{"id":242382,"date":"2019-02-28T15:13:27","date_gmt":"2019-02-28T18:13:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.lavras24horas.com.br\/portal\/?p=242382"},"modified":"2019-02-28T15:13:27","modified_gmt":"2019-02-28T18:13:27","slug":"um-fantasma-no-trem-parte-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lavras24horas.com.br\/portal\/um-fantasma-no-trem-parte-9\/","title":{"rendered":"Um Fantasma no Trem &#8211; Parte 9"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(CONTINUA\u00c7\u00c3O) &#8230;as horas assumindo uma posi\u00e7\u00e3o meio encurvada pra um lado (era cacoete ainda de sua posi\u00e7\u00e3o ao comando das restritas cabines \u2013 pra si \u2013 de suas locomotivas a vapor). Feito isso, olhou ao longe na \u201cexplanada\u201d \u2013 e olhara em \u201ccima da hora\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Como combinado, de l\u00e1 vinham duas de suas quatro netas, para busc\u00e1-lo. De longe eram conhecidas, em raz\u00e3o da estatura.\u00a0 As netas puxaram o av\u00f4 na altura, como, tamb\u00e9m, o puxaram as filhas. As longas pernas que transmitiu \u00e0 sua prole eram motivo de orgulho para si, que sempre se lembrava, tamb\u00e9m,\u00a0 de que, gra\u00e7as a elas, escapara ileso do horr\u00edvel acidente entre sua primeira <em>Mikado<\/em> e uma <em>Diesel<\/em> \u201c<em>espanta dem\u00f4nio\u201d<\/em> da Central.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m, de uma esquina, despontou outra mo\u00e7a. Era a neta de Can\u00e1rio. Este j\u00e1 andava trope\u00e7ando, por causa das p\u00e1lpebras ca\u00eddas; A mo\u00e7a ia busc\u00e1-lo em hor\u00e1rio combinado. As tr\u00eas mulheres chegaram juntas e, educadamente, cumprimentaram a todos&#8230; Receberam um sorridente cumprimento mais que arrastado dos dois \u201cmetidos a boy\u201d. Vitor Rosa alisava, despercebidamente, o bigodinho sem fio branco; Dick, de peito estufado, ajeitava os insepar\u00e1veis \u00f3culos escuros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E os dois mais velhos se foram primeiro; acompanhados pelas respectivas parentes. Os outros foram se dispersando, at\u00e9 que ficaram a s\u00f3s o Dick e o Victor Rosa \u2013 sempre tinham algo mais a conversar&#8230; Os dois \u201cmetidos a boy\u201d ficaram a v\u00ea-los ir. Por motivos \u00f3bvios tinham olhos mais para aqueles que tinham por companhia as mo\u00e7as: Can\u00e1rio, o da hist\u00f3ria do maquinista \u201cl\u00e1 das \u2018bandas do Ibi\u00e1\u201d, que \u201cpassou fogo\u201d numa teimosa locomotiva a vapor, e Te\u00f3filo, o das incr\u00edveis <em>Mikado<\/em> \u201cde montagem alta\u201d. Certamente falavam sobre aqueles assuntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto a Ananias&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0quelas alturas precisava, mesmo, era arranjar um canto para dormir. No entanto, a curiosidade bateu mais forte e foi ver o \u201cpol\u00eamico\u201d <em>girador<\/em> de locomotivas&#8230; Tomou as linhas abandonadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias caminhou pelos velhos trilhos, passou pelas caixas d\u2019\u00e1gua, pelos galp\u00f5es dos vag\u00f5es e, percorridos os trezentos metros, chegou \u00e0 Rotunda. Reteve-se nela e viu que se tratava de \u201cmeia Rotunda\u201d, apenas&#8230; Sim, a Rotunda de <em>Serra Branca<\/em> n\u00e3o era uma circunfer\u00eancia completa. Quanto ao girador de locomotivas dela, estava ainda alojado ao fosso; quebrado ao meio, pr\u00f3ximo ao pino central. Parecia que tudo fizeram por ele, uma vez que tinha emendas e emendas de solda e chapas, camada sobre camada. Por sua vez, o pr\u00e9dio da Rotunda passara por \u201cdescaracteriza\u00e7\u00f5es\u201d, em raz\u00e3o da quebra de seu equipamento principal. Algumas paredes foram derrubadas e surgiram outras e as linhas haviam passado por rearranjos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E, tamb\u00e9m, tudo ali j\u00e1 tinha passado por uma \u201climpa\u201d; O que restava eram enormes mesas de ferro, atadas ao ch\u00e3o e equipamentos pesados, j\u00e1 \u201cdepenados\u201d&#8230; Por estar em abandono, estava muito sujo o local. Viu andarilhos por ali, se acomodando, tamb\u00e9m. Aquilo se dava porque a Rotunda ficava bem pr\u00f3xima da rua que bifurcava da avenida&#8230; Tal rua ia passar por sobre os trilhos inativos e, depois, sobre os ativos, e levava \u00e0 ponte que transpunha o rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias queria chegar ao girador de locomotivas, que havia sido instalado ao ar livre. Teria que subir quase uns cem metros al\u00e9m da Rotunda para chegar a ele. O local era isolado, pois ficava \u00a0no limite entre o que era da ferrovia e o que era \u00e1rea de antigos galp\u00f5es\/armaz\u00e9ns, pertencentes a outras empresas do passado. N\u00e3o se viam transeuntes, at\u00e9 porque, por limite, havia os tais galp\u00f5es\/armaz\u00e9ns e, ap\u00f3s, as linhas da Central \u2013 e, depois, o rio.\u00a0 No entanto, via-se dali que \u201ca cidade estava chegando\u201d ao bairro <em>Serra Branca<\/em>. As casas e pontos comerciais estavam j\u00e1 despontando \u2013 longe \u2013 na \u201cbaixada\u201d. Tamb\u00e9m estava recebendo asfalto a larga avenida de liga\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao <em>girador<\/em> de locomotivas, Ananias chegou a ele. Ficara em meio a duas filas de vag\u00f5es sucateados \u2013 filas que formavam um \u201cY\u201d. Estava, o equipamento, como que dentro do bojo da \u201cta\u00e7a\u201d do \u201c\u00edpsilon\u201d. Os vag\u00f5es sucateados eram de bitola larga e via-se que o terceiro trilho fixado de modo a dar suporte a eles ficaram \u201cquase saindo\u201d dos modestos dormentes de bitola m\u00e9trica&#8230; Quanto \u00e0 se\u00e7\u00e3o de linha de bitola m\u00e9trica que dava acesso ao girador de locomotivas, via-se apenas o caminho dela ainda marcado pelo leito de britas; Nem mesmo os dormentes estavam mais ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias se assustou de verdade quando viu aquele <em>girador<\/em> de locomotivas. Ficou boquiaberto. N\u00e3o s\u00f3 porque era colossal, mas porque capricharam por demais em sua instala\u00e7\u00e3o. Era imponente toda a alvenaria, os drenos e demais acabamentos. Mal podia acreditar que nem fora usado a contento.\u00a0 O gigantismo \u00a0e robustez do equipamento realmente contrastava com os trilhos finos e gabarito restrito da ferrovia dos aposentados; era algo nitidamente desproporcional ao gabarito do modesto ramal&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">(Ananias custou \u2013 em vida \u2013 a diferenciar bitola de gabarito. Depois entendeu que gabarito \u00e9 o espa\u00e7o que o trem precisa para passar, independente de sua bitola, gabarito \u00e9 a largura toda do trem&#8230; A bitola m\u00e9trica tamb\u00e9m pode ser imponente e exigir gabarito condizente. Mas a ferrovia desativada dos aposentados fora, de fato, de gabarito restrito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali, aquele gigantesco <em>girador<\/em> de locomotivas parecia alguma coisa como caprichoso remendo em forte peda\u00e7o de couro aplicado a um farrapo de ch\u00e3o. N\u00e3o admira, pois, tal equipamento era em padr\u00e3o para ferrovias americanas \u2013 com todo o gigantismo e impon\u00eancia caracter\u00edsticos&#8230; Se\u00a0 era um girador em padr\u00e3o americano, era, ent\u00e3o, aplic\u00e1vel a ferrovias de bitola larga; era aplic\u00e1vel \u00e0 Central, por exemplo \u2013 ali ao lado&#8230; E, ao constatar isso, lembrou-se, claro, de Donadon (ouvira mais de uma vez que o maquinista \u201cinventor da roda\u201d queria tirar tal equipamento dali \u2013 e lev\u00e1-lo para <em>Lauriano<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em raz\u00e3o do \u201cabandono\u201d, o equipamento j\u00e1 trazia,\u00a0 acumulando em seu fosso, algum entulho de enxurrada de chuva \u2013 estava \u201ctravado\u201d. Ananias n\u00e3o conseguia levantar os olhos dele e, ao mesmo tempo, tentava imaginar o que exatamente Donadon queria com ele&#8230; Mas, enfim, deixo-o e tomou rumo de volta \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de <em>Serra Branca<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveitou e desceu caminhando pelo p\u00e1tio desativado. Foi pela linha singela que mais abaixo passaria a ser mista. Imaginava sua <em>Biriba<\/em> manobrando ali; imensa, ao lado das locomotivas a vapor da \u201credinha de linha fina\u201d. O sono j\u00e1 lhe dominava e foi, com aquele pensamento bom, em dire\u00e7\u00e3o ao alojamento de maquinistas, procurar um lugar sossegado para dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cap\u00edtulo 5<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O trem desgovernado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias acordou quando beirava sete da manh\u00e3. Sua provid\u00eancia foi correr para a esta\u00e7\u00e3o local; Sua inten\u00e7\u00e3o era embarcar, de volta a <em>Lauriano<\/em>, no mesmo trem em que Donadon voltaria trabalhando. No entanto, Donadon j\u00e1 havia retornado; Sa\u00edra em viagem de volta ainda na noite anterior&#8230; Ananias entendeu, enfim, que no tocante \u00e0 jornada de trabalho, o maquinista de trem cargueiro faz o ciclo do ponteiro de minutos do rel\u00f3gio \u2013 diferente do ciclo do ponteiro de horas, que vivera em seu emprego de banc\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No p\u00e1tio, viu um trem de vag\u00f5es-tanque de cimento. Estava direcionado para os lados de <em>Tubar\u00e3o<\/em> e dava-se a rotineira troca de maquinistas. Ananias ainda n\u00e3o havia programado sua ida \u00e0quela localidade. No entanto, mais cedo ou mais tarde, sairia em busca da \u00faltima <em>Biriba<\/em>; Sabia que sua \u201clocomotiva rainha\u201d estaria por l\u00e1. Adiou, ent\u00e3o, sua volta a <em>Lauriano<\/em>, pois tudo estava muito convidativo a ir logo a <em>Tubar\u00e3o<\/em> \u2013 que ficava dentro ou pr\u00f3xima a uma capital de estado. Resolveu conhecer a tal localidade logo de uma vez, afinal, j\u00e1 estava a \u201cmeio caminho\u201d. Supunha, no entanto, e acertadamente que, indo de trem cargueiro, certamente l\u00e1 n\u00e3o chegaria naquele mesmo dia&#8230; Mas que pressa precisava ter? Embarcaria e, dali para frente, tudo continuaria sendo-lhe novidade. Inclusive a locomotiva que rebocava aquele cargueiro era-lhe, de certa forma, \u201cin\u00e9dita\u201d. Ent\u00e3o, correu para ela, pois o maquinista j\u00e1 acionava a buzina para partir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrou para a cabine. Dessa vez, havia uma \u201cequipagem completa\u201d. O auxiliar era bem jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dali \u2013 de <em>Serra Branca<\/em> \u2013 em dire\u00e7\u00e3o a <em>Tubar\u00e3o<\/em>, o licenciamento dos trens deixava de ser pelo antigo sistema em <em>Staff El\u00e9trico<\/em> \u2013 usado entre <em>Lauriano <\/em>e <em>Serra Branca<\/em> \u2013 e passava a ser por CTC (sem\u00e1foros), vinculado ao CCO.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trem mal sa\u00edra do p\u00e1tio e o maquinista veterano j\u00e1 trocava de banco com o entusiasmado auxiliar, a quem coubera elevar a acelera\u00e7\u00e3o da locomotiva ao oitavo ponto de rota\u00e7\u00e3o. O motor V16 Ciclo Dois Tempos \u201caspirado\u201d da velha SD-18, lembrava o barulho do motor V8 das pequenas GL-8 da bitola m\u00e9trica e fazia parecer ser insuficiente para rebocar a longa carreira de vag\u00f5es carregados com cimento&#8230; Mas a veterana GM \u00a0n\u00e3o desistiria nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinham sempre um \u201clinh\u00e3o\u201d pela frente. Os dois trilhos \u2013 imponentemente bem longe um do outro \u2013 presos a dormentes novos, arranjados sobre mais de meio metro de lastro, seguiam charmosamente cortando as \u2013 certamente \u2013 invejadas cidades do percurso (ao menos Ananias sentia essa inveja). Tais cidades eram t\u00e3o mais bonitas, em raz\u00e3o da imponente ferrovia e eram ligadas, tamb\u00e9m, por movimentada rodovia que, por vezes, ficava \u201cparalela\u201d aos trilhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Monotonia s\u00f3 no trem, pois, ap\u00f3s seis horas de viagem \u2013 Ananias prestava aten\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o fora preciso que usassem nenhum tipo de freio. O trem, nas subidas e n\u00edveis do suave perfil de linha, era controlado s\u00f3 no acelerador \u2013 ora na rota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, ora em rota\u00e7\u00f5es mais moderadas. Nas descidas, todas leves, o trem perdia muito de seu barulho, pois era simplesmente entregue \u00e0 for\u00e7a da gravidade, mantendo sua \u201cvelocidade de cruzeiro\u201d sem exceder sua VMA (velocidade m\u00e1xima autorizada). O jovem auxiliar, no comando do trem, permanecia entusiasmado e seguro de si&#8230; Parecia \u2013 a Ananias \u2013 tranquilo por demais conduzir um trem por ali; uma brincadeira, quase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de umas dez horas de viagem, com algumas paradas e muitos cruzamentos com outros trens, deu-se outra troca de maquinistas, dessa vez num p\u00e1tio desprovido de esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir daquele p\u00e1tio, um s\u00f3 maquinista veio para prosseguir com o trem; Ananias tomou o banco que ficara desocupado e, viajando sentado, assistiu a noite chegar. Passadas umas cinco horas de viagem, o trem passou por dentro de uma grande usina sider\u00fargica. Vag\u00f5es e locomotivas estavam presentes pelas infind\u00e1veis linhas de manobra e estacionamento e pareciam ser parte da pr\u00f3pria sider\u00fargica. Num restrito ponto, num dos cantos havia a bitola m\u00e9trica, tamb\u00e9m em atividade. Era um movimento menor, secund\u00e1rio, mas importante \u2013 Ananias sabia, por \u201cestudos\u201d, de todo o complexo emaranhado de linhas f\u00e9rreas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trem prosseguiu mais duas horas e chegou a uma cidade que era sede de n\u00facleo ferrovi\u00e1rio \u2013 ainda n\u00e3o era <em>Tubar\u00e3o<\/em>. Era uma cidade que ficava misturada em meio ao grande entroncamento ferrovi\u00e1rio que se dava ali. Ananias desembarcou e, antes de procurar acomoda\u00e7\u00f5es para dormir, foi acompanhar a curiosa opera\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria daquele p\u00e1tio que tinha forma de gigantesco tri\u00e2ngulo&#8230; Era um entroncamento triplo, apenas em bitola larga. A ferrovia estava no centro urbano e havia oficinas e pr\u00e9dios diversos da ferrovia por onde quer que se voltassem os olhos. A pr\u00f3pria disposi\u00e7\u00e3o dos trilhos, onde o tri\u00e2ngulo direcionava a tr\u00eas rotas ferrovi\u00e1rias, fazia lembrar uma \u00e1rvore&#8230; uma\u00a0 \u00e1rvore, ent\u00e3o, apinhada de casas e coisas urbanas. No calor daquela noite limpa e sem poeira no ar, em decorr\u00eancia das chuvas torrenciais, pessoas passeavam de bicicleta nas ruas estreitadas pelas linhas; outras, com desenvoltura, passavam sem pressa \u00e0 frente dos pesados e vagarosos trens em tr\u00e2nsito ou manobra&#8230; Ananias, apesar de saber o nome da cidade, resolveu trat\u00e1-la por <em>cidade-tri\u00e2ngulo.\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias foi para o terceiro andar de um pr\u00e9dio movimentado por ferrovi\u00e1rios de fun\u00e7\u00f5es diversas. Era o CCO; viu os pain\u00e9is din\u00e2micos com as luzes e os agentes zelando e cuidando do tr\u00e1fego dos trens. Falavam, tamb\u00e9m, ao r\u00e1dio com os maquinistas e se os ouvia, em cada trem, a conversarem entre si. Ananias poderia passar o resto da noite ali, mas deixou para outra oportunidade; Estava sonolento. No outro dia, seu destino seria <em>Tubar\u00e3o<\/em> \u2013 que j\u00e1 n\u00e3o estava longe. Sentiu que estava pr\u00f3ximo o seu encontro com a \u00faltima locomotiva apelidada <em>Biriba<\/em>&#8230; Foi dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Veio o amanhecer. Ananias acordou e correu a ver o movimento dos trens que chegavam \u2013 os quais estavam, ainda, molhados pelo sereno colhido na madrugada. Tamb\u00e9m, velhas locomotivas j\u00e1 manobravam pelas portas das oficinas. Depois de muita andan\u00e7a pelo lugar, Ananias precisava continuar sua viagem e, por volta da hora do almo\u00e7o, foi para a <em>escala<\/em> de maquinistas local \u2013 para se orientar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na <em>escala<\/em>, viu que dois maquinistas tomariam um \u201ccarro de troca\u201d para ir equipar um trem de min\u00e9rio, cujo destino era por perto da localidade denominada <em>Tubar\u00e3o<\/em>; Foi junto. O autom\u00f3vel, em seu deslocamento, dobrava e redobrava pelas vielas da cidade, mas nunca se perdia de vista o longo comboio de min\u00e9rio que aguardava os maquinistas. Depois de alguns minutos, chegaram \u00e0s locomotivas e subiram \u00e0 cabine&#8230; L\u00e1 estava o bisbilhoteiro junto; com deslumbramento. De onde tirara aquele gosto? Olhava mais uma vez os detalhes das locomotivas. Algumas daquelas \u2013 observou \u2013 tiveram o projeto original da carro\u00e7aria modificados em reformas e \u201crepotenciamentos\u201d \u2013 nenhum detalhe lhe escapava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E estavam muito enfuma\u00e7adas aquelas locomotivas. Era a fuma\u00e7a dos motores devolvida dentro dos t\u00faneis da serra \u2013 uma profus\u00e3o de t\u00faneis. N\u00e3o se via nada do vermelho e nem as listas amarelas da estatal \u2013 estavam totalmente pretejadas. Tanto que, para que fossem identificadas pelo n\u00famero na carro\u00e7aria, apenas no restrito ponto em que estavam pintados \u00e9 que havia relativa remo\u00e7\u00e3o da fuligem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez na cabine, que teria os dois bancos ocupados, Ananias viajaria em p\u00e9, de \u201ctesta\u201d colada a algum dos para-brisas centrais. No trem havia uma \u201cequipagem completa\u201d, porque, na serra que tinham \u00e0 frente \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o sempre mais \u201cmelindrosa\u201d na opera\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria \u2013 n\u00e3o se podia viajar em <em>monocondu\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um trecho com <em>planos inclinados<\/em>, uma serra longa, onde os trens eram exigidos no m\u00e1ximo de sua capacidade, e o maquinista tinha de estar acompanhado, ao menos, por um auxiliar de maquinista. Tamb\u00e9m, naquela serra, os trens cargueiros n\u00e3o podiam circular com locomotiva l\u00edder em \u201ccapot\u00e3o\u201d \u2013 coisa que se dava, \u00e0s vezes, em trens vindos do lado de <em>Lauriano<\/em>&#8230; Nesse caso, era ent\u00e3o providenciado o <em>giro<\/em>, no p\u00e1tio de forma triangular existente ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O sol de ver\u00e3o do meio do dia castigava e entrava parcialmente para dentro da cabine da locomotiva l\u00edder. Dentro dela, prevalecia o morma\u00e7o carregado com o ardume de \u00f3leos diversos que desprendiam da linha do trem&#8230; Ali era local em que as locomotivas sempre ficavam paradas por mais tempo e era natural que escorresse delas qualquer excesso ou fuga de \u00f3leos e fosse impregnar a via \u2013 para depois exalar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Trem parado, \u201caguardando sinal\u201d, as locomotivas soltavam seus espirros e, por vezes, os motores pareciam acelerar sozinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentado ao banco do auxiliar \u2013 onde se acomodara meio deitado \u2013 um dos maquinistas ficara exposto ao sol, mas parecia n\u00e3o se importar. Apenas se ocupava de segurar aberta a porta \u00e0 sua frente, na tentativa de captar alguma corrente de ar. Trazia desabotoada a camisa e revelava uma brancura sarnenta, que era interrompida por estabelecida vermelhid\u00e3o logo ao limite normal da vestimenta. Uma vermelhid\u00e3o que subia, tomando conta do pesco\u00e7o, de parte do rosto \u2013 e que se repetia nos bra\u00e7os. Por sinal o rubor era vivo e t\u00e3o mais vibrante em seu aut\u00eantico \u201cnariz de piment\u00e3o\u201d. Acalorado, o sujeito j\u00e1 dava assist\u00eancia ao corpanzil, ingerindo o refrigerante de seu \u201ckit-lanche\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro maquinista, j\u00e1 ao painel de comando do trem, n\u00e3o precisava, naquele momento, incomodar-se com o ardor dos raios solares. Ficara \u00e0 sombra de uma frondosa ramagem que vinha de um alto muro de arrimo que beirava a linha. Por\u00e9m, precavia para proteger-se do sol \u2013 afinal, o trem ia ser posto em movimento&#8230; Munido de fita adesiva e folhas de jornal, cobriu toda a sua janela lateral. Esse era um tipo magricela e alto, de brancura p\u00e1lida e cabeleira muito lisa e negra. Tinha \u201car professoral\u201d, que era acentuado por \u00f3culos de arma\u00e7\u00e3o fina e retangular \u2013 acess\u00f3rio que brilhava e parecia imune \u00e0 sujeira que envolve os trens. Exalava ainda a lavanda de banho recentemente tomado \u2013 e, assim, era daqueles que demoram mais tempo para come\u00e7ar a feder a mistura de ferrugem e ar comprimido misturado a \u00f3leo que, afinal, \u00e9 o cheiro da locomotiva. Como era muito alto, seu banco estava ajustado bastante afastado do painel de comando e sentara-se sobre um dos tornozelos. Ao fazer a leitura dos man\u00f4metros no painel de comando, curvava-se \u00e0 frente fazendo um arco longo com o corpo. Nesse ato, a cabeleira saia do formato de \u201ccabelos ao meio\u201d e fazia uma franja longa que se descolava da testa p\u00e1lida e formava uma verdadeira cortina \u00e0 frente dos olhos. Para enxergar os medidores do painel, lutava ainda contra a lente dos \u00f3culos, o que for\u00e7ava-o\u00a0 a contorcionismos com o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trem aguardava sinal e ambos sempre conferiam o sem\u00e1foro \u00e0 frente. Queriam partir logo e iniciar viagem; Carregavam a praga que a maior parte dos maquinistas carrega \u2013 a praga da pressa de partir logo com o trem para \u201cchegar mais cedo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Profissionais que eram, no entanto, estavam alerta a todos os sistemas do trem, principalmente \u00e0 parte dos freios a ar dos vag\u00f5es&#8230; O maquinista faz isso ao conferir os man\u00f4metros de ar; faz isso ao \u201cvigiar\u201d varia\u00e7\u00f5es aud\u00edveis no fluxo de ar comprimido. Enfim, o maquinista est\u00e1 o tempo todo se interagindo com o trem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Como manter vigil\u00e2ncia sobre todo o sistema de freios dos vag\u00f5es \u00e9 sempre um imperativo, em trechos de serra como aquele o qual tinham \u00e0 frente, n\u00e3o se podia bobear nem um instante&#8230; A \u00e1rea de manuten\u00e7\u00e3o, por sinal, tamb\u00e9m revistava o trem todo ali \u2013 em <em>cidade tri\u00e2ngulo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A serra que tinham \u00e0 frente era, mesmo, serra de renome. Era um maci\u00e7o montanhoso, classificado mesmo como \u2018serra\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E sempre quando se alude a serra em ferrovia (e nem precisa que seja de renome), considera-se o aclive e, tamb\u00e9m, o declive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se tem serra em mente como aclive, v\u00ea-se logo um trem barulhento, lento e fumacento a tentar vencer uma longa subida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se tem serra em seu sentido de declive, \u00e9 porque \u00e9 local onde as locomotivas \u2013 note-se \u2013 n\u00e3o far\u00e3o for\u00e7a de tra\u00e7\u00e3o em momento algum (o trem estar\u00e1 \u201cdescendo\u201d)&#8230; \u201cDescida de serra\u201d \u00e9 extens\u00e3o de linha em que o trem dever\u00e1 estar com seu conjunto de freios em a\u00e7\u00e3o na maior parte do tempo (ou por todo o tempo); \u00c9 extens\u00e3o de linha que, mesmo nas vari\u00e1veis de percentagem de rampa, o trem estar\u00e1, por seu comprimento, movimento e peso, sempre sendo puxado (ou empurrado) para o fim da descida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, tinham um \u201ctrecho de serra\u201d os maquinistas de <em>cidade tri\u00e2ngulo<\/em>.\u00a0 E era uma serra perigosa. As vias de tr\u00e2nsito tinham <em>planos inclinados<\/em> em qualquer sentido de marcha dos trens e eram rampas acentuadas e longas. Em raz\u00e3o de tal serra de renome que tinham para trabalhar com os pesados e longos trens, \u2018freio\u2019 era a palavra chave naquele n\u00facleo ferrovi\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, estavam eles ali, naquele morma\u00e7o convidativo a um cochilo quando o sem\u00e1foro \u201cdeu verde\u201d \u2013 indicando que estavam j\u00e1 \u201clicenciados\u201d, pelo CTC\/CCO, a circular com o trem. \u00c0 frente do trem impunha-se o maci\u00e7o de elevada altitude; o come\u00e7o de um <em>plano inclinado<\/em> que come\u00e7aria suave e depois se acentuaria. Uma serra cuja linha f\u00e9rrea serpentear\u00e1 por ela, subindo at\u00e9 certo ponto, exigindo o m\u00e1ximo dos motores das locomotivas. E, depois da subida, vir\u00e1 a descida \u2013 uma descida longa e fortemente declinada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era uma serra com percentagem de rampa iguais nos dois lados. Para aquele sentido de marcha em que estavam,\u00a0 a \u201csubida da serra\u201d se dava em rampa menos inclinada que a rampa de descida, ent\u00e3o, do outro lado da serra. Nesse caso, uma vez \u201cmergulhado\u201d no declive, no outro lado da serra, um trem n\u00e3o conseguiria fazer um recuo, normalmente&#8230; Isso dito apenas para evidenciar o quanto tinham que ser \u201ccriteriosos\u201d com o sistema de freios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0s locomotivas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 subida da serra, trabalhariam no limite m\u00e1ximo de esfor\u00e7o \u2013 constantemente \u00e0 <em>carga plena<\/em>. Quando chegado o momento de fazer a \u201cdescida de serra\u201d, precisariam \u00e9 de freios eficientes nos vag\u00f5es e bom aux\u00edlio em freio din\u00e2mico&#8230; Aquele perfil de linha que tinham pela frente em nada lembrava o perfil leve de linha em que Ananias viajara no dia anterior (como vimos, l\u00e1 podiam \u201ctocar\u201d um trem at\u00e9 mesmo sem equipamentos de freios).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, estavam com aquele trem no \u201cp\u00e9\u201d da serra \u2013 de um lado. Subiriam toda ela at\u00e9 quase o topo e depois iniciariam longa descida at\u00e9 alcan\u00e7ar o \u201cp\u00e9\u201d no outro lado; Era a rotina dos maquinistas de <em>cidade-tri\u00e2ngulo<\/em>. Tinham um trecho que, no total, n\u00e3o chegava a cento e cinquenta quil\u00f4metros, para conduzir os longos e pesados trens de min\u00e9rio, mas um trecho que tinha, pelo meio, uma \u201cserra perigosa\u201d&#8230; Serra que estava sempre, ou \u201cpedindo\u201d muito motor, ou \u201cpedindo\u201d muito freio. A ferrovia, para manter a seguran\u00e7a em geral, tinha ali o perfeito campo de provas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E o maquinista \u201ccabelo de cortina\u201d arrancou com o trem. P\u00f4s em movimento o \u201cleviat\u00e3 de mais de mil rodas de ferro\u201d. Esticou-o sem pressa e, t\u00e3o logo sentiu eliminada a folga nos para-choques de cada vag\u00e3o, deu um derradeiro tapa no acelerador, fazendo alcan\u00e7ar o ponto 8 \u2013 a rota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do Grupo-gerador das locomotivas. Eram cinco m\u00e1quinas GE U-23 <em>Super<\/em>; modernizadas e repotenciadas. As brutas rebocavam cento e trinta e oito vag\u00f5es lotados de min\u00e9rio de ferro \u2013 o que formava um trem de quase um quil\u00f4metro e meio de comprimento. Era total de quase dezesseis mil toneladas sobre rodas. Cada roda ligada a cada ponta de eixo, por meio de rolamentos lubrificados e hermeticamente fechados, para facilitar o deslocamento; para n\u00e3o segurar o \u201cleviat\u00e3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a quantidade de locomotivas era \u201ca conta\u201d para vencer a rampa de subida, as locomotivas trabalhariam lentas e barulhentas, com seus Grupos-geradores a <em>carga plena<\/em>, por\u00e9m, obedecendo a uma velocidade m\u00ednima de seguran\u00e7a para os equipamentos el\u00e9tricos&#8230; Ali era trecho que, se por ventura, alguma locomotiva apresentasse problemas de \u201cinsufici\u00eancia de tra\u00e7\u00e3o\u201d, ou defeito qualquer, era deslocado de <em>cidade tri\u00e2ngulo<\/em> o <em>Help<\/em> (locomotivas de prontid\u00e3o, prontas a empurrar serra acima trens problem\u00e1ticos)&#8230; Mas era raro acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrutura da via naquela rota era robusta, como em todo o restante daquela ferrovia. Por\u00e9m, em raz\u00e3o de ter-se ali um maior volume de tr\u00e1fego e, ainda, um tr\u00e1fego mais lento, decorrente dos <em>planos inclinados<\/em>, a via era duplicada \u2013 eram duas as linhas de circula\u00e7\u00e3o&#8230; Isso se dava entre <em>cidade-tri\u00e2ngulo<\/em> e proximidades da localidade denominada <em>Tubar\u00e3o<\/em>. Os trens tinham ali, por todo percurso em serra, duas vias em tr\u00e1fego constante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao CCO, n\u00e3o precisava parar um trem para faz\u00ea-lo aguardar outro trem em sentido inverso. Utilizava a dupla via de acordo com a necessidade do tr\u00e1fego. Por exemplo, um trem normal podia ultrapassar um trem com problemas de circula\u00e7\u00e3o. Um trem de servi\u00e7o podia ocupar uma \u201csec\u00e7\u00e3o de bloqueio\u201d, o dia todo, sem causar interrup\u00e7\u00e3o \u00e0 circula\u00e7\u00e3o dos cargueiros; um trem de passageiros (ainda havia um naquela rota) podia ultrapassar cargueiros, serra acima e serra abaixo&#8230; Toda a extens\u00e3o da dupla via era composta de travess\u00f5es de mudan\u00e7a de via, \u201cchaves teleguiadas\u201d e sinais luminosos de controle diversos. Havia tamb\u00e9m a comunica\u00e7\u00e3o via r\u00e1dio, mas era um processo meramente auxiliar, afinal n\u00e3o se tinha boa comunica\u00e7\u00e3o, (em decorr\u00eancia) dos t\u00faneis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos t\u00faneis, se era dupla a via, eram duplos os t\u00faneis (eram \u201cg\u00eameos\u201d os t\u00faneis)&#8230; Se o t\u00fanel tinha \u201cnome\u201d valia para os dois \u2013 apenas diferenciavam-nos por, se \u201cda <em>Linha 1<\/em>\u201d ou \u201cda <em>Linha 2<\/em>\u201d. Havia t\u00faneis largos em que <em>Linha 1<\/em> e <em>Linha 2<\/em> mergulhavam lado a lado e havia t\u00faneis em separado para cada uma das vias, tratados por t\u00faneis estreitos.\u00a0 E havia t\u00faneis curtos, t\u00faneis m\u00e9dios e t\u00faneis longos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00fanel \u00e9 sempre algo a considerar na opera\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria, especialmente se est\u00e3o em <em>planos inclinados<\/em>. E t\u00faneis n\u00e3o s\u00f3 tomam nomes, como h\u00e1 t\u00faneis considerados \u201cbobos\u201d e t\u00faneis considerados dignos de nota&#8230; Tinham, naquela serra, quatro t\u00faneis considerados \u201cnot\u00f3rios\u201d (dois t\u00faneis not\u00f3rios em cada via, portanto)&#8230; Faziam refer\u00eancia a eles como os \u201cdois t\u00faneis not\u00f3rios da serra\u201d \u2013 isso, porque consideravam cada via separadamente. No mais, tais \u201cdois t\u00faneis not\u00f3rios\u201d (por via) ficavam vizinhos, ao ponto de maior altitude da serra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Transcorria a viagem e era, com muito interesse, acompanhada por Ananias. Ele via as curvas longas, os cortes e aterros bem trabalhados. Vibrou quando come\u00e7aram a surgir alguns t\u00faneis; Eram t\u00faneis curtos e largos, onde <em>Linha 1<\/em> e <em>Linha 2<\/em> passavam juntas. Vez por outra, viam-se esta\u00e7\u00f5es j\u00e1 sem uso, sendo que uma ou outra trazia a companhia de estranho pr\u00e9dio (em padr\u00e3o) \u2013 que eram as subesta\u00e7\u00f5es desativadas das locomotivas <em>el\u00e9tricas<\/em> que rodaram, tamb\u00e9m, por ali; Tamb\u00e9m ainda se via algum poste de fia\u00e7\u00e3o delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E surgiam cidades de tr\u00e1s dos morros; iam se descortinando&#8230; Felizes cidades, considerava\u00a0 Ananias. Felizes os cidad\u00e3os delas, que tinham por companhia constante o ronronar dos motores e geradores. Nos intervalos de urbaniza\u00e7\u00e3o (que ia se raleando \u00e0 medida que aumentava a altitude), havia muita bananeira suja da fuma\u00e7a dos motores, onde s\u00f3 se viam cachos novos da fruta \u2013 tamb\u00e9m enegrecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia continuava quente e parcialmente nublado, onde nuvens carregadas de chuva faziam, \u00e0s vezes, o tempo escurecer para, no momento seguinte, liberar todo o brilho e intensidade do sol&#8230; Tudo prometia \u201cchuva pra mais tarde\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trem subia lento, com motores a <em>carga plena<\/em> e os maquinistas seguiam em sil\u00eancio; n\u00e3o arriscavam conversa. \u201cCabelo de cortina\u201d, ao comando, de quando em vez perscrutava os man\u00f4metros de ar; \u201cnariz de piment\u00e3o\u201d, ao banco do auxiliar, dava-se a algum cochilo. Quando o sol batia de frente com a cabine da m\u00e1quina, invadindo-a, \u201ccabelo de cortina\u201d contorcia-se como uma lesma; j\u00e1 \u201cnariz de piment\u00e3o\u201d ignorava o sol e apenas garantia que a porta da cabine \u00e0 sua frente permanecesse aberta, coletando ar fresco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ananias via que j\u00e1 chegavam a mais um t\u00fanel e percebeu que o frescor de seu interior era bem vindo \u2013 era t\u00fanel largo e curto e n\u00e3o deu tempo de o calor do trabalho das locomotivas (uma vez que estavam aceleradas) entrar na cabine&#8230; Ananias \u201cdelirava\u201d com os t\u00faneis e vinha-lhe a certeza de que acabaria a subida da linha \u2013 ou da serra \u2013 e iniciaria descida, exatamente dentro de um t\u00fanel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a subida parecia intermin\u00e1vel e Ananias ia olhar os vag\u00f5es \u2013 viu que n\u00e3o se via nunca, o trem inteiro. Viam-se por\u00e7\u00f5es do trem, intercaladas pelos morros. As \u201cmil rodas\u201d vinham cantando e polindo os trilhos, apesar de parecerem paradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais acima, tomou-se terreno em mata fechada e sumiram qualquer vest\u00edgio de casas e pessoas; Os t\u00faneis eram perfeitos isoladores \u00e0 por\u00e7\u00e3o de matas mais ao topo. O que j\u00e1 muito se via era ac\u00famulo de bananeiras de folhas pretejadas pela fuma\u00e7a dos motores e, possivelmente, j\u00e1 trazendo frutos maduros \u2013 os p\u00e1ssaros davam a dica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O trem fazia seu espet\u00e1culo morro acima e o longo tempo cont\u00ednuo de trabalho pesado dos motores, aliado \u00e0 baixa velocidade e ao sol insistente, fazia desprender um calor maior que j\u00e1 envolvia a cabine da locomotiva&#8230; Essa onda de calor, talvez, tenha sido o motivo que fez com que \u201cnariz de piment\u00e3o\u201d arrancasse o protetor auricular que usava. No entanto, a revela\u00e7\u00e3o de um t\u00fanel estreito \u00e0 frente fez com que voltasse a coloc\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal as locomotivas percorreram a primeira centena de metros na escurid\u00e3o dele e a <em>campainha de alarme<\/em> \u2013 que j\u00e1 vinha \u201caranhando\u201d, ent\u00e3o \u2013 deu, de vez, as caras&#8230; Apesar do estrondo sequencial que se deu, era poss\u00edvel ouvir o acess\u00f3rio, que, de maneira insistente, reclamava em algum ponto indefinido, contiguo \u00e0 cabine de condu\u00e7\u00e3o&#8230; Campainha acionada em tra\u00e7\u00e3o de locomotivas apenas indica que alguma unidade fora protegida de algum infort\u00fanio&#8230; mas, dependendo do estardalha\u00e7o, costuma fazer supor que h\u00e1 alguma urg\u00eancia (pode at\u00e9 trazer confus\u00e3o ao maquinista). O acess\u00f3rio \u00e9 acionado em todas as unidades de uma tra\u00e7\u00e3o e, na locomotiva afetada, acendem-se \u201cl\u00e2mpadas de aviso\u201d (ou indicadoras de falhas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles maquinistas, por experi\u00eancia, mantiveram a calma perante o descomedido alarde da campainha \u2013 apenas a calariam se tivessem acesso a ela, bloqueando-a com um chuma\u00e7o de estopa suja ou luva velha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O que a campainha indicava \u00e9 que alguma locomotiva de entre as comandadas havia deixado de tracionar. Poderia ser <em>motor quente<\/em>, ou poderia ser <em>terra<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambos os eventos acionam acess\u00f3rios que protegem a locomotiva, impedindo-a de continuar tracionando. O <em>motor quente<\/em> \u00e9 autoexplicativo; Quanto ao\u00a0 <em>terra<\/em>, \u00e9 quando, por algum motivo, a corrente el\u00e9trica dos geradores entra em contato com a massa da locomotiva&#8230; Se deixara de tracionar \u2013 como perceberam logo a seguir \u2013 o trem perderia um pouco de sua j\u00e1 baixa velocidade de subida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecedores da situa\u00e7\u00e3o que eram, no entanto, sabiam o que fazer. Dado o estrondo continuado e a escurid\u00e3o do interior do t\u00fanel, o maquinista que conduzia o trem acendeu uma l\u00e2mpada interna da cabine e os profissionais entreolharam-se e falaram gritando. Decidiram que parariam o trem, sim, mas s\u00f3 ap\u00f3s a transposi\u00e7\u00e3o do t\u00fanel \u2013 assim que as locomotivas sa\u00edssem dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Estavam, sim, h\u00e1 alguns instantes com uma locomotiva a menos; Viram logo que algum problema se dera com a segunda unidade, pois uma l\u00e2mpada indicadora de falhas se revelava, clareando o interior de sua cabine.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em raz\u00e3o do d\u00e9ficit de locomotivas que j\u00e1 trabalhavam, o trem perderia velocidade&#8230; e, logo, ficaria abaixo da velocidade m\u00ednima de seguran\u00e7a para os equipamentos el\u00e9tricos \u2013 sabiam disso. Sim, as locomotivas que tracionavam, em instantes estariam operando abaixo do patamar m\u00ednimo de seguran\u00e7a para o trabalho pleno que desenvolviam os Grupos-geradores e os motores de tra\u00e7\u00e3o nas rodas. E, de fato, a velocidade caiu e as rodas tratoras, recebendo estupenda carga el\u00e9trica, passaram a tender a \u201crodar em falso\u201d sobre os trilhos. Tendiam, mas, secas que estavam e ainda recebendo areia no contato, mantiveram a marcha&#8230; De fato, o trem n\u00e3o iria parar por si e nem eles precisariam par\u00e1-lo&#8230; tudo \u00a0se resolveria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo se resolveria, em decorr\u00eancia da \u201cmudan\u00e7a de perfil da linha\u201d, que j\u00e1 se dava&#8230; O trem estava come\u00e7ando a \u201cvirar\u201d. \u00c9 que as locomotivas e parte da composi\u00e7\u00e3o de vag\u00f5es estavam, progressivamente, incluindo-se na descida da serra, portanto poderiam manter rota\u00e7\u00e3o elevada nos motores, mesmo na baixa velocidade do trem, uma vez que, a cada vag\u00e3o por vez, o aclive seria deixado para tr\u00e1s e, a cada metro conquistado, ganhar-se-ia mais o declive&#8230; consecutivamente, elevando (a princ\u00edpio, mantendo) a velocidade. Teriam apenas que, por alguns metros ou instantes, \u201cadministrar\u201d uma velocidade mais baixa que a comum, para motores acelerados ao m\u00e1ximo \u2013 e tudo se resolveria. Tamb\u00e9m, uma vez que estavam no interior de um t\u00fanel, teriam que suportar uma maior quantidade de fuma\u00e7a dos motores, sendo que a lentid\u00e3o do trem j\u00e1 permitia que ela ultrapassasse a locomotiva l\u00edder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Ananias, por sua vez, acertara em sua previs\u00e3o de \u201cvirada de serra\u201d dentro de um t\u00fanel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele t\u00fanel estava no marco de altitude m\u00e1xima daquela linha f\u00e9rrea e, por isso, era chamado de \u201ct\u00fanel da virada\u201d \u2013 o ponto exato de virada (o ponto de \u00e1pice da subida e consequente come\u00e7o da descida) se dava quase que exatamente \u00e0 sua entrada (naquele sentido de marcha do trem); Sua extens\u00e3o era de mil e quatrocentos e poucos metros e era o segundo maior t\u00fanel daquela rota ferrovi\u00e1ria (ao lado de seu \u201cg\u00eameo\u201d)&#8230; A dupla \u201ct\u00fanel da virada\u201d (tanto o da <em>Linha 1<\/em> quanto o da <em>Linha 2<\/em>) era daqueles chamados \u201ct\u00faneis not\u00f3rios\u201d \u2013 daquela rota&#8230; (CONTINUA)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; (CONTINUA\u00c7\u00c3O) &#8230;as horas assumindo uma posi\u00e7\u00e3o meio encurvada pra um lado (era cacoete ainda de sua posi\u00e7\u00e3o ao comando das restritas cabines \u2013 pra si \u2013 de suas locomotivas a vapor). 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