine de uma delas, mas o que queria era ler, com calma, a placa relativa aos arm\u00e1rios el\u00e9tricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A placa, em portugu\u00eas, trazia, em letras menores, o equivalente em ingl\u00eas.\u00a0 Ficava na porta de um de seus arm\u00e1rios el\u00e9tricos internos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava \u00a0l\u00e1: \u201cWarning: do not cleam or file alloy contact tips in electrical aparatus. Their operation will be satisfactory in spite of their worn or burned appearance. Renew the tips when alloy is completely worn\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E a tradu\u00e7\u00e3o: \u201cAten\u00e7\u00e3o: Nunca limpe, raspe ou lixe os contatos feitos de liga nos aparelhos el\u00e9tricos. A opera\u00e7\u00e3o deles ser\u00e1 satisfat\u00f3ria apesar da apar\u00eancia gasta ou queimada. Substitua os contatos quando a liga j\u00e1 estiver completamente gasta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias chegou a ver placas id\u00eanticas nas G-8 e G-12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias lia em l\u00edngua inglesa e lembrava-se, ent\u00e3o, do que ele chegou a chamar (\u201cpreconceituosamente\u201d) de \u201cfator americano\u201d&#8230; Por\u00a0 exemplo (e voltando ao assunto privatiza\u00e7\u00e3o): medo maior que simplesmente \u201cperder\u201d as ferrovias (Ananias, a exemplo de uns colegas, chegou a considerar que, se estatal era a ferrovia, ent\u00e3o era dele, tamb\u00e9m), tinha ele, medo de \u201cperd\u00ea-las\u201d, justamente, para os americanos&#8230; Tanto \u00e9 que, por ocasi\u00e3o do come\u00e7o das conversas sobre privatiza\u00e7\u00e3o, quando ouvia dizer\u00a0 que canadenses, franceses e japoneses vinham \u201cpra c\u00e1\u201d (para o Brasil) \u201cinvestir em nossas ferrovias\u201d, relaxava e sentia at\u00e9 certo orgulho&#8230; Mas, \u201camericanos n\u00e3o!\u201d \u2013 decidia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ironicamente, na \u201chora do vamos ver\u201d, na \u201chora do pega pra capar\u201d, s\u00f3 americanos deram as caras; S\u00f3 eles se interessaram por nossas linhas estreitas e tortas. S\u00f3 eles nos deram uma pequena (e poss\u00edvel) \u201ccanja\u201d \u2013 e depois, claro, foram-se, aliviados (e com a sensa\u00e7\u00e3o de \u201cdever cumprido\u201d)&#8230; Ora, se ferrovia brasileira apenas em l\u00edngua nativa j\u00e1 constitui esp\u00e9cies de \u201ccasa da m\u00e3e Joana\u201d \u2013 em geral na estrutura e, em casos particulares de organiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica \u2013 imagine-se, ent\u00e3o, pondo um idioma diferente na bagun\u00e7a (?!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia n\u00e3o \u00e9 longo quando se faz o que se gosta e Ananias j\u00e1 se ocupava mais em procurar a <em>Biriba<\/em>. Entrou, ent\u00e3o, no pr\u00e9dio maior e subiu uma escada para uma ala superior que, certamente, teria sido uma \u00e1rea de montagem de motores, pois viam-se, ainda, vest\u00edgios dos maquin\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Estando na ala superior, \u201cachou\u201d o outro lado do n\u00edvel inferior e viu outras locomotivas. Via-as por cima. Juntas estavam pequenas manobreiras e, tamb\u00e9m, locomotivas maiores. Tomou uma rampa larga e suave, que dava acesso \u00e0quele lado e come\u00e7ou a descer; Ao caminhar, largas pilastras de sustenta\u00e7\u00e3o lhe interrompiam a vis\u00e3o do n\u00edvel inferior&#8230; Foi quando, entre duas pilastras, olhou e teve uma \u201cvis\u00e3o de sonho\u201d. Era ela; Estava frente a frente com a <em>Biriba<\/em>. Ficou paralisado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Estacou-se e, a princ\u00edpio, tinha medo de piscar os olhos. Tinha medo de que, ao voltar a mir\u00e1-la, ela voltasse como uma Kombi ou como um \u00f4nibus \u2013 como chegou a acontecer nalguns sonhos que tivera. N\u00e3o conseguia andar, mas, para se certificar que n\u00e3o sonhava, tomou coragem e passou a piscar os olhos, por diversas vezes&#8230; E a <em>Biriba <\/em>continuava real, com seu \u201cfocinho de cachorro\u201d, o farol ainda inteiro, a buzina no lugar certo, os dois vidros frontais ainda inteiros. A ponta do escapamento ainda aparecia por cima dela e, no engate dianteiro, apenas faltava a \u00a0mand\u00edbula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O n\u00famero frontal estava confuso de entender em meio aos desbotamentos sobrepostos das diversas dem\u00e3os de tinta que recebera \u201cna linha do tempo\u201d, mas o que importava \u00e9 que ali estava uma delas; representava todas as outras que j\u00e1 n\u00e3o existiam mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, era a <em>Biriba<\/em>, ainda em bom estado de conserva\u00e7\u00e3o. Estava frente a frente com a \u00faltima ALCO FA-1 de nossas linhas. A locomotiva com um estilo que dava \u201cideia de for\u00e7a aliada \u00e0 beleza\u201d. A locomotiva que \u201cfez \u00e9poca\u201d. Tinha que ir at\u00e9 ela. Tinha\u00a0 que descer a rampa mais uns dez metros e, depois, caminhar at\u00e9 ela. Fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproximou-se, sem \u201ctoc\u00e1-la\u201d. Foi para a parte traseira dela, para certificar-se o qu\u00e3o parecia um vag\u00e3o de passageiros; Ficou muito tempo olhando. Depois foi para um dos lados e viu que faltava o vidro redondo da porta do meio&#8230; e a porta de entrada da cabine estava entreaberta \u2013 como a esper\u00e1-lo. Subiu a escada e entrou para a cabine. Olhou r\u00e1pido, abrangendo tudo \u2013 depois pousaria em cada detalhe. O painel de comando estava bem completo, por\u00e9m estava faltando o banco do maquinista e tamb\u00e9m o veloc\u00edmetro \u2013 o cabo dele estava ca\u00eddo pelo assoalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, foi p\u00f4r-se na prov\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o de um condutor, imaginando um banco. No entanto, n\u00e3o conseguia alcan\u00e7ar em pensamento a situa\u00e7\u00e3o ou \u201csimula\u00e7\u00e3o\u201d de quem viveu \u2013 para ele \u2013 t\u00e3o raro privil\u00e9gio: o de ter sido um de seus maquinistas pelas linhas de bitola larga da \u201cCentral\u201d. Como n\u00e3o sossegava, foi logo para o passadi\u00e7o interno; foi para a \u201ccasa das m\u00e1quinas\u201d. Sentiu o cheiro ainda forte de \u00f3leos pesados. Olhou para o motor frio, com algumas tampas mal atarraxadas e espantou-se com o grande Gerador-Mestre, que tinha ali seu \u201cinduzido\u201d, agora revelado \u2013 e estava tomado por azinhavre&#8230; Lembrou-se do manobrador Dick, l\u00e1 de <em>Serra Branca<\/em>, que falou ter passado maus bocados a bordo de uma delas (falara que, ao passar pelo passadi\u00e7o interno, junto ao motor acelerado, teve l\u00ednguas de fogo a rodear-lhe a cabe\u00e7a; labaredas que lhe acompanharam at\u00e9 a volta estrat\u00e9gica \u00e0 cabine).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias percorreu todo o passadi\u00e7o interno e foi at\u00e9 a porta traseira.\u00a0 Olhou, apaixonadamente, por ela, que tantas vezes esteve atrelada \u00e0 frente do <em>trem-de-a\u00e7o<\/em>&#8230; Podia ver o vag\u00e3o <em>Budd<\/em> balan\u00e7ando. Depois, mais sossegado, voltou \u00e0 cabine e sentou-se no banco do auxiliar e relembrou de novo o dia em que, quando crian\u00e7a, vira de perto uma delas em atividade&#8230; \u201cTalvez aquela,\u00a0 talvez aquela\u201d \u2013 por que n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha uns dez anos de idade e estava de passagem por uma cidade n\u00e3o muito distante dos arredores da capital paulista. A primeira etapa da viagem fora de \u00f4nibus, a segunda seria de trem. Acostumado \u00e0s linhas estreitas e tortas de sua regi\u00e3o, admirou ao ver, pela primeira vez, aqueles robustos trilhos, t\u00e3o longe um do outro.\u00a0 Mais surpreso ainda ficou quando viu despontar o <em>trem-de-a\u00e7o<\/em> \u2013 o \u201ctrem dos ricos\u201d, segundo o seu pai. O comboio surgiu e veio t\u00e3o r\u00e1pido que parecia que n\u00e3o ia parar na esta\u00e7\u00e3o. A locomotiva que estava \u00e0 frente dele, viria um dia a\u00a0 saber, era uma <em>Biriba.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela pareceu-lhe ser parte do pr\u00f3prio <em>trem-de-a\u00e7o<\/em>, afinal sua frente lembrava a ponta de um ferro el\u00e9trico e, a parte traseira, \u201ccasava-se\u201d perfeitamente com os carros de passageiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 ficava claro que n\u00e3o era parte daquele trem, porque tinha cor diferente daqueles fabulosos vag\u00f5es&#8230; Tinha, ela, a mesma cor das locomotivas, de todos os cargueiros que j\u00e1 tinha visto, at\u00e9 ent\u00e3o (as mesmas cores da ferrovia de sua regi\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E, lembrava: o <em>trem-de-a\u00e7o<\/em> parou \u2013 e n\u00e3o embarcariam nele. Ananias puxou seu pai \u2013 que foi \u2013 para os lados da locomotiva do trem.\u00a0 Enquanto a olhava sem piscar, escutava o \u201cbatido\u201d do motor que nunca lhe saiu da lembran\u00e7a. Depois, a bela locomotiva arrancou r\u00e1pido, deixando uma nuvem de fuma\u00e7a na plataforma&#8230; Quando os vag\u00f5es passavam j\u00e1 ventava, e seu pai o conteve junto \u00e0 parede da esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trem que iam \u2013 um \u201cexpressinho\u201d \u2013 veio depois e surgiu com outra locomotiva ainda estranha demais para ele. Veio com uma <em>canadense<\/em> RS-3 (ficaria sabendo mais tarde) que, tamb\u00e9m, o impressionou muito, mas n\u00e3o tiraria o \u201clugar\u201d da <em>Biriba<\/em>. A composi\u00e7\u00e3o do \u201cexpressinho\u201d era de alguns carros azuis e outros em madeira. Veio e parou na esta\u00e7\u00e3o trepidando a timoneria de freios. Depois, os vag\u00f5es ficaram \u201ctrincando\u201d, enquanto ouvia-se que j\u00e1 soltavam o ar dos freios&#8230; Recordava que tudo pedia pressa em \u201cch\u00e3o paulista\u201d; lembrava-se do toque \u201curgente\u201d da campainha da esta\u00e7\u00e3o. O embarque pedia rapidez e seu pai o levantara para que alcan\u00e7asse o primeiro degrau do vag\u00e3o; Entrou e correu para uma janela. O trem arrancou e passou por diversos lugares e p\u00e1tios e, num deles, ficou-lhe a convic\u00e7\u00e3o de que viu, num lugar cheio de outras locomotivas, uma\u00a0 outra <em>Biriba<\/em>&#8230; Por\u00e9m, aquela estava de \u201cr\u00e9\u201d, cuja parte traseira, viu, n\u00e3o exatamente lembrava uma locomotiva tradicional e, sim, um vag\u00e3o de passageiros. Mas era uma delas, tinha certeza; era vermelha com listas amarelas como a que vira, antes, no <em>trem-de-a\u00e7o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela fora a \u00fanica vez em que se deparou com a <em>Biriba<\/em>; claramente num primeiro momento e, vagamente, noutro. Tamb\u00e9m, fora a primeira vez que vira uma <em>canadense<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto a <em>Biriba<\/em>, esta mais o impressionou, mas n\u00e3o lhe dera \u201ctrabalho\u201d a princ\u00edpio, pois seu designe era f\u00e1cil de guardar na mem\u00f3ria. J\u00e1, as <em>canadenses<\/em>, o fizeram, ainda enquanto crian\u00e7a, \u201cir \u00e0 prancheta\u201d e tentar desenh\u00e1-las&#8230; e mantivera em lugar seguro aqueles esbo\u00e7os certeiros.\u00a0 Sa\u00eddo da inf\u00e2ncia e entrado para a adolesc\u00eancia, nas poucas vezes em que novamente andara por aquelas bandas paulistas (visitava av\u00f3 e tios), ainda chegara a ver verdadeiros \u201cformigueiros\u201d das <em>canadenses<\/em> (\u00e0s quais tratava por, \u201cvermelhinhas esquisitas\u201d), mas, quanto a <em>Biriba<\/em>, n\u00e3o mais&#8230; E isso \u00e9 que lhe provocara sonhos com ela, vida afora. Porque \u201csumira do mapa\u201d. Por isso, se impressionara: a linda locomotiva \u201cdesaparecera\u201d e n\u00e3o conseguia not\u00edcias sobre ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1, jovem adulto (em sua terra t\u00e3o longe da bitola larga), conversava sobre trens com ferroviaristas e ferrovi\u00e1rios conterr\u00e2neos seus. Tentava e n\u00e3o conseguia explicar nem fazer entender, a ningu\u00e9m, a tal locomotiva \u2013 a <em>Biriba<\/em> (ainda sem saber nome ou apelido). Traziam-lhe fotos diversas, mas, sempre, n\u00e3o tinha nada a ver. Alguns colegas lhe garantiam \u2013 pelas \u201ccaracter\u00edsticas t\u00e9cnicas\u201d que forneceu \u2013 que o que vira fora uma <em>el\u00e9trica<\/em>, e n\u00e3o uma\u00a0 <em>Diesel<\/em>&#8230; Mas n\u00e3o podia concordar, pois tinha ainda na lembran\u00e7a o barulho do motor e da fumaceira que desprendera dela no momento em que ela arrancara com o <em>trem-de-a\u00e7o<\/em> \u2013 e j\u00e1 sabia que, por l\u00e1, onde a vira, n\u00e3o houvera <em>tra\u00e7\u00e3o el\u00e9trica.\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que teria fim tal \u201cagonia\u201d e pouco tempo depois surgiu uma primeira fotografia \u2013 por acaso nas p\u00e1ginas de um livro did\u00e1tico. Depois, viria a conhecer os \u201cjornaizinhos de preserva\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria\u201d, e um trazia a m\u00e1quina e a hist\u00f3ria do apelido <em>Biriba<\/em>. Melhorou, mas n\u00e3o resolveu. Queria ver a <em>Biriba<\/em> de perto, novamente. E preocupou-se, afinal, os mesmos jornais que as traziam, alertavam que s\u00f3 restava um exemplar da locomotiva.\u00a0 De entre as doze unidades que \u201cvieram dos EUA\u201d, uma s\u00f3 escapara do \u201cfamigerado ma\u00e7arico\u201d (que n\u00e3o vitimara, ent\u00e3o, somente as locomotivas a vapor).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia s\u00f3 uma <em>Biriba<\/em> de resto e come\u00e7ou a sonhar acordado com um \u201cencontro\u201d. \u00a0Mas n\u00e3o s\u00f3 sonhava acordado. Naquela expectativa, a certo ponto passou a sonhar mesmo&#8230; De vez em quando aquela locomotiva o visitava, em sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses sonhos, via-se a procur\u00e1-la. Estava no interior de oficinas escuras e via linhas em bitola incrivelmente largas, \u00e0s vezes como apenas riscos mal feitos no ch\u00e3o. Via pessoas em macac\u00f5es sujos de graxa e tentava aproximar, mas n\u00e3o conseguia; As pessoas, ent\u00e3o, por sinais, lhe apontavam onde estaria a <em>Biriba<\/em>&#8230; E ele ia. Andava entre \u201cgaragens\u201d e valas, ocupadas por equipamentos estranhos e ve\u00edculos indefinidos&#8230; Eram ve\u00edculos grandes, com rodas al\u00e9m da conta, outra hora pareciam feitos em alvenaria mal rebocada. Aquilo deixava-o confuso e continuava procurando a <em>Biriba<\/em>. Noutros momentos, dava-se com ve\u00edculos cobertos por lonas, de formato ao qual aguardava, mas que se modificava quando se aproximava, a ponto de n\u00e3o querer mais descobri-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, mas, outras vezes, encontrava-a logo. Encontrava-a descoberta e, ent\u00e3o, fitava-a embevecido. Havia encontrado a <em>Biriba<\/em> \u2013 o sonho lhe afirmava a veracidade e n\u00e3o abria m\u00e3o&#8230; Mas era decepcionante, pois n\u00e3o era sequer uma locomotiva o que via; Era algo como um caminh\u00e3o ou um \u00f4nibus, por\u00e9m com rodas e rodas de ferro que se destacavam sob \u201cela\u201d. Ent\u00e3o, olhava pra \u201cela\u201d, sem entender. \u00a0Mas, tinha que aceitar, pois o sonho n\u00e3o abria m\u00e3o de atestar a autenticidade&#8230; Acordava frustrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, Ananias sonhava com sua locomotiva mais querida; Eram sonhos que n\u00e3o tinha coragem, sequer, de comentar com os amigos \u201cmalucos por trem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u201cAs FA-1 trouxeram a ideia de velocidade e beleza para as ferrovias brasileiras\u201d \u2013 leu certa vez em um livro. Pena que por pouco tempo; Foram-se embora pra todo o sempre. O \u201ctempo de vida\u201d das <em>Biribas<\/em> foi t\u00e3o ou mais curto que o pequeno intervalo que tinham entre a chegada e o arranque nas esta\u00e7\u00f5es, quando \u00e0 frente dos diversos \u00a0<em>trem-de-a\u00e7o<\/em> que tracionou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Anoitecera e Ananias acomodou-se. Passou a noite junto \u00e0 sua <em>Biriba.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cap\u00edtulo 7<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O atraso no trem de passageiros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eterna manobra sobre \u201clama\u00e7ais pestilentos\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As frestas do telhado desarranjado deixavam antever os primeiros instantes do dia, quando Ananias acordou. Desceu da cabine da <em>Biriba<\/em> e ficou a contempl\u00e1-la, ainda que em meio ao resto de noite; Depois, foi subir de volta \u00e0 rampa que descera no dia anterior e, assim, ficou frente a ela, como na primeira vista que teve. Despedia-se. Tinha de voltar ao seu novo \u201clar\u201d \u2013 <em>Lauriano<\/em> \u2013 o quanto antes; Tinha que saber o que se passava com o maquinista Donadon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixou o \u201ccemit\u00e9rio de locomotivas\u201d e foi para a esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria ativa mais pr\u00f3xima do local. L\u00e1 chegando, viu que a plataforma j\u00e1 estava cheia de passageiros. Eram pessoas que consultavam constantemente seus rel\u00f3gios e n\u00e3o portavam malas ou bolsas de viagem&#8230; \u00c9 que aguardavam os \u201ctrens de sub\u00farbio\u201d \u2013 ali era uma das etapas do corre-corre das cidades grandes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A plataforma da esta\u00e7\u00e3o era longa e havia linha nos dois lados dela; de um lado estacionou um TUE (Trem Unidade El\u00e9trico). Embarcaram muitos em tal trem urbano e ele arrancou em dire\u00e7\u00e3o ao centro da metr\u00f3pole; Ananias quase n\u00e3o se conteve em ir. Ficaram outros passageiros com alguma bagagem; Eram os que iam para o \u201cinterior\u201d, no \u00fanico trem de passageiros de longo percurso que rodava naquela ferrovia \u2013 por acaso, era dia dele&#8230; O retorno nele n\u00e3o fora programado por Ananias \u2013 que at\u00e9 se surpreendeu com a boa coincid\u00eancia&#8230; Ent\u00e3o, embarcou com gosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal trem de passageiros, de longo percurso \u2013 que tinha at\u00e9 carinhoso apelido entre seus usu\u00e1rios \u2013 veio de \u201cmarcha \u00e0 r\u00e9\u201d para a esta\u00e7\u00e3o; Estacionou assim, j\u00e1 virado para o lado que seguiria viagem. Destino: <em>Lauriano<\/em>; Um percurso longo, de \u201cdia todo\u201d. Longo, porque foram encerrados muitos trens de passageiros de percurso curto e aquele que restara passou a cobrir um percurso maior, abrangendo as m\u00faltiplas sec\u00e7\u00f5es dos anteriores. Estava com sete carros de a\u00e7o-carbono, azuis e brancos, ainda com o logotipo da estatal \u2013 tr\u00eas de \u201cprimeira\u201d, tr\u00eas de \u201csegunda\u201d e um bagageiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conta da tra\u00e7\u00e3o estava \u2013 de \u201ccapot\u00e3o\u201d \u2013 uma enfuma\u00e7ada U20-C. Ananias tomou o \u00faltimo vag\u00e3o, que estava ocupado pela metade. O trem buzinou \u2013 no primeiro momento em que j\u00e1 n\u00e3o existia mais vest\u00edgio nenhum da noite \u2013 e arrancou. As rodas procuravam o caminho certo numa confus\u00e3o sem fim de travess\u00f5es, chaves e bifurca\u00e7\u00f5es, o que fazia os vag\u00f5es se contorcerem em posi\u00e7\u00f5es desiguais entre eles&#8230; Ananias notou que aqueles vag\u00f5es, rodando naquele \u201cbitol\u00e3o\u201d, davam ou tomavam l\u00e1 os seus arrancos, como acontecia aos da bitola m\u00e9trica. Era tudo trem, afinal, mas, lembrava que nos vag\u00f5es de bitola m\u00e9trica os arrancos n\u00e3o comprometiam tanto o conforto \u2013 os vag\u00f5es de bitola m\u00e9trica balan\u00e7am mais e amortecem os baques da linha&#8230; Por dentro eram iguais, at\u00e9 nos escritos de avisos aos passageiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O conglomerado urbano, bem como o emaranhado de trilhos, ficou pra tr\u00e1s, e a serra impunha-se, \u00e0 frente. De entre as duas vias que sobraram, o \u201ctrem azul\u201d subiu pela da direita, a <em>Linha 1<\/em>&#8230; Ganhou velocidade e lufadas de fuma\u00e7a, do motor da locomotiva, varriam, esporadicamente, o interior dos vag\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o demorou e apareceu, na <em>Linha 2<\/em>, um trem de min\u00e9rio descendo a serra. Mais acima, outro trem, e cruzaram em movimento. Na passagem das locomotivas, os escandalosos ventiladores do freio din\u00e2mico lan\u00e7avam lufadas de ar quente nos passageiros e as crian\u00e7as que estavam a bordo se esbaldavam \u2013 alguns adultos tapavam os ouvidos; m\u00e3es traziam os pequenos para mais junto de si. Na carreira de vag\u00f5es, alguns passavam com a timoneria roncando, outros, com rodas assoviando \u2013 tudo, em raz\u00e3o da fric\u00e7\u00e3o dos freios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201ctrem azul\u201d prosseguia, fazendo paradas em velhas plataformas sem cobertura \u2013 onde embarcavam poucas pessoas. A molecada, agora em novo entretenimento, procurava cachos nas bananeiras de folhagem esfuma\u00e7ada. Mais acima, as mudan\u00e7as de ares mudaram as expectativas. \u00c9 que, quando sentia carni\u00e7a no ar, a molecada procurava carca\u00e7as de animais pelas encostas das linhas e bocas dos t\u00faneis. Ananias \u2013 que virara crian\u00e7a de novo \u2013 reconheceu logo quando passaram pelo <em>balan\u00e7o<\/em> \u201cdas bananeiras\u201d. Um pouco acima dele, o trem parou, sem um motivo aparente \u2013 respeitava um sem\u00e1foro com sinal vermelho&#8230; Ananias pensou na hip\u00f3tese de um cargueiro desgovernado, ao qual poderia passar ali ao lado deles, a bem mais de \u201ccem por hora\u201d&#8230; \u201cduzentos por hora\u201d, talvez (como se comportaria a molecada?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, n\u00e3o; N\u00e3o era bem assim a coisa! Aquilo, que presenciara dois dias antes, fora um caso raro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Dali a pouco o trem tomou marcha. Passou por um travess\u00e3o e foi trafegar pela <em>Linha 2<\/em>. Mais \u00e0 frente, o motivo por qual havia feito a parada: um cargueiro com vag\u00f5es carregados de carv\u00e3o subia muito lento pela <em>Linha 1<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E, prosseguindo, pais e m\u00e3es come\u00e7aram a por alguma blusa nos pequenos; O trem j\u00e1 mergulharia no \u201ct\u00fanel grande\u201d. O vag\u00e3o n\u00e3o acendeu luzes e, \u00e0 entrada dele a molecada gritou&#8230; e, depois, se calara de modo engra\u00e7ado. \u00c0 sa\u00edda dele, gritou mais, e depois, na escurid\u00e3o do \u201ct\u00fanel da virada\u201d, calou-se de novo&#8230; E \u201cd\u00e1-lhes\u201d \u2013 aos passageiros \u2013 fuma\u00e7a a valer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabou a subida, veio a \u00a0descida longa e a fumaceira diminuiu. O trem tomou um travess\u00e3o de volta \u00e0 <em>Linha 1<\/em> e prosseguia. Depois chegou a <em>cidade-tri\u00e2ngulo<\/em>. Ali, tiraram aquela U20-C de \u201ccapot\u00e3o\u201d e colocaram outra U20-C, de \u201ccapotinha\u201d. Tamb\u00e9m, acrescentaram mais alguns vag\u00f5es ao trem; que seguiriam em \u201ccarona\u201d&#8230; Eram cinco vag\u00f5es <em>Budd<\/em> enormes, os remanescentes do <em>trem de a\u00e7o<\/em> \u2013 eram os lindos e famosos vag\u00f5es em a\u00e7o inoxid\u00e1vel. O motivo da anexa\u00e7\u00e3o de tais vag\u00f5es era lev\u00e1-los dali para o n\u00facleo <em>Lauriano<\/em>, para que recebessem certa manuten\u00e7\u00e3o programada. Portanto, n\u00e3o levariam passageiros a bordo&#8230; Estavam totalmente fechados e foram colocados ap\u00f3s a composi\u00e7\u00e3o dos carros azuis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trem arrancou em mais fuma\u00e7a pelo trecho afora; aquela U20-C, por sinal, parecia estar emitindo mais fuma\u00e7a que a anterior. O trem andava bem nos n\u00edveis, mas Ananias observou que levava certo tempo pra alcan\u00e7ar a velocidade usual. \u00c9 que sua composi\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o estava das mais leves para uma locomotiva de porte m\u00e9dio. Eram doze vag\u00f5es, sendo que os de a\u00e7o eram bem maiores e, portanto, mais pesados. Mas, trem rodando, n\u00e3o era s\u00f3 o peso da composi\u00e7\u00e3o que incomodava a Ananias. Ele percebera que aquela locomotiva estava, automaticamente, \u201cpondo areia nas transi\u00e7\u00f5es\u201d. Sim, n\u00e3o era s\u00f3 fuma\u00e7a do motor que respiravam l\u00e1 nos vag\u00f5es. Muito do que entrava para o interior dos carros era p\u00f3 de areia, que se esparramava no ar depois de triturado no contato roda\/trilho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Os passageiros, que n\u00e3o sabiam exatamente do que se tratava, falavam em \u201cfuma\u00e7a suja\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquilo, o fato de a locomotiva estar \u201cpondo areia nas transi\u00e7\u00f5es\u201d era coisa cara a Ananias que, mais uma vez, j\u00e1 relutava em n\u00e3o se lembrar de seus inventos (ocasi\u00e3o que sempre perdia a batalha)&#8230; Sim, Ananias tamb\u00e9m se ocupara daquilo; do fato de locomotivas \u00a0<em>Diesel<\/em> desperdi\u00e7arem areia, sobre trilhos secos. Ananias se preocupava com o desperd\u00edcio de areia, comumente feito em qualquer ferrovia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o se preocupava exatamente com o mineral em si; sua extra\u00e7\u00e3o ou coisa assim. Preocupava-se, acredite, com o preju\u00edzo que tinham as ferrovias, com aquela aberra\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica chamada \u201cmodo areeiro autom\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lembremo-nos, primeiro, de que, areeiros de locomotiva comp\u00f5em-se de um reservat\u00f3rio (para portar areia seca e limpa), de canos de condu\u00e7\u00e3o, de \u201cv\u00e1lvula do areeiro\u201d (que \u00e9 pe\u00e7a onde o ar comprimido \u201cencontra\u201d com a areia, visando a impulsion\u00e1-la ao contato roda\/trilho)&#8230; Lembremos que areia \u00e9 um mineral muito precioso \u00e0 ferrovia; \u00c9 necess\u00e1ria para corrigir (ou reestabelecer) a ader\u00eancia entre rodas de tra\u00e7\u00e3o de locomotiva e trilhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pois sim, o \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d daquela locomotiva estava atuando. Atuando, automaticamente, num momento em que n\u00e3o se precisava de areia ou, no m\u00ednimo, atuando num momento menos necess\u00e1rio do que poderiam (o trem) ter \u00e0 frente. Se aquilo estava acontecendo, a locomotiva poderia ficar sem areia antes do final da viagem&#8230; \u201cPor que a ferrovia n\u00e3o se dava conta daquilo? O que levava as ferrovias a manter funcionando, integralmente, a tal desastroso \u2018areeiro autom\u00e1tico\u2019\u201d? \u2013 perguntava-se Ananias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O areeiro de locomotivas \u00e9 um acess\u00f3rio essencial e obrigat\u00f3rio a elas&#8230; Mas o modo \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d \u00e9 uma extravag\u00e2ncia que \u201cvem de f\u00e1brica\u201d (portanto \u201cimex\u00edvel\u201d, dentro da enferrujada burocracia da ferrovia)&#8230; \u00c9, com certeza, um bom apelo de venda, mas \u00e9 algo desnecess\u00e1rio, pois o maquinista conhece a linha e onde (e o momento) que se precisa fazer eje\u00e7\u00e3o de areia no percurso de um trem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O maquinista tem os \u201cpedais\u201d ou \u201cbot\u00f5es\u201d de areeiro ao seu dispor e alcance, o que possibilitam aplic\u00e1-la, no momento certo. A aplica\u00e7\u00e3o de areia s\u00f3 pelo acionamento manual, ao alcance do maquinista (que sabe o \u201cmomento\u201d) j\u00e1 \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O modo \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d \u00e9 desastroso e pode se tornar prejudicial t\u00e3o logo a locomotiva inicie trabalho. Ele toma do maquinista a fun\u00e7\u00e3o de aplicar areia, mas, no m\u00ednimo, exagera \u2013 ao aplicar areia em momentos que n\u00e3o se precisa dela, de fato. O \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d n\u00e3o \u00e9 \u201cinteligente\u201d o bastante pra diferenciar todas as situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ananias via aquilo acontecer com frequ\u00eancia assustadora na ferrovia de sua regi\u00e3o e tentou levar \u00e0s chefias competentes uma sugest\u00e3o de se criar um reles \u201cbot\u00e3o interruptor\u201d&#8230; Mas, nem a tal obviedade conseguiram entender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0E Ananias, honesto consigo mesmo, sabia que, em algumas antigas locomotivas <em>Diesel-el\u00e9tricas<\/em> houvera, em rela\u00e7\u00e3o aos areeiros, algo de inteligente. Alguns daqueles antigos modelos possu\u00edam, como acess\u00f3rio de f\u00e1brica, a op\u00e7\u00e3o \u201cisolar um lado\u201d (dos areeiros), por meio de um bot\u00e3o interruptor. Um veterano maquinista havia lhe falado sobre isso, mas assegurou que era um \u201csistema ignorado\u201d e que, por sinal, n\u00e3o eram eles, maquinistas, autorizados a mexer (teria sido algo proibido, lacrado). Com o tempo n\u00e3o se falou mais naquilo e, por sinal, com o tempo, descaracterizara-se a quest\u00e3o no sentido de se encontrar, sequer, um bot\u00e3o interruptor para a op\u00e7\u00e3o oferecida&#8230;\u00a0 E, complementou o veterano maquinista, mesmo tal anterior bot\u00e3o interruptor n\u00e3o ficava exatamente ao alcance do condutor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conclusivamente, entendeu Ananias, aquele bot\u00e3o, estranhamente \u201cescondido\u201d, teria sido uma medida \u2013 de f\u00e1brica \u2013 no sentido de evitar desperd\u00edcio nos muitos casos de \u201careeiro disparado\u201d. O que Ananias propunha, ent\u00e3o, era aprimorar uma \u201cideia esquecida\u201d, atualiz\u00e1-la e&#8230; empreg\u00e1-la de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No entanto, todas as ferrovias \u2013 constatava de vez \u2013 ignoravam o desperd\u00edcio (e mau uso) do precioso mineral e assimilavam o preju\u00edzo sem remorsos&#8230; Certificava-se cada vez mais, que ferrovias, em alguns quesitos, poderiam ser iguais \u201cno mundo inteiro\u201d, afinal nosso \u201cmaterial rodante\u201d (para carga) prov\u00e9m dos EUA, principalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d, que equipa as\u00a0 locomotivas <em>Diesel-el\u00e9tricas<\/em>, \u00e9 \u201cde f\u00e1brica\u201d. Faz, automaticamente, aplicar areia em quatro casos: 1) ao primeiro sinal de patina\u00e7\u00e3o de rodas; 2) quando nos \u201cdeslizamentos\u201d em freio din\u00e2mico; 3) nas \u201ctransi\u00e7\u00f5es\u201d (conex\u00f5es de \u201ctroca de marcha\u201d das locomotivas \u2013 como estava fazendo aquela locomotiva \u00e0 frente do trem de passageiros em que estava); 4) nas aplica\u00e7\u00f5es de freio em \u201cemerg\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O problema mais s\u00e9rio, que, por sinal, se d\u00e1 no trecho \u2013 onde nem sempre \u00e9 poss\u00edvel reabastecer (repor) os reservat\u00f3rios de areia da locomotiva \u2013 \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de areia quando nas \u201ctransi\u00e7\u00f5es\u201d (caso \u20183\u2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Visando a garantir ader\u00eancia nessas \u201ctrocas de marcha\u201d, o \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d aplica areia, mesmo sobre trilhos secos, em linha nivelada (ou plana) \u2013 portanto: a) aplica areia com trilhos secos, quando sem necessidade de corre\u00e7\u00e3o e: b) aplica areia sobre linha nivelada, ent\u00e3o em baixo esfor\u00e7o de tra\u00e7\u00e3o (considerando ainda que o trem estar\u00e1, j\u00e1, em livre movimento)&#8230; O que, evidentemente, faz desperdi\u00e7ar areia, tanto no caso \u2018a\u2019 quanto no caso \u2018b\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nessas \u201ctransi\u00e7\u00f5es\u201d, a aplica\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de areia d\u00e1-se por alguns segundos, visando a jogar um \u00fanico e demorado jato de areia por vez, mas \u00e9 suficiente, claro, pra esvaziar, aos poucos, os reservat\u00f3rios. Ora, as \u201ctransi\u00e7\u00f5es\u201d acontecem na medida em que a velocidade sobe e, tamb\u00e9m, na medida em que a velocidade cai. Enfim, as trocas autom\u00e1ticas de marcha se d\u00e3o, constantemente, no trecho; por muitas vezes. De pouco em pouco, a areia contida nos reservat\u00f3rios se esgota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto aos deslizamentos de rodas e patina\u00e7\u00f5es (casos \u20181\u2019 e \u20182\u2019), o modo \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d \u00e9 necess\u00e1rio, mas n\u00e3o insubstitu\u00edvel, afinal tem-se o acionamento manual ao alcance e controle do maquinista. O maquinista conhece o trem e a linha; \u00c9 sabedor dos \u201cmomentos cr\u00edticos de patina\u00e7\u00e3o\u201d, de tal forma, que faz, acertadamente, aplica\u00e7\u00e3o de areia, momentos antes desses \u201cmomentos cr\u00edticos de patina\u00e7\u00e3o\u201d (visando a ir \u201csecando\u201d as rodas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de \u201cemerg\u00eancia\u201d (caso \u20184\u2019), \u00e9 quando a press\u00e3o de ar comprimido que as locomotivas fornecem aos vag\u00f5es \u00e9 \u201clevada a zero\u201d. D\u00e1-se nos freios dos vag\u00f5es, mas se d\u00e1, tamb\u00e9m, em circunst\u00e2ncias outras que nada tem a ver com seguran\u00e7a&#8230; E, em toda \u201cemerg\u00eancia\u201d os areeiros disparam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Passa, ent\u00e3o, a ser prejudicial quando, por motivos diversos (problemas com o <em>sistema de vigil\u00e2ncia<\/em> dando pane, por exemplo) e n\u00e3o graves, ocorre, no trecho (ou em p\u00e1tios de cruzamento e\/ou manobras), em trens parados&#8230; Ora, enquanto durar a \u201cemerg\u00eancia\u201d (tem-se de \u201crep\u00f4-la\u201d e pode levar tempo), permanece a condi\u00e7\u00e3o de \u201careeiro disparado\u201d \u2013 e isso joga fora de tal forma a areia que se forma morros do mineral \u2013 \u201cmorros de areia\u201d \u2013 no leito da linha, entre os trilhos e dormentes (que poder\u00e3o, ent\u00e3o, fazer falta ainda na mesma viagem mais \u00e0 frente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto a esses \u201cmorros de areia\u201d, basta observar qualquer p\u00e1tio em que se executem manobras em trens e locomotivas (\u201cboca de oficina\u201d e p\u00e1tios recompositores, por exemplo) \u2013 com eles se constata, sem delongas, o quanto se desperdi\u00e7a de areia nas ferrovias por culpa de \u201careeiros autom\u00e1ticos\u201d \u00a0(e fica-se sem ela em momentos cruciais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Frise-se: \u201careeiros autom\u00e1ticos\u201d, seja em trens cargueiros ou n\u00e3o, jogam areia fora o tempo todo e, quando se precisa dela (nas patina\u00e7\u00f5es \u201cpesadas\u201d em aclives, nos deslizamentos de rodas consider\u00e1veis e nas \u201cemerg\u00eancias\u201d \u2013 quando \u201cemerg\u00eancia\u201d de fato), ela j\u00e1 n\u00e3o se encontrar\u00e1 dispon\u00edvel nos reservat\u00f3rios da locomotiva. Isso se d\u00e1, comumente e constantemente no dia a dia de nossas ferrovias porque elas (as ferrovias \u2013 entenda-se, \u00a0as chefias das ferrovias) n\u00e3o contestam certos \u201cequ\u00edvocos\u201d proporcionados pelo fabricante de locomotiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto ao fabricante, age com boa vontade, mas n\u00e3o sabe interpretar os problemas \u201cde campo\u201d da ferrovia \u2013 que s\u00f3 a ferrovia pode, enfim, interpretar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Pois bem, Ananias pedia de joelhos: por favor, senhor fabricante nacional de locomotivas e\/ou senhora ferrovia, dotem as locomotivas de um espec\u00edfico e bem localizado (bem como bem orientado) bot\u00e3o \u2018liga\/desliga no circuito eletr\u00f4nico de acionamento do modo \u201careeiro autom\u00e1tico\u201d&#8230; S\u00f3 depois avisem os americanos. Sem mais, por favor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voltando \u00e0 viagem de Ananias, naquele trem de passageiros, sabia ele que era pequena a chance de aquela locomotiva, com aquela uma d\u00fazia de carros de passageiros, parar numa rampa, patinando e \u201cpedindo\u201d areia (ora, isso acontece em trens cargueiros pesados). O trem de passageiros \u201croda mais leve\u201d, com a locomotiva puxando aqu\u00e9m de sua \u201clota\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 para que ven\u00e7a os aclives mais rapidamente (era o caso daquele, apesar de que estava num certo limite, em raz\u00e3o daqueles vag\u00f5es de carona). Ent\u00e3o, teoricamente (e com outras condi\u00e7\u00f5es mantendo-se normais), poderia&#8230; (CONTINUA)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; (CONTINUA\u00c7\u00c3O)&#8230; terem sido adquiridas em grande n\u00famero, quanto por terem sido p\u00e9ssimas locomotivas&#8230; Sim, p\u00e9ssimas locomotivas n\u00e3o tem como serem \u201cpostas \u00e0 prova\u201d e \u201csobrevivem\u201d. Mas o importante \u00e9 que eram lindas. Eram paix\u00e3o de muito \u201cmaluco por trem\u201d. Ananias as via e temia por seus destinos. 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