No corte da Navalha: Aos 78 anos, o Barbeiro Jaques é exemplo de vida e profissionalismo

Publicado em 04/12/2015
A porta do Salão Jaques aberta em 1967 - foi fechada poucas vezes para um descanso.Foto: Karina Mascarenhas

A pequena Praça Dona Josefina, próximo ao Colégio de Nossa Senhora de Lourdes , no Centro da cidade de Lavras, já não é a mesma de 41 anos atrás. Não havia arvores, nem muitos carros, quando uma porta ao lado esquerdo  foi aberta com uma placa escrita: “Salão Jaques”. A antiga barbearia mantêm  ainda as cadeiras giratórias pesadas e rústicas, além dos utensílios que acompanham o proprietário anos a fio.

 

Os instrumentos antigos ainda são encontrados no salão. A nota fiscal da máquina de cortar cabelo data de 1957. Foto: Karina Mascarenhas

Os instrumentos antigos ainda são encontrados no salão. A nota fiscal da máquina de cortar cabelo data de 1957.     Foto: Karina Mascarenhas

 

O local escolhido no coração da cidade, foi alugado por João Jaques Valaci, um dos mais antigos barbeiros da cidade. “ Barbeiro”, o termo simplificado segundo o dicionário Aurélio “ indivíduo que barbeia por profissão”, foi o sustento da família. Com ele, Jaques  sustentou a esposa  Aurélia Aparecida de Carvalho,  com quem é casado há 54 anos . Do casamento vieram três filhos (Helder, Lúcia e Núbia), sete netos e três bisnetos. Sobre a longevidade da união, o segredo: “ Respeito” enfatiza Jaques, que faz questão de dizer que ela é quem cuida de tudo na casa.

Cabelos e barbas muito bem cuidados, calça e sapatos sociais e camisa branca, com simplicidade e educação, ele cumprimenta quem chega. No dia da entrevista, uma obra no andar de cima atrapalhava o atendimento.  “Tá muito barulho aqui… eu até fui lá para a pracinha”, fala como se  já  me conhecesse há anos.

Jaques que nasceu e foi criado na Zona Rural de Ijaci, cidade ao lado, estudou pouco. Sua mãe: Maria custódia de Oliveira, morreu nova e seu pai: Antonio Valaci de Oliveira, casou-se novamente. Dos 10 irmãos, ele foi o único que se tornou barbeiro.

Mais de 50 anos de Profissão. Jaques é um exemplo a ser seguido. Foto: Karina Mascarenhas

Mais de 50 anos de Profissão. Jaques é um exemplo a ser seguido.     Foto: Karina Mascarenhas

 

Em 1967, aos 25 anos já casado e com os três filhos pequenos,  resolveu tentar a sorte na cidade, com a prática que já exercia na roça sem ninguém ter ensinado. O filho Helder Valaci revela um detalhe: “ele aprendeu a aparar  crinas de cavalo com máquinas de cortar cabelos, depois praticava nos amigos e parentes no quintal de casa ” . A experiência lhe rendeu a profissão de Barbeiro:  “não tinha luz, não tinha nada, só coloquei uma cadeirinha e fui fazendo, depois vim pra Lavras”, conta Jaques.

Iniciou seus trabalhos no salão do “Pranche”, trabalhou também com João Barbeiro, Paulinho Barbeiro  até que montou a própria clientela que o acompanha alguns há mais de quatro décadas.

O aposentado Jurandy Siqueira, 70 anos,  ainda se lembra de quando começou a cortar cabelo e fazer a barba com Jacques. “ Eu tinha entre 15 e 20 anos, ele ainda trabalhava com o Pranche quando comecei a cortar o cabelo com ele, o salão era perto do banco onde eu trabalhava.” Os anos se transformaram em amizade  e respeito: “ Ele é uma pessoa excelente e educada, se não fosse não estaria  há tanto tempo nesta profissão.” Jurandy ainda visita o amigo a cada 30 dias para renovar o corte: “ Quando jovem  eu fazia também a barba, mas agora só corto o cabelo.”

A barba que antes era feita na navalha agora é só na gilete. Jaques comemora dizendo que a mudança foi até mais adequado “ Descartável é melhor né? Você  pega uma gilete, usa e joga fora, a navalha não!Tinha que afiar, amolar, dava muito trabalho.”

"No corte da Navalha". Foto: Karina Mascarenhas

“No corte da Navalha”. Foto: Karina Mascarenhas

 

A única coisa que lamenta é não conhecer mais os moradores ilustres da cidade: “A cidade era pequena eu conhecia todo mundo, como a barbearia era perto do fórum, eu conhecia os advogados,  juiz,  promotor , hoje são muitos.”

Sobre os papos no salão, ele se recorda dos tempos do bom desempenho do futebol na cidade “Ah o Olímpica e Fabril fazem  falta.”

Quanto à concorrência dos salões modernos Jaques demonstra sua  humildade: “É outro tipo de serviço, o barbeiro cobra um preço e cabeleireiro outro, o estilo de corte é diferente, eles tem mais recursos. Não atrapalha ninguém.”

As férias ao longo desses 48 anos foram poucas , apenas algumas idas à praia ou uma semana para passear com a família “O  barbeiro é difícil sair, se eu ficar uma semana, quando eu chego, já tem reclamação”. Segundo ele,  ainda tem muitos fregueses que só fazem barba no salão, mesmo com os aparelhos modernos da atualidade, daí o motivo das reclamações dos clientes.

O filho agora segue os passos do pai na Barbearia. Foto: Karina Mascarenhas

O filho agora segue os passos do pai na Barbearia. Foto: Karina Mascarenhas

 

Aos 50 anos, Helder, o filho mais velho resolveu seguir os passos do pai, o que tranqüiliza Sr. Jaques “Agora com meu filho aqui estou mais sossegado, salão fechado é ruim.”

Ainda  jovem Helder viveu a primeira experiência no salão: cortou os cabelos do próprio pai e de mais uns dois amigos. Mas, foi bem depois dos quarenta anos que resolveu pensar sério em ser Barbeiro. Fez um curso intensivo em Belo Horizonte, apenas de corte masculino. “Gostei da experiência e vim para o salão. Cada cabelo é uma novidade. É um corte diferente, um assunto diferente. No salão ‘nós resolvemos’ boa parte dos problemas brasileiros. Estou me sentindo muito bem aqui com meu pai.”

As irmãs Lúcia e Núbia com orgulho complementam: “Nosso pai é para nós uma referência de amor ao trabalho e à família. Um homem de um coração enorme e generoso. Sempre nos educou com poucas palavras e muito exemplo. O caráter foi sempre manifestado nas ações. Quando precisava ele dava seu recado, o que era sempre reforçado pela nossa mãe.”

Todo orgulhoso Sr. Jaques  fica quando fala da família e sobre a vida: “Valeu muito a pena, criei meus filhos tudo dentro do salão”, e apontando o dedo para o céu, ele  agradece à Deus pelos anos vividos. “Se não fosse Ele, eu não conseguiria nada do que eu tenho.”

Por Karina Mascarenhas

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