“Um Fantasma no Trem” – Parte 4

24/01/2019

(CONTINUAÇÃO)

            Voltando às superficialidades, Ananias logo viu que as locomotivas a vapor eram vítimas de um “mundo de confusão”… Eram, em maior parte, tratadas por “generalizações”. Quase não falavam aqueles nomes (da “classificação Whyte”) que aprendera com o colega.

            Por exemplo, ouvia: “as Baldwim…” – que era nome de fabricante americano, e não nome de locomotiva. E mais: “Carabina”, “Francesinha”, “alemã” e outros – que eram apelidos  que impediram que se conhecesse o verdadeiro nome da locomotiva. E vinha mais confusão: “olha aí as “Francesonas”; olha aí as “Irmãs de caridade” – que eram apelidos  incabíveis a “modelos” de fabricante francês. E continuava: olhem aí as “Gelsa” – que era o fabricante francês, mas não ainda nome de locomotiva.

            Do gigante “monstro de fogo” à sua frente, viu que era uma 2-10-4, mas não lembrou o nome e nem ficaria sabendo – conseguira achar nela apenas a placa do fabricante.  

            Quando conseguiu sair dali, apenas levou a certeza de que a confusão em relação aos nomes, tratos e apelidos em relação às  locomotivas a vapor só não seria coisa eterna porque eternas não eram elas.

            Saiu pra fora da garagem e já havia passado muito do dia – supôs, inclusive, que talvez tivesse dormido, sem perceber. Olhou para os lados da quarta garagem e imaginou que podia ser um depósito de produtos químicos ou algo que o valha. Afinal, apesar de ela ter trilhos de entrada, já não estavam conectados ao pátio. Parece que, propositadamente, haviam sido cortados.

            Viu, ainda, que tal garagem parecia ser a mais velha ali, e fora feita com diversos materiais – não só madeira. Havia porções em chapas de aço, por exemplo.

            Ananias quase a deixou pra lá. Queria, ao menos, ir passear pelo interior das oficinas de vagões, antes que a tarde baixasse de vez.

            Mas, se visitara três garagens, por que não ir logo ver a quarta. Ficaria livre daquela parte.

            Foi até ela, que estava como que camuflada em meio ao arvoredo. Já foi notando que era ligeiramente mais longa e bem mais alta que a segunda e a terceira… Em matéria de dimensões, era uma réplica da primeira gigantesca garagem.

            Viu que o portão dela estava fechado e bem acorrentado. Viu que descia até os dormentes e estava “moldado” aos trilhos, de modo que até roedores poderiam ter dificuldade de passar… Mesmo se deitasse no chão, teria dificuldade de ver o interior daquela garagem. Rodeou-a, procurando uma fresta, e nada.

            Haveria de ter um veículo ferroviário ali dentro. Que tipo de veículo seria? Ora, a “dama de ferro”, bem como a manobreira/tanque já representavam bem as “vaporosas”. Poderia ser uma litorina? Seria uma gigantesca locomotiva elétrica?

            Ananias olhou os trilhos cortados, trilhos que antes se conectavam ao pátio. Acaso houvesse um veículo e fossem tira-lo dali, daria trabalho para refazerem uma conexão, pois até mesmo árvores já estavam pelo caminho. 

            Aquela garagem tinha uma lógica contrária à primeira: enquanto aquela parecia estar esperando um ocupante, esta parecia conter um cativo e “eterno” ocupante.

            Ananias estava, evidentemente, diante de um “mistério”. Seja o que for que guardasse aquela garagem, tinha mais importância em relação a outros materiais ou equipamentos “rodantes” do complexo; mais importância ainda que a “dama de ferro”. Tal garagem, bastante isolada e fechada parecia “esconder” algo, no sentido de esconder mesmo.

            Não tinha como não pensar na Biriba, novamente… e poderia ser outra Diesel qualquer.

            Todas as hipóteses de outro veículo ferroviário eram plausíveis, afinal, Ananias constatou que aquele galpão não era um depósito de materiais, definitivamente. Via-se, claramente, que há muito, muito mesmo, seu portão não era movimentado.

            A curiosidade de Ananias era muita, mas aquele foi um portão ao qual não tentou transpor. Nem mais procurou frestas, afinal dentro dela já estaria escurecendo. No entanto, dado a sua situação (afinal era uma alma), pensou em tentar passar para dentro dela. Mas teve medo de conseguir passar… e de não conseguir retornar. Não arriscou.

            No mais, começara a conhecer algo das instalações da ferrovia em Lauriano. Continuaria as visitas no outro dia, bem de manhã – planejou.

            Olhava o tempo e percebeu que não tardaria o anoitecer. As sombras estavam grandes.

             Lembrou, então, dos maquinistas de sua região de morada. Aqueles reconhecidos notívagos diziam que bastava o sol se pôr para que a ferrovia se lembrasse de que eles existiam.

            O que teria que fazer, então, era correr para a escala de maquinistas… que  era onde parecia nascerem os trens.

Capítulo 3

                   O “fantasma” sai para o trecho.

                     Mais um “Inventor da roda”.     

                   O trem no ermo – lindo e sem testemunhas.

            Ananias chegou à escala de maquinistas no momento da troca de turno dos plantões. Em Lauriano, “falar com o plantão” tinha como endereço, então, a escala de maquinistas. Na escala, dava-se o ininterrupto serviço do plantão e o serviço, apenas diurno, do escalador de maquinistas.

            O plantão era exercido – como em toda a estatal ferroviária – por maquinistas e/ ou auxiliares de maquinista (que continuavam classificados como tal, afinal não se tratava de ascensão na carreira)… Era um “serviço interno” oferecido a alguns desses profissionais. Considerava-se que eram “colocados” como plantão.

            Já, a função de escalador, era exercida por um supervisor veterano. O escalador ficava por conta de fazer e organizar as escalas de serviço dos maquinistas e auxiliares. Deixava, diariamente, uma escala ao alcance dos maiores interessados e cópia com o plantão.

            O nome era ‘escala de maquinistas’ porque ali não só se dava a apresentação  desses profissionais para iniciar jornadas no trabalho como, por ali ficavam em “regime de prontidão” – aguardando trens.

            Trabalhavam ainda, junto ao plantão, outras equipes de maquinistas e auxiliares, em serviços relativos apenas às manobras no pátio. Ficavam por conta de “preparar” locomotivas, o que incluía tirar locomotivas avariadas dos trens; colocar nos trens as locomotivas liberadas pela oficina; agrupa-las para compor trens; sair para o trecho em “experiências” com locomotivas em reparo… Os maquinistas da manobra estavam sempre em contato com o plantão e a escala era seu norte e pausa para cafés.     

            Havia, na ampla sala do Plantão/escala, um balcão comprido que delimitava a área reservada às duas mesas – a do plantão e a do escalador. Do lado de fora desse balcão, ficou formado um corredor muito largo, que, além de servir de espaço de trânsito ao pessoal – onde paravam para ler avisos no “quadro padrão” – também levava à porta de acesso aos cômodos dos fundos.

            Os cômodos dos fundos eram duas salas de TV, os banheiros, a cozinha do café, os quartos com beliches (onde os maquinistas, em “prontidão”, podiam aguardar os trens)… Do interior de uma das salas de TV tinha-se acesso, “por dentro”, à sala dos supervisores de locomoção que, por sua vez, tinha também sua entrada pela frente, pois que ficava disposta lado a lado com a sala da escala de maquinistas – e, ambas, ficavam de frente para o jardim e trilhos, tal qual  as outras salas todas do prédio longo.

            Quanto à rotina no Plantão de Lauriano, era agitada. O sujeito plantão fazia uma jornada de doze horas, ora diurna, ora noturna, a atender estações, oficinas, o CCO e maquinistas… Seu contato maior era com maquinistas, afinal trabalhava na própria escala de maquinistas.

            O plantão não só atendia os maquinistas em sua apresentação na escala, como acompanhava suas apresentações ao longo do trecho.

            As apresentações dos maquinistas eram diferenciadas. Havia apresentação para “sobreaviso”, para “prontidão” e para iniciar jornada efetiva ao comando de trens. Sendo assim, o plantão acompanhava suas jornadas quando nos trens e quando “por conta” dos trens.

            E se o plantão punha e retirava maquinistas dos trens, controlava, “por tabela”, os “carros de troca”, que eram os veículos que transportavam maquinistas para os trens, ou para suas casas ou para alojamentos. E se acionava os maquinistas para as jornadas de trabalho, de acordo com o andamento dos trens, acompanhava, de certa forma, os trens… Acompanhava os trens e, assim, acompanhava as locomotivas. Acompanhava-as para controlar o recebimento e entrega às oficinas de manutenção.

             No Plantão de Lauriano havia mais que um aparelho telefônico para lidar. O sujeito plantão tinha, ainda, outros acessórios que o auxiliava. O principal era o “quadro de controle”. Era um quadro bastante grande, retangular, revestido por fórmica em cor branca… Ficava ao alcance visual do plantão, afixado em uma das paredes da sala.

            No “quadro de controle” estavam as diversas tabelas. Havia tabela de horário de apresentação de maquinistas, de nomes dos trens, de números das locomotivas; tabelas relativas a alojamentos e aos “carros de troca”… E todos os nomes, números e termos necessários ao serviço estavam representados por “plaquinhas” coloridas. Também, mais chamativamente ali, estava simulado trajeto das linhas, bem como estava marcada a posição de cada pátio, cada alojamento – tudo da área de abrangência de Lauriano.

            Enfim, o “quadro de controle” era fundamental ao serviço do plantão, não o deixando se perder naquela complexidade… Não era um quadro dinâmico, porém. O plantão, por algumas vezes, tinha que se levantar de sua cadeira e ir ele para fazer “atualizações” – atualizava-o arrastando as “plaquinhas” e reposicionando-as. Para as “atualizações” no referente às locomotivas, tinha linha direta com a oficina. Para acompanhar o desenvolvimento dos trens, tinha  linha telefônica exclusiva com o CCO.

            E as “plaquinhas” é que possibilitavam fazer o acompanhamento pelo “quadro de controle”. Eram plaquetas-imã, em cores específicas, com o nome de cada maquinista, cada trem, cada locomotiva… Fazia-se um grupo único (trem/locomotivas/maquinista) e ia-se, de tempos em tempos, o “arrastando”, manualmente, pelo trajeto de linha simulado no quadro. Conquanto, como as situações eram dinâmicas, cada “plaquinha”, depois de “desfeito” o trem (ou a situação), era colocada em sua respectiva tabela de espera. Por exemplo, o maquinista chegava ao destino e sua “plaquinha” era posicionada na tabela do respectivo alojamento, acompanhada de indicação de horários.

            E, enfim, no “quadro de controle” havia referências “de apoio” e referências secundárias. Em caso de qualquer anormalidade (paralisação de trem no trecho ou acidente, por exemplo) o quadro recebia “plaquinhas de alerta” (diferenciadas) e davam logo o indicativo visual da situação.

            Arrastar as “plaquinhas” para atualizá-las era uma tarefa intermitente, porém exigia relativa constância… e, às vezes, o plantão recebia ajuda. Um ou outro maquinista (ou auxiliar), quando “sobrando” ali, se disposto, passava o balcão e se disponibilizava a lidar com a insossa tarefa.

            O “quadro de controle” era acessório que “dizia logo o que estava acontecendo”, tanto que, antes de se falar ou de se dirigir ao plantão, era, por qualquer um que chegasse ao ambiente, longamente perscrutado.

            De fato, estava disposto de modo que a todos os que entrassem na escala pudessem – ao balcão – consultá-lo de pronto. E, notava-se que, fosse por hábito, distração ou necessidade, era, por todos que chegavam ao ambiente, constante e demoradamente consultado… Um desavisado poderia supor (poderia jurar) que alguma coisa se movia nele.

            Não poderia faltar uma alcunha ao hipnotizante “quadro de controle”. A maquinistada o chamava – longe dali –  de “quadro burro”.

            Ainda, quanto à função do plantão, havia algum choramingo entre os maquinistas do trecho, contra aqueles “encostados”. Porém, choramingo não muito honesto, afinal, uma maioria absoluta não se dispunha nem a enfrentar o – considerado – “serviço rotineiro”, nem a ficar afastada dos trens e suas financeiramente rentáveis irregularidades de horários. Também, a maioria dos maquinistas queria mesmo era a “liberdade dos trens”.

            Os maquinistas do trecho tinham algo como uma “rotina nada rotineira” e raramente tinham companhia de chefes durante as viagens nos trens, enquanto que os plantões trabalhavam, constantemente, junto a estes.

             Especificamente, quanto aos maquinistas do trecho, seguiam tal “rotina nada rotineira” e… E adiemos essa parte.

            Não vamos nem começar conversa em relação à função do maquinista do trecho agora. Deixemos esse assunto para depois.

            Por enquanto, apenas consideremos que o maquinista que aceitava (ou pedia para) trabalhar “colocado” como plantão, parecia ter como motivo mais urgente, ficar livre de tal “rotina nada rotineira” de sua função.

            Considerando que, claro, havia maneiras bem mais nobres de o maquinista se ver livre de sua singular função, sem desligar-se de tão, digamos, estimulante setor. O maquinista tem, para ascender na carreira, oportunidade de se tornar supervisor e/ou escalador.

            Voltando a Ananias, sabia que no Plantão estava todo o “DNA” dos trens. Ademais, se fora – na carreira de bancário – um “rato de escritório”, ali, de certa forma, “sentia-se em casa”. Passou a acompanhar, então, tudo daquele recinto em meio ao entra e sai de maquinistas e outros ferroviários. Prestava atenção ao andamento dos serviços e prestava atenção às brincadeiras, aos nomes, aos tipos. Começava a se familiarizar com aquela gente que sempre admirara.

            Viu que o plantão que terminava sua jornada não tinha lá, pinta de maquinista; Estava mais para agente de estação. Já, o plantão que iniciava jornada, tinha cara de maquinista (e isso só Ananias entendia). Era fácil a Ananias imaginá-lo ao console de uma locomotiva; Pareceu-lhe, a princípio, que estaria “desperdiçado” atrás de uma mesa cheia de telefones.

            Pareceu-lhe, mas, veria logo, que se dava muito bem na função de plantão. Que era, deveras, versátil. Cuidava de tudo e não deixava de responder a chamados por seu nome (ou apelido) – que ecoava na sala.

            Por sua vez, o movimento de maquinistas no Plantão era intermitente. Havia momentos de sala cheia, havia momentos de apenas um por ali, e havia instantes em que o sujeito plantão ficava só. Ananias ficou num canto, no lado de dentro do balcão, e observava. Sua atenção maior era para com os trejeitos daquele plantão da vez.

            A certa altura, percebeu que ele, ao levantar-se da cadeira, mancava ligeiramente… Não tardou e um maquinista da manobra (que buscava ali uma ferramenta) caçoou, dizendo que aquilo era decorrente de quando “corria atrás da bola” (de futebol), ao que ele desconversou e justificou. O motivo de mancar teria sido uma “prensa” no joelho, por ocasião de um tombamento de locomotiva… “Tombamento em bitola larga, com ‘prensa’?”, estranhou o nem sempre tão bem informado Ananias. Porém, mais tarde, veria que o homem tinha origem em ferrovia de bitola métrica, e o tombamento fora por lá. Aquele empregado viera de outra ferrovia, trabalhara por uns tempos em viagem – em Lauriano – e, depois, “encostara-se” no Plantão.

            As conversas fluíam e o “entra e sai” do pessoal era espaçado, porém, ininterrupto. Quem chegava, dava seguimento a conversas que, parece, ficaram antes inconclusas e nem iam se encerrar ali… As conversas eram diversas e surgiam orbitando o assunto principal (o serviço, os trens), enquanto que, os procedimentos de praxe (discar ou atender telefone, perscrutar longamente o “quadro burro”, “abrir” ou “fechar” cadernetas, por exemplo), eram executados mecanicamente… Entre as conversas estava o futebol, claro.

            O futebol parecia ser espécie de “abre caminho” (de bom caminho) para com aquele plantão. Então, às vezes, um que chegava atiçava, lembrando-o de certo “gol roubado”, do “placar” que “tinha que mudar”, do fato de algum jogador “ir para o exterior”, e por aí ia.

            Também, a depender de quem chegasse,  o plantão mesmo já dava a deixa. Entre outros exemplos, iniciava os assuntos assim: “Opa! Viu o menino ontem? Aquele sabe lidar com a ‘pelota’; não fica no Brasil”. Ou então: “fulano, da camisa nove (de tal time), pode desistir; Rolar a ‘pelota’ não é com ele, não”. Ou ainda – quando levantava pra ir ao “quadro burro” (pondo a mão no joelho): “faz vinte anos que não jogo… é muita saudade; Tem noite que sonho que estou rolando a ‘pelota’”.

            Ananias via que, ao conversar sobre futebol, em quase toda frase proferida, o plantão empregava a palavra – relativa à bola de futebol – “pelota”… E era claro indicativo do porquê de alguns o tratarem por tal epíteto. 

            E Ananias via que alguns engraçadinhos, vez por outra, usavam do trololó futebol para tentar escapar de uma escala claramente pior que outra; para tentar desviar a atenção do plantão (uma vez que tudo ali estava em suas mãos)… mas o homem tinha o jogo de cintura necessário. “Conhecia a boiada” toda e não se deixava levar (se deixava, era porque assim o queria).

            Quanto a Ananias, ouvia os assuntos que orbitavam o assunto principal – os trens – mas estava mesmo, era atento a este. Prestava atenção a cada “problema”: “a 7033 está chegando de Serra Branca com barulho estranho no Motor Diesel”; “Vamos ter que inverter a “líder” do MMN 02-21, apedrejaram os vidros dela na saída de Mineriolândia”; “vamos fazer a ‘experiência’ ou manobrar os tanques?”; “o MNM 02-32 vai rodar ‘empurrando motor’; acione mais um maquinista”… e por aí afora.

            E, como havia os instantes em que a escala ficava vazia, nestes é que Ananias via o quanto o plantão estava alegre (a ponto de cantarolar) pelo fato de seu time estar indo muito bem no campeonato estadual… Alegre e confuso, afinal costumava interromper ligações num aparelho e manter aos ouvidos um aparelho mudo; costumava acender um cigarro enquanto outro, inteiro ainda, ia se consumindo esquecido no cinzeiro. Ananias se divertia.

            Lá fora, no pátio, diferentes “batidos” de motores de locomotivas se alternavam e “teleco-tecos” de rodas de vagões nas juntas dos trilhos, a ganhar velocidade, deixando o pátio, era quase uma constante… Quando, por perto, cessava o barulho, ouvia-se, ao longe, o “ronronar” constante da oficina de locomotivas e alguma manobra nas oficinas dos vagões. 

            Nos momentos de calmaria, Ananias aproveitava e lia os avisos no “quadro padrão” – o “quadro padrão” era conjunto de dois quadros distintos, “emoldurados” juntos, um de fundo vermelho e outro de fundo azul, que ficavam em todas as repartições e traziam notícias e avisos em geral. Depois, Ananias voltava-se sempre à “barulhada” daquele plantão, invejando aquela rotina. Somado tudo, veio-lhe que “a noite seria uma criança”.

            Mas Ananias nunca havia trabalhado madrugada afora e, sentindo-se sonolento só de pensar, decidiu que procuraria um canto pra dormir. Decidiu que “pegaria” um trem só no outro dia, de manhã. Iniciou caminhada para os cômodos dos fundos, enquanto fazia o gesto de se espreguiçar… mas não o concluiu. Uma súbita mudança de humor do plantão lhe despertou. Voltou-se a observá-lo.

            O homem acabara de falar ao telefone – que desligara – e tinha sério por demais o semblante… De tal modo que ficara até amarelada a pele vermelhada castigada de sol. Estava agitado tal que o cabelo – um liso volumoso de aspecto ensebado – se despregou do penteado e, em parte, lhe deitou à testa.

            Para um maquinista que chegava ao balcão procurando uma estopa, fez até um “desabafo”: “Veja bem, está difícil de trabalhar com certos  caras…” e, parece que pensando alto, completou: “e ainda o camarada quer ser chefe. Imagina se convence essa turma nova que tá chegando aí(?!)… Parou por aí. O outro, que já limpava as mãos com a estopa, sem se ater à incompletude da “informação”, respondeu: “Eu estou me aposentando em breve, ainda bem. Já  não tenho coração para muita novidade”.

            Ananias ouviu bem as conversas e, a princípio, tudo lhe pareceu parte da coisa; Coisa que, certamente, se desvaneceria a seguir. Porém, o plantão continuava “afetado” e tinha sempre necessidade de comentar o ocorrido. E continuou, falando ao da estopa, numa fala contraditória: “O cara é até bom, ‘pô’, mas se não tivesse dado aquela vez um título ao FEC, já estaria é fora há muito tempo, pois além de metido a mudar as tradições do serviço, vive ‘batendo de frente’ com os ‘ôme’… Não vê que deu palpite até na construção do restaurante?… E palpite errado”.

            O outro compreendia o desabafo do plantão e sabia que aquilo era passageiro. Mesmo assim continuaram a conversa e deixaram escapar o nome do “causador” do agito. Falaram em um  certo Don, e que chegaria atrasado à sua apresentação para cumprir a condição de “prontidão” (aguardar trem) – o sujeito relatara o motivo do atraso ao plantão (uma “moto quebrada” no retorno de um Curso – algo assim). Os motivos do atraso (ou simplesmente o atraso anunciado em si) é que parecia ter sido o estopim de toda a pendenga… E o plantão reforçou, depois, junto a outro que chegou e lhe era mais íntimo, sobre o quanto de perigo representaria se o tal Don “convencesse” a nova chefia que chegava (referia-se à Nova Ferrovia pós-privatização) e “recebesse alguma ‘promoção a chefe’”.

            Ananias ouvia e entendia tais diálogos como que rotineiros; Pareciam ser, aquelas conversas “menos amáveis”, apenas um motivo pra espantar o sono, antes que chegasse. Sendo assim, entendeu a “bronca” do plantão e o deixou a falar; Pôs-se a caminhar para os fundos, a procurar um canto sossegado para dormir. Deu alguns passos, mas, de relance, ouviu um dos “debatedores” referir-se ao maquinista provocador do rebuliço como a um “grande inventor da roda” – algo assim… Parou para escutar. E repetiam: “é isso, o cara vive tentando ‘inventar a roda’ e só sai bobagens, oras”.

            Aquelas palavras – aquele termo – eram caras a Ananias. Chegou a ouvir de alguns conhecidos que era um “inventor da roda” (não entendiam o porquê de inventar parafernálias para os trens)… Pensou, então, em aguardar a chegada do maquinista “inventor de roda”. De cara começara a imaginar que tinham algo em comum.

            Ananias viu que o plantão, com aquele episódio, adquirira adrenalina suficiente para trabalhar sem sentir sono por boa parte da noite, pois, a um ou outro – não a todos – que chegava, ele, de maneira ou outra, “passava o problema”.  

            Ananias foi ao “quadro burro” e leu a lista de apresentações da noite. Procurou pelo nome e viu que se tratava de certo Donadon.  Ouvindo mais, viu que tinha realmente a ver com algo relativo ao antigo time de futebol dos ferroviários (o FEC) de Lauriano e também com o restaurante – que estava com a construção interrompida.

            Para Ananias, um sujeito que “inventava rodas”, tinha a ver com um time de futebol extinto e, ainda, com as obras interrompidas de um propalado restaurante, merecia uns minutos a mais de atenção… E decidiu esperar por ele; resolveu que ia “conhecê-lo”. O tal Donadon chegaria por volta das “vinte e três horas”.

            Enquanto esperava, Ananias ia, de acordo com as conversas puxadas com alguns pelo plantão, conhecendo o polêmico maquinista a qual chamavam Don… Chamou-lhe a atenção que um maquinista de pouca conversa – que nem fora chamado ao assunto – fez defesa ao colega de trabalho; uma defesa ferrenha que parecia ter feito doer os ouvidos de alguns dos presentes. Após isso, o assunto se dissipou um pouco.

            Como avisado, Donadon chegou com quinze minutos de atraso para a sua, a princípio, condição de “prontidão”. O plantão, já bem menos contrariado (“stress, stress”, concluiu Ananias), cordialmente e com voz cantarolada, lhe disse que havia café novo na cozinha. Acrescentou que, se acaso quisesse, poderia ir para os beliches tirar um cochilo, afinal os dois trens mais próximos, e que ali mesmo cruzariam, demandariam algum tempo para chegar.  

            Donadon, seguido por Ananias, se dirigiu com uma cara de sono de dar gosto ao quarto com beliches. Lá, espantou alguns pernilongos, tirou a botina, cobriu a cama com um lençol seu e deitou-se, de uniforme mesmo. Lá, no pátio, uma locomotiva manobrava, emitindo um zoado misturado a um assovio, mas seu barulho não o incomodou, pois, em segundos, já ressonava… assoviando   mais que a locomotiva.

            Ananias a tudo acompanhava e ficou num canto do mesmo quarto. Ouvia a locomotiva assoviando, imaginava-a e não conseguia dormir. Seu pensamento se dividia entre ela e em perscrutar a figura de Donadon… Viu que tinha uma magreza acentuada, o que, aliado a uma altura pouco acima da média, deixava-o (constatou), numa expressão corporal parece que debilitada. 

            Ananias, enfim, foi dominado pelo sono – que veio pesado… Porém, mal dormira dez minutos quando a porta do quarto foi aberta e, acendidas, foram todas as luzes.

            Entraram para o recinto o plantão, alguns maquinistas que iniciavam “prontidão” e muita, muita fumaça de cigarro junto. Donadon e outro maquinista, que também aguardava, foram despertados e chamados aos seus trens. O plantão passou-lhes a “escala”: “Don vai pra Serra Branca e você” – pondo a mão no ombro do outro maquinista (parecia que de modo a consolá-lo) – “tá  indo pra ‘minério’. Já chamei um auxiliar, pois você está “empurrando motor’”… Ananias despertou-se mais.

            “Empurrando motor” era um termo ferroviário que Ananias, xereta de tudo dos trens, queria se inteirar melhor. Mas, estava na cara, era a situação em que os maquinistas de sua região de morada chamavam de “capotão”. No caso, é quando a locomotiva líder circula de “ré” ou de “recuo”, com seu lado longo virado no sentido de marcha do trem… Um mesmo procedimento, certamente, terá nomes diferentes nas diversas ferrovias, afinal, cada uma possui sua “particular cultura”.

            Voltando ao plantão, relacionou os “destinos” (Serra Branca e “minério”) e os dois maquinistas envolvidos se entreolharam interrogativamente, enquanto amarravam o cadarço das botinas – tinham algo a dizer ou propor… Antes, porém, de qualquer argumentação – uma proposta de troca de escala (troca de itinerário ou destino) já iniciada pelo outro maquinista – o plantão interferiu, acenando negativamente com as mãos: “Vamos, gente. Cada um no seu trem e nada de troca. O momento é de profissionalismo”.

            Aquele “momento de profissionalismo”, sugerido pelo plantão, certamente se relacionava à, em curso, desestatização, que traria mudança de parte da chefia superior na ferrovia; à aproximação, então, de a Nova Ferrovia assumir de vez… O plantão, temendo contratempos talvez, foi enfático e decisivo, “dando” a cada um o seu trem, observando a sequência ou “frente” e, assim, frisava que se cumprisse. Acrescentou, ainda, que não estava nem mesmo disposto a mudar, no “cansativo ‘quadro burro’”, a “plaquinha” já relacionando o maquinista ao seu trem.

            Tinha-se, ali, duas escalas de serviço e dois maquinistas aptos a fazer qualquer delas. Parecia, apenas, estar o itinerário invertido ao gosto de cada dos envolvidos – era isso.

            Quanto a Ananias, achou interessante o plantão resumir o nome de um dos destinos. Dissera ‘minério’ ao invés de Mineriolândia… Sacou logo que tais termos eram referentes à cidade em que havia as minas de minério de ferro, transportado ali.

            E, sim, os dois maquinistas queriam “trocar de escala”. Queriam inverter os itinerários. Donadon porque tinha namorada em Mineriolândia. O outro, simplesmente, porque preferia viajar para Serra Branca.

            As “trocas de escala” (ou de trem) feitas à saída de Lauriano não impunham qualquer prejuízo ao serviço. Ainda que de incidência raríssima, eram feitas em comum acordo entre os maquinistas envolvidos – o plantão apenas “anunciava” os dois trens, a serem atendidos.

            Quanto aos maquinistas e às suas escalas, cumpriam uma regra; cumpriam a questão “frente”. Quem estivesse mais “velho” no relativo ao “prontidão” e/ou “sobreaviso”, ia fazer o trem que fosse sair primeiro do pátio. Era uma regra necessária, afinal havia preferência clara, quanto aos itinerários e destinos em jogo. Porém, acaso maquinistas quisessem trocar de escala, entendiam-se entre si. Claro que, na complexidade do serviço ferroviário, o plantão podia “interpretar” diferente (e, afinal, ele é que tinha as informações de tudo)… Aquele plantão, ao não deixar que fosse feita a troca de escala entre aqueles maquinistas, apenas procedera de modo singular; não equivocadamente.

            E o caso todo era o seguinte. Aqueles maquinistas pertenciam ao núcleo de Lauriano e residiam ali, naquela cidade – sem nome na ferrovia – que acolhia tal núcleo. E, tinham eles, dois itinerários a fazer, ou seja, dois “trechos” para viajar nos trens cargueiros; dois destinos: Mineriolândia e Serra Branca. Então, quando ali em Lauriano se dava de cruzar dois trens (o que era o mais comum e mais “urgente” de atender), tinha-se que, às vezes, fazer a troca de maquinistas neles – afinal havia…

(CONTINUA)