“Um Fantasma no Trem” – Parte 14

12/04/2019

 

 

CONTINUAÇÃO

            Ananias, de volta a Lauriano, passou uns dias a xeretar o complexo ferroviário e, todo o começo de noite, ia para a escala de maquinistas; Gostava de acompanhar a troca de turno dos plantões, que era também o momento em que se dava a troca de turno entre os maquinistas da manobra. Mais uma vez estava na escala e viu que o plantão que terminava a jornada era aquele que tratava por ‘pelota’ a bola de futebol. Estava o entra e sai de sempre, mas, no máximo, havia cochichos, pois  evitavam-se  conversas e brincadeiras, durante a passagem de serviço dos plantões; Era momento delicado em que já bastavam os ruídos próprios da ferrovia – ou a iminência deles.

No entanto, o silêncio na troca de escala, naquele dia, durou menos. É que, de súbito, zuniu no ar uma risada alta e singular que só não assustou mais a todos porque era, por demais, conhecida. A risada veio de um sujeito que a lançara ainda no portal do cômodo da escala. Quando finalmente adentrou o ambiente, viu-se que outro vinha ao seu encalço… Então, ambos entraram, pararam e se posicionaram com as mãos juntas para trás, o corpo inclinado à frente, fazendo gesto negativo de cabeça – como a pegar todos “no pulo”. No mais, sem nada falar, mantinham uma cara risonha, como a esperar algum comentário… e, de fato, passaram a ser “xingados”, enquanto eram cumprimentados entusiasmadamente por todos os presentes.

Enfim, a dupla que chegava era querida e a recepção foi calorosa. Entre brincadeiras, cumprimentos e tapas no ombro, eram-lhes lembrados seus vários apelidos, além de serem chamados de cornos e – como que para fazer plural – “seus filha das p***”.

Passou, a coisa, a ser brincadeira só. O plantão que saía (o da ‘pelota’), inclusive, lançou-lhes uma saudação, cantarolada, em ritmo de narração de futebol. “Madruga e Pedrada saem do banco de reserva e vão para o meio de campo. Madruga mais pançudo que nunca não consegue alcançar a ‘pelota’… Pedrada, já de ‘farol baixo’, está pedindo uma maca”. Acabou-se, enfim, o silêncio.

Madruga era maquinista e Pedrada, um auxiliar – de maquinista. Eles se apresentavam para sua primeira viagem pós-férias e faziam, juntos, como vinha acontecendo há anos, as escalas nos trens; Estavam “irmanados” a pedido deles mesmo. Eram compadres e entraram para a ferrovia no mesmo dia, na mesma função. Eram do tempo da chegada das espanta-demônio, segundo uns, com galhofa. Porém, de fato, a ambos faltava pouco para “completar o tempo” – para a aposentadoria.

Madruga, o “pançudo”, era um moreno claro corpulento, que sempre mantivera relativa cabeleira, de “liso pra anelada” – por sinal, apenas ainda começando a ficar grisalha – e estava sempre com a barba por fazer, (o único que os antigos supervisores de locomoção não incomodavam por tal motivo). Talvez fora atlético, mas, estava bem acima do peso, com a “cara redonda” e lutava para não passar daquilo. Em chacota, era sempre lembrado que não conseguiria passar pela porta da cabine da locomotiva; que não conseguiria se encaixar no cubículo entre o banco do maquinista e o painel de comando. Era um sujeito que todos gostavam de ter por perto, pois era divertido, e tinha ainda aquela curiosa risada, com que se apresentara, tomando a atenção de todos que estavam na escala… Madruga não era o seu nome – era apelido. Era uma corruptela de “madrugada”. Conseguiu-o, já no início da carreira como auxiliar, de tanto dizer que, em relação aos horários de jornada, era o “rei da madrugada” – no sentido de reclamar que sempre fazia muitas viagens noturnas nos trens. Começaram chamando-o de “madrugada” e, com o tempo, passou a “madruga”.

O outro da dupla, o do “farol baixo”, era o Pedrada; um “eterno” auxiliar de maquinista. Ocorre que – falava-se – não se dava com o “teste dos risquinhos” – o “pisicoteco” – e, por isso, nunca houvera conseguido promoção à maquinista. Era mulato desbotado, quase amarelo; de magreza “eterna” e calvície precoce. Era um sujeito engraçado e pacífico ao extremo. Colecionava grande variedade de apelidos relativos à sua aparência: barbatana, barbante, cadáver, saco de osso, caveira, “farol baixo” – os quais alguns colegas, ao encontrá-lo, enumeravam a longa lista, antes de iniciar conversa. E, para completar a lista de apelidos e chamativos, havia o  “Pedrada”, apelido que permanecia e com o qual era apresentado a outros, de tal forma que poucos lhe conheciam o nome, de fato. O apelido, não aludia ao fato de ter sido, por exemplo, atingido por alguma pedra nalgum perímetro urbano – o que poderia se supor. Não isso, mas estava literalmente na cara – tinha, mesmo, um pequeno galo na testa; Ficava  no lado esquerdo da testa, uns dois dedos acima da sobrancelha. Era um “lobinho”, o qual Pedrada mantinha, na ponta da língua, a descrição “médica”. Explicava: “é simplesmente um cisto sebáceo ou ateroma”… E não passava um único dia – no serviço – sem que alguém deixasse de caçoa-lo, lembrando que “o chifre estava apontando na testa” ou coisa assim. A resposta era sempre a cara de riso, a olhar com um olho aberto e o outro um pouco fechado, pois tinha uma das pálpebras “preguiçosa”, sempre a meio caminho; por isso dizia-se, também, que tinha um “farol baixo”.

Madruga e Pedrada formavam uma dupla agradável e todos gostavam de vê-los juntos. Se um não estivesse por perto, o outro sofria inquirição sobre o paradeiro. Ambos “eram do trecho” mesmo. Nada de paliativos como serviços de manobra, Plantões ou “lastros” (trens de serviço na linha)… Se pegavam um “lastro”, por exemplo, consideravam-se “de castigo”.

Madruga falava pouco e era bom ouvinte. Pedrada, mais prosa, tinha sempre longas explicações pra tudo, baseadas em teses filosóficas, das quais não conseguia concluir nunca o raciocínio, mas, numa tirada rápida, foi o que apresentou a melhor definição para aquela risada divertida do maquinista Madruga – a risada que chegou a assustar alguns, na chegada – e todos passaram a observar que acertara em cheio. A risada de seu compadre não era risada – era uma “partida de locomotiva”.

De fato, àquela sonora e espontânea “manifestação de amabilidade e simpatia” do maquinista Madruga não se podia, mesmo, deixar correr apenas a denominação de “risada” – lembrava, mesmo, uma partida de motor de locomotiva.

Sua risada era em tom agudo e consistia-se – nitidamente – de duas partes. A primeira parte – o começo – era algo como um quase berro; Era um grito alto e relativamente curto; repentino – e de “surpresa”. A segunda parte vinha emendada ao “grito”, no mesmo fôlego, porém em tom mais alto ainda – era a “fase”, então, reconhecida como risada. Essa segunda parte era, ainda, aguda e durava mais tempo que a primeira, mas não se delongava – interrompia-a quando lhe restava ainda muito fôlego. Era a sua risada. Era tal qual uma “partida de locomotiva”. Era nítido: primeiro o “estalo”, quando no giro da chave de partida e, depois, o início de funcionamento acelerado e ruidoso do motor.

Ainda, ao término de cada risada, vinha um movimento de cabeça, em forma de negação, que arrastava junto o corpo… O que era, segundo alguns, o característico balanço que acomete a locomotiva quando no arranque do motor. Quanto ao gesto em forma de negação em si, era pura aprovação, ao que lhe fizera dar a risada.

Pois é, a risada do maquinista Madruga, pelo menos completa, tinha duas partes. A primeira parte não se lhe arrancava. Era coisa espontânea; vinha de surpresa. Não fazia ela quando, por exemplo, ouvia uma piada; não adiantava insistir. Nesse caso, só fazia a segunda parte, por sinal a mais  usada, isoladamente; sempre fácil. A primeira parte – o quase grito – vinha sem aviso, quando o mesmo estava em silêncio e queria puxar algum assunto engraçado, alguma gozação, ou então, em ocasiões menos esperadas como o foi na sua apresentação na escala e, sempre nesses casos, a segunda parte vinha, inevitavelmente, acompanhando.

Todos gostavam de ouvir a risada completa do sujeito; todos gostavam de ouvir aquela verdadeira “partida de locomotiva”. Pena que nem sempre vinha completa, porque só ele “criava” a situação que “pedia” a primeira parte.

Não menos interessante no processo, era a recepção de Pedrada à escandalosa risada do compadre. Era Madruga lançar no ar a espontânea primeira parte da risada – aquele estalo do entrosamento dos pinhões dos motores de arranque contra a cremalheira dentada do volante do motor Diesel – e Pedrada, ao mesmo tempo, mesmo que estivesse ocupado com outra coisa, fitava de imediato o compadre, lhe arreganhando os dentes numa quase submissão, a esperar a narração do fato pretensamente engraçado ou engraçado de fato, que viria depois de concluída a segunda parte da risada – aquele momento em que o motor “pega” acelerado,  arrastando toda e qualquer parafernália agregada a si.

Sim, por uma dessas “coincidências inexplicáveis da vida”, tinham, ali, num grande núcleo ferroviário, um maquinista cuja gargalhada lembrava uma partida de locomotiva… ainda  que específico tipo de locomotiva.

 As locomotivas não são iguais. Há fabricantes específicos e, dentro de um mesmo fabricante há modelos diferentes. A risada do Madruga dizia respeito a um específico tipo de locomotiva – e não a todas… Diziam, entre os ferroviários dali, que a risada completa do maquinista Madruga era a versão humana do barulho do arranque de motor de uma SD40-2… ou, que a “partida” das SD40-2 era a versão “mecânica” da risada do maquinista Madruga.

Pois bem, apresentados à labuta a dupla, o plantão da noite passou-lhes o primeiro serviço pós-férias. Fariam um trem de gôndolas vazias; um trem para circular com destino a Mineriolândia. Tinha que ser “vapt-vupt”, pois o mesmo estava em regime de “tiro-direto” e já se aproximava do pátio local.

E, complementou o plantão, seguiriam viagem “empurrando motor”, de “capotão”… ao que ambos “torceram a cara” – “Começou bem!”, falou Madruga. Mas, fazia parte. Em Lauriano, como sabemos, tinham a estratégica oficina de manutenção, mas não havia meios de girar locomotivas, caso houvesse necessidade.

Quanto a Ananias, que já “comichava” de vontade de “pegar o trecho” não hesitou em acompanhá-los, mesmo ciente de que viajaria sem um banco para sentar-se e, tudo ainda, acentuado pela inconveniência do “capotão”. Nesse caso, não teria a cômoda visão à frente – a ideal.

Madruga e Pedrada passaram na “cantina terceirizada” e, cada qual, recebeu seu “kit lanche” (o “kit lanche” era fornecido a cada maquinista em pontos diversos da linha férrea sempre quando estes completassem, no mínimo, seis horas de viagem e, também, quando no início de uma jornada), depois entraram para um automóvel, para serem levados à Seção Dois, onde aguardariam abastecimento e partiriam em viagem. Ananias – que já conhecia toda a lógica da coisa – seguiu para a cabine da locomotiva liberada pela oficina e aguardou.  Ela seria levada da Seção Um para a Seção Dois pelos maquinistas da manobra, o que seria executado fazendo trânsito por uma linha exclusiva para aquela finalidade (a terceira linha entre as vias principais).

 Na Seção Dois, Madruga e Pedrada (um tanto quanto emburrados, sabendo que iam encarar um “capotão” até Mineriolândia) viam que já “tinham sinal” e aguardavam a locomotiva substituta – que já demorava um tempo pouco além do normal, para descer, para entrar para o trem…

Levando em conta que “cada trem é uma história”, o histórico daquele trem – que chegava para Madruga e Pedrada – era o seguinte: vinha normal (com locomotiva líder em “capotinha”, afinal passara pelo núcleo que Ananias apelidou de “cidade triângulo”), mas, no percurso, a locomotiva líder apresentara problemas e tivera que passar a trafegar “rebocada”, perdendo a posição de líder do trem…  E, então, para a posição de líder, puseram a segunda, que estava, também de “capotinha”. Porém, esta já teria que ser retirada em Lauriano, pra entrar para certa revisão programada inadiável. Como de “capotão” estavam a  terceira, a quarta, e a quinta unidade, o ideal seria a oficina ter, ao menos, uma locomotiva “boa” em “capotinha” (para aquele sentido de marcha do trem)… Mas, não  tinha. Todas as disponíveis (precisavam de duas) estavam em “capotão”, para o trem em questão.

Viajariam com cinco locomotivas “empurrando motor” e talvez até, pela complexidade da operação ferroviária, poderiam cruzar com um trem com cinco locomotivas em “formação elefante” (todas de “capotinha”), mas não poderiam, jamais, parar os trens e executar manobras extras, visando a “corrigir” tal fato (o “capotão”). Ele, por inerente à operação ferroviária, não poderia ser desfeito por simples querer. Tais manobras corretivas extras, porém, faziam parte do passado menos conturbado  (de menos “correria”) da ferrovia.

Desolados, porém conformados, aguardavam a locomotiva chegar para subirem a seus postos. Pedrada, de cabeça baixa, fitava uma estaca de marco de entre-via por entre a fumaça que seus cigarros faziam, enquanto ouvia alguma coisa de Madruga – este, sempre mais atento.

E o compadre interrompeu a conversa, mirou ao longe e lançou no ar aquela sua risada partida de locomotiva. Pedrada já o fitou em seguida e riu também, mesmo antes de conferir o motivo… afinal  já sabia o que, unicamente, poderia ser.

Sim, a locomotiva líder vinha de “capotinha”,  para o trem deles.

            A dupla era mesmo querida (serem sujeitos engraçados e politicamente corretos trazia-lhes vantagens). Os maquinistas da manobra, à boca da oficina, viram que, nos últimos instantes (antes de descerem logo com as primeiras locomotivas liberadas – que estavam todas de “capotão”), liberaram, noutra linha, uma locomotiva em “capotinha” (claro, em relação ao trem). Então, “fizeram das tripas coração” e conseguiram agilizar, preparando-a para entrar para aquele trem.

            Realizaram manobras extras, atrasaram uns minutos e, como nada passava despercebido, a estação e os supervisores de locomoção tiveram que fazer “vista grossa”… Mas, enfim, iriam aqueles maquinistas com visão ampla e conveniente à frente, graças à boa vontade extra dos colegas para com eles.

“Bateram” a locomotiva à frente do trem e saíram logo em viagem. Madruga saiu  em baixa rotação, bairros periféricos afora, buzinando muito, mas com jeitinho; poupando os ouvidos à frente. Pedrada, àquelas alturas, como de costume, já havia tirado as botinas e colocado um par de chinelos – ocasião que um talco perfumado sempre se fazia sentir. E já trouxera, também, o pé direito pra cima do banco, ficando com o joelho próximo ao rosto.  Havia uns calos pelas pontas dos dedos e ele os “refrescava”. De vez em quando, com a mão direita, alisava o pé ou tirava alguma sobrinha de calo. Com a mesma mão, segurava um cigarro aceso.

 

No último bairro da cidade, havia casas bem pobres e Madruga tirou mais ainda a velocidade do trem, quase parando. Em seguida, deu algumas buzinadas “combinadas” e piscou faróis. Então, mais à frente, num “corte” estreito de barranco à meia altura, surgiu o motivo de sua alteração na condução. Apareceram uns moleques e um deles tinha nas mãos um “bambu” – o qual já estendia para os lados do trem… A essas alturas, Pedrada já esticava o corpo pra fora da janela e, na sequência, lá se foram os  dois “kit-lanches” e mais alguma bolacha tirada de último momento por Madruga, de sua bolsa… Há tempos, ambos e mais outros, desenvolveram as “ferramentas” necessárias para aquela “transferência”. Ouvia-se das crianças: “Boa viagem!”, “Vão com Deus!”, enquanto algumas mães, ao fundo, nas varandas de folha de zinco, sorriam, acenando em agradecimentos tímidos.

 

Madruga elevou, aos poucos, a aceleração da tração de SD 40-2 (coincidiu-se de tê-las), que zumbiam pra valer, e o trem ganhou sua “velocidade de cruzeiro”, enquanto a noite total baixava devagar. Ananias observava-os e viu-os, cada qual, tirar de suas bolsas, as respectivas garrafas de café… Eram iguais; da mesma cor e tamanho. Ambos não ficavam sem o café; “um dedinho só que seja”, antes de cada cigarro.  Madruga, por conta da condução, deixou, como sempre, sua garrafa ao alcance, bem ao lado do pedestal do painel. Pouco depois, olhando à frente buscou-a mecanicamente e serviu-se de um gole… Degustou e mandou um palavrão ao compadre, que ria. O ordinário tinha como passatempo, às vezes, trocar as garrafas… E Madruga reconhecia logo o açúcar – que evitava – do café do outro. Pedrada explicava-lhe que queria que experimentasse um novo “pó de café” e ficava por aquilo. Não só o café, mas também o cigarro, não podiam faltar-lhes nas monótonas viagens.

 

Tinham mais medo de esquecer o café e os cigarros do que, por exemplo, medo de esquecer certa  temporal e burlesca (e cômica) “carteira de maquinista”.

 

Outra coisa que se coincidia de fazerem igualmente – Ananias observou – é que, logo ao início da viagem, colocaram seus protetores auriculares… no pescoço. Sim, ambos o tiraram o equipamento de suas bolsas – aqueles “abafadores” chamados “de concha” – e logo o levaram a laçar o pescoço e, decorridos já mais de uma hora de viagem, ainda não tinham, com eles, visitado suas orelhas (depois veria que os usava em momentos mais barulhentos).

 

E prosseguiam em seu “tiro direto” de vagões vazios, sempre com os trens lotados de minério aguardando cruzamento nos pátios. Ananias viu que não conversavam muito, talvez porque aquela “SD” parecia “zoar” mais alto que suas congêneres; estavam livres, porém, das “pancadas bilaterais” das U23, pois a “SD” estava macia nas retas e nas curvas… e olha que a velocidade às vezes rolava lá pelo “sessentão”, naquela linha por vezes sinuosa, porém, sempre robusta.

 

Vilarejos, ao longe, eram separados por porções rurais. De um vilarejo ao outro, o tempo médio era de quase uma hora. Os intervalos eram de uma escuridão total, sem nenhum “ponto de luz”… Seguiam, numa noite nublada, mas com pontos celestes limpos, em que se viam bem as estrelas.

 

Ananias passou a observar que Madruga, vez por outra, “benzia o corpo”. Benzia-se de um jeito meio preguiçoso, às vezes incompleto. Fazia-o, ainda que sem regularidade. Fazia o sinal da cruz com a mão direita fechada e, ao terminar, levava-a a altura da boca, beijando-a – enquanto a mão esquerda ocupava-se entre as alavancas de freios e acelerador. Da mão fechada, revelou-se uma santinha, a qual, sempre após benzer-se, punha-a fixada ao painel de controle – no único ponto em que, no início da viagem, limpara com capricho. Conduzia sempre de olhos atentos aos sinais do CTC. Pedrada, também, pois – sempre alisando os pés – falava ao colega ao avistar os sinais: “Verde!” – ao que Madruga devolvia-lhe a mesma afirmação.

 

O trem seguia num “risco só”, ignorando as caixas d’água do passado e as antigas estações que compunham os pontos estratégicos de outrora. Algumas ficavam próximas ainda do leito da via e, outras, afastadas, em razão da “ampliação” de curvas e melhorias no traçado da linha. Todas estavam abandonadas e em ruínas; pareciam, agora, servir de morada a fantasmas.

 

Numa passagem de nível rural, Madruga, após buzinar, desgrudou, de novo, sua santinha do painel e, ocultando-a na mão, “benzeu o corpo”. Ananias finalmente entendeu o que acontecia. É que, a exemplo do que ocorre nas rodovias, também por aquela linha de trem afora, em certos pontos, havia cruzes, sempre fixadas ao chão em pequenas alvenarias, formando um pequeno cruzeiro – às vezes, eram duas cruzes juntas. Algumas daquelas “dedicatórias” eram tão antigas quanto a própria estrada-de-ferro. Foram colocadas, em decorrência a acidentes com morte. Desde acidentes quando na construção da linha, por atropelamentos de comboios (antigos ou recentes), acidentes ferroviários fatais com maquinistas ou, até, casos de corpos achados sem vida por aquele caminho… Em respeito, jamais alguém ousou remover tais cruzes. Havia cruzes esquecidas e havia cruzes “pintadas de novas”.

 

Ao passarem pelo “calabouço da pedra”, Ananias observou que, no local em que seu carro caíra sobre os trilhos, já haviam afixado, também, uma cruz – para ele…  Havia certo capricho, como a colocação de uma cerca baixa em derredor. Madruga, que já sabia da presença dela, benzeu o corpo.  Aplicou, dessa feita, três beijos na sua santinha de fé… Naquele momento, os rodeiros das SD40-2, em freio dinâmico, arrancavam silvados longos dos trilhos, por entre os cortes altos, enquanto na rodovia, que trançava ali por cima, os caminhões e carros faziam sua parte do barulho.

 

Mais à frente, em plena área rural, sem “ponto de luz” algum, a mais que meio caminho de Mineriolândia e já beirando onze da noite, surge um inconveniente no trem. A pressão de ar comprimido dos “sistemas” caiu e os freios começaram a prender as rodas… É que um vazamento de ar comprimido do sistema de freios surgira em algum ponto do trem, entre aqueles mais de cento e cinquenta vagões que levavam – fato raro, e notado imediatamente pelos dois. Um vazamento de ar no sistema de freios, por mínimo que seja, passa a fazer indesejáveis aplicações de freio nos vagões e precisa ser corrigido.

 

Tinham que ir corrigir; tinham que sair do conforto da cabine e caminhar, na escuridão da noite, pelas beiradas nem sempre limpas da linha.

 

Sendo assim, o negócio era torcer para que o vazamento de ar comprimido não estivesse muito para o final do trem. Prepararam-se para a caminhada. Pedrada voltou os pés pra dentro da botina e Madruga imobilizou o trem de vez. A linha, por ali, era em terreno plano e facilitava os procedimentos necessários. Antes de saírem, e sem comentar o ocorrido (sabiam o que fazer), cada um foi à sua garrafa de café… e depois um cigarro. Ato contínuo, cada qual retirou do pescoço seu protetor auricular, que foram lançados por sobre as bolsas. Foram também às suas lanternas. A de Madruga com “mau contato”; parecia ter apenas um fósforo aceso a alumiar. A de Pedrada recebera pilhas novinhas ali mesmo; estava “um farol”.

 

Desceram da locomotiva com cuidado extremo, afinal, nem um nem outro queria se acidentar e ver seu nome figurar por semanas a fio no quadro “Aene” (de “Acidente Não”)… Ananias resolveu ir junto; seguia-os,  a uns cinco metros de distância deles.

 

Pedrada ia à frente e, assim, alumiava também para Madruga. Por sua vez, o compadre da risada de “partida de locomotiva” ia dando pancadas leves em sua teimosa lanterna. E foram, andando em fila indiana e com cuidado, pelo estreito caminho deixado entre os vagões e, às vezes, porções de barranco. Não havia como andar lado a lado ali, a não ser que um fosse caminhando sobre as pedras da linha – não dava.

 

Torciam para que aparecesse logo o ponto de vazamento de ar comprimido. Uma caminhada noturna mato afora, mesmo que à beirada da linha, expõe a alguns perigos.

 

Iam se distanciando das locomotivas e o barulho delas ia diminuindo, sumindo aos poucos dos ouvidos… A segura cabine do tanque (tanque de guerra) ia ficando pra trás. Para compensar o “desconforto”, falavam cada vez mais alto e, talvez sem perceber, já caminhavam bem mais rápido. A certa altura, já não mais ouviam os motores e aguardavam ansiosamente pelo barulho de ar fluindo no ponto de ruptura… Era, então, “espaço” para surgirem outros barulhos; Passaram a ouvir água corrente. Um riacho estava próximo… E, não demorou e deram de cara com um pontilhão; um pontilhão pequeno – sobre um córrego. Ele tinha, no máximo, uns quatro metros de extensão, mas foi o bastante pra causar furor – não havia como passar para o outro lado com o trem sobre ele.

 

Detiveram-se, cessando o falatório, e olhavam a obra de arte como se nunca a tivessem visto antes… Na verdade, em relação à via férrea, quando na locomotiva em movimento, tudo (os barrancos, as cruzes, os aterros, as edificações, as obras de arte) parece ter uma dimensão diferente e, com o trem parado e fora da locomotiva, tem-se que, a tudo, localizar de outra maneira – não esperavam pelo pontilhão, muito menos contavam que não haveria como passar por sobre ele.

 

Ficaram uns segundos em silêncio, ouvindo as águas do córrego; estavam como a não acreditar na situação. Depois, conformados com a trabalheira que aquilo lhes daria, começaram um festival de palavrões dedicados em desabafo aos “responsáveis por aquilo”: “Como pode?” – falou Pedrada –  “o ‘filho da p***’ que fez isso, o fez considerando que os trens nunca parariam sobre ele! Como vamos passar pro outro lado, compadre”?

 

O compadre balançava, negativamente, a cabeça e batia na lanterna. O pontilhão, por sua vez, era à conta da largura do vagão; O que sobrava de fora dos trilhos e rodas eram as pontas dos dormentes (a única passagem), espaçados ali em um palmo de distância um do outro.  Quisessem passar pro outro lado, – e tinham que fazê-lo – teriam que passar “andando de quatro” ou, então, de joelho, sobre os dormentes… e, nesse caso, por debaixo da estrutura do vagão. Ou poderiam passar por cima (ou dentro) dos vagões. Mas, descartaram, pois eram vagões de fundo afunilado. Pensaram, também, e descartaram logo, ir se molhar na água do córrego… E tinham que ir. “Vamos lá” – falou Madruga – “Essa parada é nossa, e, se machucar, ‘quadro Aene’ no lombo… ‘fiiilha das p***!’”.

 

Então, atirou a guimba do cigarro no córrego e se lançou à empreitada. Foi; meio esticado, meio de quatro, sob o vagão, hora se apoiando nos joelhos. Quando chegou do outro lado, bateu a poeira esbravejando: “Sacanas”… “filha das P***!”.

 

Em seguida, veio Pedrada, gemendo, e Madruga passou foi a rir à vontade, de ver a peleja do compadre.

 

Passaram e continuaram. Faltavam ainda uns trinta vagões para o final do trem e, após sumir o barulho da correnteza da água, começaram a ouvir, enfim, o barulho de ar comprimido fluindo. Deram sorte, pois o vazamento se dava no acoplamento metálico entre mangueiras e não exigiu ferramentas – que não traziam. Ajeitaram a “boquilha de borracha”, eliminando o vazamento de ar e puseram-se de volta às locomotivas do trem.

 

Com o problema sanado, o ar comprimido dos sistemas voltava à pressão normal e, cada vagão, passou a soltar seu freio. Os freios se soltavam e liberavam os vagões, que haviam parado de forma “esticada”… Eles, então, se deslocavam, se debatiam e se acomodavam, enquanto cada “válvula de alívio” expulsava o ar que fora gasto na frenagem.. Aquela movimentação provocava, até nos dois ferroviários – acostumados aos trens – a péssima impressão de que seu comboio iria se deslocar de vez dali e, cada qual, curtiu o medo sem comentário, poupando, assim, o outro.

 

Na volta passaram sem xingamentos pelo pontilhão – por sinal, faziam um retorno extremamente silencioso, no exato contrário da vinda. Após o pontilhão, o caminho era livre até as locomotivas. Madruga, que ficou de vez sem sua lanterna, acendia, a cada dez passos, um palito de fósforo… Sempre que o fazia, aproveitava para conferir as horas no relógio de pulso – e via, sem comentar com o outro, que se aproximava da “meia noite”. Pedrada seguia clareando a acidentada trilha; Caminhava em silencio e com perceptível determinação… Quanto ao “fantasma” Ananias, estava-lhes no encalço, de perto. E eles andavam a médio passo e, aos poucos, já se começava a ouvir, ao longe, o confortável barulho dos motores das locomotivas.

 

Pedrada mantinha firme o facho da lanterna à frente, apesar de, às vezes, pisar nalguma pedra de lastro solta… Umas três ou mais vezes, chegou a se desequilibrar e interromper os passos. Era momento que tomava uma “peitada” de Madruga. Nessas ocasiões, se enrolavam em modo trôpego, o que fazia com que o facho da lanterna tomasse rumos indefinidos, hora clareando os vagões, hora clareando o barranco.

 

Na verdade, Pedrada evitava que o facho da lanterna fosse para o barranco. Mas sempre que ia, era acompanhado por certo olhar receoso de ambos. Foi que, numa dessas involuntárias paradas trôpegas, deu-se o que já pareciam contar: o facho da lanterna encontrou uma cruz… Era uma cruz relativamente grande, com pedras em derredor, que um dia foram tingidas  de branco; uma cruz já tão esquecida que trazia enferrujada por demais a parte em metal.

 

O conhecido e respeitado formato da cruz foi projetado e ampliando de maneira trêmula no barranco, que lhe serviu de tela… Então, por apenas fração de segundos miraram-na, com o ar preso e sem nada falar. Depois, ato contínuo (nem sequer se entreolharam), saíram  em descomedida disparada.

 

Deram, ao mesmo tempo, espetacular arrancada em direção às locomotivas; em direção à proteção do “tanque”. Espetacular arrancada com ritmo significativo, considerando-se o condicionamento físico e idade de ambos… E, que quadro “Aene” que nada. Corriam, e não mais em fila indiana, mas, por incrível que possa parecer, corriam lado a lado – no estreito caminho.

 

Nesse deslocamento lado a lado, Madruga, beneficiado pelo próprio peso, conseguia manter-se na trilha estreita. Pedrada desenvolvia-se por sobre as pedras da linha que, barulhentas, batiam e faiscavam. O magrelo corria, inacreditavelmente com o corpo transverso, pra não se chocar com a lateral dos vagões; Tentava ultrapassar o compadre, mas não conseguia… E corriam num caminho totalmente escuro, uma vez que o facho da lanterna de Pedrada já apenas riscava a noite em infinitos zigue-zagues. Ananias correu junto, e o que viu a seguir, não acreditou.

 

Os dois compadres chegaram juntos ao primeiro lance de degraus da escada da locomotiva e subiram-na a um só tempo… Subiram, lado a lado, até alcançar a “capotinha” da locomotiva… Pela estreita porta da cabine não passariam juntos mesmo e, então, sorte que, pela obrigatoriedade de haver mudança no sentido do deslocamento – em que vinham – o magricela se beneficiou e pulou primeiro, feito um guepardo, para dentro da proteção do “tanque”.

 

Entraram e tomaram seus assentos, cada qual com o olhar fixo à frente. Estavam esbaforidos, mas não havia, por assim dizer, “tremedeira” explícita, e não comentaram nada do ocorrido. Pedrada passou a bater as botinas com um pano, e Madruga tirou, depressa, a santinha do painel, fechando-a na mão direita e benzendo-se rápido. Fazia, então, círculos à frente do peito; interrompidos, apenas, para beijocas rápidas… e, com a mão esquerda operava os comandos para por o trem em marcha – tinha pressa… Ah, sim, e ambos voltaram os respectivos protetores auriculares ao pescoço.

 

Ananias, que os reparava, aguardou algum comentário, alguma observação, de um ou de outro, sobre o ocorrido… E nada. Não discorreram sobre. Permitiram-se sim, com o trem já rodando, café e cigarro. E, assim foram; em silêncio absoluto.

 

E o trem seguia. O farol clareava barranco daqui, barranco dali; buscava,  no mato, sempre os mesmos cupins e os mesmos moirões de cerca. E faziam as subidas, faziam as descidas, faziam os níveis… Saía a  algazarra dos grupos-geradores em “carga plena” e, pouco depois, estava gemendo em freio dinâmico e, enfim, debaixo de chuviscos esporádicos que passaram a surgir, chegaram a Mineriolândia, antes do amanhecer.

 

Na estação, o trem foi assumido pelo pessoal da manobra local e a dupla foi para o alojamento descansar, para outra provável “noitada”.

 

Ananias, sempre no intuito de conhecer os temas ferroviários, esperou pacientemente as manobras que se deram (para retirar relativo excesso de vagões) e, depois, continuou no mesmo trem, para percorrer o “ramal das carregadeiras” e se dirigir à linha-pera de carregamento – de minério. Na volta, pela hora do almoço, estava de volta e foi para o armazém da estação. Sua intenção era dormir e ali era um local sossegado. Quando acomodou-se,  uma das locomotivas da manobra entrou em funcionamento, ali por perto… Seu barulho caiu como uma canção de ninar.

 

À tardinha acordou e foi para a agência da estação. Era um ambiente bastante prático e limpo. Por lá estavam uns três agentes em serviço; trabalhavam muito organizadamente. Os outros ferroviários em serviço estavam pelas linhas, locomotivas e demais instalações locais.

 

Ananias lamentou ter dormido tanto. Poderia ter ido ver de perto a curiosa “estação velha” – de Mineriolândia… Ela ficava afastada da estação nova, já “saindo” do pátio. Ficou de vê-la outra hora, mais à frente, afinal, a visita poderia demandar tempo. Enquanto a noite não chegava, foi tentar entender um pouco do pátio local.

 

E, pois bem, Ananias, enfim, conhecia Mineriolândia – que era apelido de uma cidade dentro daquele específico meio ferroviário.

CONTINUA

 

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