Lavras 24 Horas passa publicar livro “Um Fantasma no Trem” em partes

03/01/2019

Lavras 24 Horas passa publicar livro “Um Fantasma no Trem” em partes

Um romance de 440 páginas com abordagens ao mesmo tempo apaixonadas e objetivas. Com humor nas análises críticas e alegoria onde há termos técnicos.

Uma história onde você: se sentirá o (a) maquinista de locomotiva e compreenderá seu funcionamento. Passará por lindas paisagens, por túneis tenebrosos e ainda embarcará num trem desgovernado. Verá que nem sempre românticas foram a “Maria-Fumaça” e que as Diesel-elétricas podem ser enigmáticas.

Visitará estações exóticas e oficinas extravagantes. Acompanhará a despedida de nossos queridos trens de passageiros. Esse é o enredo do romance “Um Fantasma no Trem”, de autoria de Carlos Antonio Pinto, que o Portal Lavras 24 Horas passa a publicar em partes semanalmente a partir de hoje (3).

Membro da cadeira número 5 da Academia Lavrense de Letras, cujo patrono é o escritor carioca Lima Barreto (1881-1922), Carlos Antonio Pinto, 55 anos, conhece bem esse universo, visto que é maquinista aposentado.  Ele trabalhou por 26 anos na Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e Ferrovia Centro-Atlântica (FCA).  Leia a seguir a parte 1: 

Capítulo 1

O fantasma embarca no trem

            Por sobre uma dessas rodovias assentadas em relevo montanhoso, pairava típica manhã de verão – de céu limpo, após noite chuvosa – quando um automóvel rodopiou em sua tortuosa pista de rolamento.

            Descontrolado, o veículo alcançou e transpassou a vegetação lateral da pista, indo se precipitar em um despenhadeiro. Em queda livre, pegou pontas de pedras pelo caminho, as quais o fizeram rodopiar em pleno ar, até que se estatelou nos trilhos da estrada de ferro, que estava aos fundos do local.  Quem – na rodovia – a tudo viu, disse que não houvera motivos aparentes para o infortúnio; Que o automóvel era novo e trafegava estável; que sua velocidade não era das mais altas. Viu-se, ainda, que suas rodas chegaram a se arrastar freadas, o que afastava a hipótese de mal súbito ao volante, ou coisa assim.

Como se não bastasse, lá no fundo do despenhadeiro – que, afinal, era “caminho” do trem – um cargueiro se aproximava do automóvel acidentado. O comboio ferroviário vinha com a certeza do caminho livre e anunciava eminente ocupação de espaço – de seu espaço.

Naquele local, a linha férrea, sinuosa e em rampa íngreme, estava estendida dentro de altos e caprichosos cortes feitos na rocha, e aquilo ampliava o rugido mecânico das possantes locomotivas, chamadas Diesel-elétricas. Elas estavam agrupadas à frente de mais de uma centena de vagões carregados com minério de ferro e seus motores estavam num estrondo de potência plena, onde turbinas assoviavam em meio a um lamuriento gemido elétrico. Do topo das brutas máquinas, surgiam labaredas cadenciadas e uma fumaceira preta que ia grudar na vegetação ainda molhada pela chuva da madrugada. Os vagões do comboio não vinham menos barulhentos, pois suas rodas, cada qual por si, arrancavam longos silvos dos lustrados trilhos… Poder-se-ia dizer que tal processo vinha produzindo o “barulho do fim do mundo”.

No entanto, o trem parou – milagrosamente, diria um leigo – antes de colidir com o entulho que antes fora um automóvel. O fato é que, para que se interrompa o trabalho de esforço de tração de locomotivas, é necessário – ao maquinista – apenas  “tirar” a rotação de seus motores… Tal medida faz diminuir ou interromper a produção de corrente elétrica para tração que se dá nos imensos geradores/alternadores que as compõem e, dessa forma, remove-se a estupenda força tratora de suas rodas que, então, deixam de “brigar” contra a força da gravidade. Assim, o trem, que é sempre “uma montanha de peso” sobre rodas, perde seu ímpeto de movimento à frente e precisará – aí sim – receber, de imediato, a ação de todos os freios de fricção… Ou, do contrário, deslanchará de recuo.

“O carro ‘impediu’ a linha”, concluiu, por um rádio transceptor/receptor, um assustado maquinista. A comunicação fora feita ao Centro de Controle Operacional (CCO) de sua ferrovia… Eram sete da manhã, e o sono que sentia o ferroviário, em razão da jornada noturna na condução do trem, foi como que removido com as mãos.

O maquinista estava solitário ao comando e vigilância do comboio (naquela ferrovia, vanguardista superintendência da estatal REFESA, uma parcela dos trens trafegava em monocondução, ou seja, sem a figura do auxiliar de maquinista – o foguista de outrora). Nalguma coisa entre decidido e receoso, desceu da locomotiva e foi vistoriar aquele “obstáculo” à frente de seu trem… Estava o automóvel esborrachado com as rodas mesmo para baixo, sobre a via férrea. Ficara preso àquela robusta grade de trilhos e dormentes, que trazia disposição imponente, formando a chamada bitola larga.

O ferroviário procurou ver, com o “canto dos olhos”, o interior do automóvel. Viu seu único ocupante. Estava sucumbido, preso ainda ao cinto de segurança; Tomou-lhe o pulso e constatou que nada podia fazer por aquele “grisalho”, que aparentava uns cinquenta anos de idade.  Tranquilizou-se, uma vez que já havia feito comunicações preliminares ao CCO da ferrovia, enquanto imobilizara seu trem com segurança.

Pela placa do automóvel viu que o sujeito andava bastante longe de casa; Revistou em volta e deteve-se num vidro que se soltara. Nele estava um adesivo com a estampa de alegre figura de um trenzinho com olhos e braços… E estava escrito: “Vá de trem” e “Movimento pela continuidade do trem de passageiros”.

Também viu fotografias de partes de locomotivas junto a papéis escritos, tudo agrupado como num livro que já se desfolha. Tais papéis pareciam ter escapado de uma bolsa, que estava entreaberta, misturada aos tapetes, então lançados para cima dos bancos. E, ainda, estava lançada às pedras britadas da linha férrea, uma “réplica” de locomotiva. Tal “réplica”, um souvenir em “enfeite de estante”, era vendida pelas beiradas da rodovia local; Tinha quase meio metro e era feita de madeira com detalhes em lata. Era uma miniatura de locomotiva com as cores e características mesmas daquelas que estavam ali, à frente do trem.

Ao maquinista o “conjunto da obra” já fazia compreender logo: o sujeito fora, em vida, um “maluco por trem” – “malucos por trem” são aquelas criaturas que beiram as estações e pátios ferroviários a olhar feitos bobos para as locomotivas, e passam a fazer perguntas sobre elas numa primeira chance. Certamente, analisou com precisão o ferroviário, o trem que vinha conduzindo houvera de ter-lhe tirado a atenção sobre a sinuosa rodovia a qual vinha conduzindo seu automóvel… Rodovia que estava ali, ao alto da linha férrea.

E, de fato, era esse o quadro. O resultante da perigosa combinação entre volante de automóvel e o indivíduo que fica hipnotizado pela ferrovia.

Por sua vez, os trens de ferro e as instalações necessárias ao seu deslocamento já possuem, mesmo, certa magia. Irradiam, comumente, forte atração.

E se rodovia e ferrovia estão juntas no terreno montanhoso, então o perigo se acentua.

A ferrovia ali parece mesmo é brincar à vista de quem segue veloz pela rodovia. Ora, às vezes ela se aproxima; às vezes se afasta… Ora com arcos curtos; ora com arcos longos. Aparece do nada e, sem explicação alguma, desaparece… Bem como pode, “misteriosamente”, até mudar de lado.

E é nesses relances que se dá de cara com os trens, sejam parados ou em movimento; É aí que se depara, sem esperar, com a justificada fumaceira negra arrastada pelas locomotivas; é onde, de supetão, avistam-se os sinistros sinais luminosos de controle de tráfego e as placas suspensas com seus dizeres indecifráveis. É ainda, onde, de maneira abrupta, apresentam-se – ao “hipnotizado” – as imponentes obras de arte e os exóticos prédios úteis à estrada feita de aço.

            Voltando ao maquinista, já iniciava um Pai Nosso quando viu que vinham pessoas pelos trilhos, em “socorro”.

Quem, no entanto, levou mais tempo para compreender os fatos, foi aquele que se precipitou com o automóvel… Ou melhor, a alma daquele que se precipitou com o automóvel – alma que, após breve período de letargia, despertou e deixou o corpo.

Seu nome era Ananias e fora bancário. A princípio, pareceu que estaria acordando de uma noite precedida de embriaguês e procurava entender o porquê de ter dormido ali, naquele local. Pegou-se sentado sobre uma pedra grande, arredondada e bem lavada pelas chuvas; Uma pedra que se destoava de outras ali. Mas foi a via férrea que, de imediato, entreteve-o e não deixou que se concentrasse naquela movimentação de pessoas em torno de um carro achatado sobre ela.

A conhecida grade de trilhos o agradava. Era mais convidativo a ele olhar os trilhos que reparar o tumulto e o carro acidentado. Tudo piorou quando viu que retiravam um corpo do interior do automóvel; Passou a torcer para estar sonhando e fechou os olhos. Esforçava-se, não sabia se para dormir ou acordar… Mas abria os olhos e tudo continuava. Ouvia as vozes, ao longe, em segundo plano; Em primeiro, ouvia as gigantescas locomotivas em seu espalhafatoso funcionamento. Um barulho que tanto amava. Aquilo o agradava e, de certa forma, já o ajudava a se distrair. Contemplou-as por breves instantes, para, em seguida, voltar-se ao carro acidentado, que tão bem conhecia, e ao movimento em volta dele. As coisas se apresentavam cada vez de maneira mais nítida… e, então, entrou em pânico.

Correu para as pessoas. Tentava falar-lhes. Gesticulava, mas não o atendiam. Olhava o carro, voltava-se para as locomotivas. Começou a lembrar.

Estava longe de casa e dirigia pela primeira vez por certa estrada, considerada perigosa. E ali, mais uma vez, não conseguira vencer a euforia que sentia quando avistava um comboio ferroviário. Não conseguira evitar o momento a mais de visão que sempre procurava ter dos trens, das linhas acobertadas pelos barrancos, da estação ao longe, de um simples pontilhão seco. Então, naquela manhã, o descuido lhe trouxera um descontrole ao volante e uma posterior horrível sensação de ausência de chão… Depois veio um estrondo, com o qual já parecia contar.

E lembrava-se não só do acontecimento recente como, também, de ocasiões anteriores; Lembrava-se (não passaria sem se lembrar) da mulher. Ela sempre o admoestava por causa da fissura pelos trens e estradas de ferro; sempre dizia que não mais iria viajar de carro com ele por onde houvesse uma “linha de trem”… E, se a tudo via, entendendo por demasiado “tarde demais”, ao menos não sentia o desconforto de a outros ter trazido para aquela desfortuna.

E Ananias via o carro esborrachado, o corpo coberto, as pessoas que não o atendiam, o trem parado… E seu pânico aumentou. Corria para um lado e para o outro; corria para uns e para outros. Tentava balançá-los, tocá-los, mas era o mesmo que nada; Gritava e não ouvia a própria voz.

Olhou de novo para as pretejadas locomotivas, tão queridas e desejadas; Não queria que desaparecessem. Correu para elas; Subia, inconclusamente, as escadas. Descia… Foi de novo às pessoas; Já “agredia”. Nada. De novo às locomotivas… Subiu. Desta vez devagar. Sentia o tremor, o funcionamento do motor delas, que parecia dar-lhe espécie de boas vindas. Sossegou-se um pouco. Da locomotiva viu quando um guincho levou o carro. Viu levarem o corpo. Viu que era ele – ou dele… Certificou-se, enfim, que era o certeiro pivô daquela movimentação. Um rebuliço que já se desfazia.

Também viu que o maquinista vinha caminhando para o trem. Afoito, queria sentir o movimento do trem, queria ver a paisagem se modificar.

Entendeu logo a situação como irreversível e tinha já consciência de que não estava “vivo da maneira normal”… No entanto, via a tudo com as conhecidas cores, ouvia os conhecidos sons e, principalmente, podia tomar decisões; podia decidir entre ir ou ficar – e isso o confortava muito.

Decidiu-se por ficar no trem. Entregou-se ao que lhe dava ânimo. Rendeu-se ao que, certamente, se descortinaria de magnífico à frente… no  caminho de ferro do trem.

Era, desde muito, um fanático, um admirador, um “maluco por trem”.  Naquele momento, estava em situação que sempre desejara. Estava dentro da locomotiva de um trem e ninguém o via e nem o vigiava; nem solicitava para que saísse… como lhe ocorrera algumas vezes. E, ainda, nada precisava pedir ao maquinista – que já subia para a cabine.

Tinha a locomotiva para si e ela tinha uma esplendorosa linha à frente, para se deslocar. Aquela expectativa o fazia temer menos por sua situação. O medo que já passava a sentir era o de não estar presente quando o trem se movimentasse; Medo de não ver onde ia dar a linha; medo de não ter o privilégio de contemplar a paisagem depois da curva. O que mais já lhe interessava era ver surgir à frente do trem uma estação, a próxima estação… Estava ainda assustado, porém “maravilhado”.

Inquietava-se, porém, com o “privilégio”. Tentava lembrar-se se pedira aquilo a Deus… Seria um “extra”, uma chance dada por Ele, para que curtisse o que mais amara em vida? Possível sim, porque acreditava piamente no dizer bíblico “a Deus tudo é possível”.

Enquanto pensava, observava o maquinista, que iniciava o processo, por vezes complicado, de arrancar em rampa forte… Ao serem movimentadas alavancas no painel, desencadearam-se ruídos de ar comprimido fluindo. Nisso é que os freios foram “aliviados”, deixando livre cada roda, de cada vagão de carga. Ao mesmo tempo, as locomotivas, que estavam em número de cinco, em “tração”, foram recebendo, comandadas pela primeira, aceleração em seus motores Diesel. Sendo assim, os mais de cento e trinta vagões daquele trem, contendo, cada um, mais de noventa toneladas de minério de ferro, lentamente começaram a se movimentar, obedecendo ao esforço trator das locomotivas em vencer a força da gravidade.

O comboio foi, aos poucos, ganhando velocidade morro acima. Ananias olhava para o maquinista. Supondo que estivesse sendo enxergado por ele, levantou-se e fez gestos… Nada! Voltou e ajeitou-se no assento, observando que a poeira nele permanecia intocável… por  mais que se esfregasse. Não tentou entender; não importava. Seus sentidos, por curiosidade e paixão aos trens, estavam ligados ao ruidoso e trepidante início de arranque das locomotivas. Sentiu então, como a arrepiar-se, a cada intervalo no aumento de rotação dos motores, como a lacrimejar até no “crescer” dos assovios dos turbocompressores de ar dos motores. Ao viver aquela situação que tanto lhe agradava e excitava, substituía por bons os maus pensamentos.

            E o trem seguia seu percurso. A certa altura, ficou menos barulhento e mais rápido. A locomotiva, quando saia do apoio das curvas e ganhava as retas, dava trancos para os lados, parecendo querer pular fora dos trilhos. Era uma dança desengonçada da máquina de quase duzentas toneladas. Ela explorava, nas retas, as folgas que tinha suas rodas sobre os trilhos. Ananias, que sentia a locomotiva em sua totalidade, regozijava-se, pois era, enfim, sua… como  sempre fora – apenas – do maquinista. Olhava à frente a paisagem deslumbrante, reservada a poucos e torcia pela continuidade.

A linha cortava um simpático vilarejo e Ananias já fazia certa pose à janela da locomotiva… Solidarizava-se com aqueles que se desviavam do que faziam e ficavam a olhar orgulhosamente para o comboio encardido de fumaça negra e poeira de minério de ferro. Faria o mesmo. Lembrou-se dos colegas “malucos por trens”; aqueles com os quais compartilhava fotos, vídeos, livros e conversava sobre maquetes ferroviárias. Desejou contar-lhes sobre aquela aventura que se iniciava… e “prometia”.

Depois lembrou-se  das filhas. Lembrou-se da que levava, escondido da mãe, suas dezenas de fotos de trem para revelar no serviço. Chorou um tempo.

Cessou o choro e voltou a encarar o maquinista. Ainda chamou-o e gesticulou… Estava se testando, acostumando-se à nova situação. Deixou daquilo e voltou a pregar os olhos na linha do trem, à frente; na empolgante via em bitola larga. Tão exageradamente mais larga que as linhas da ferrovia da região em que residira, lá no outro lado daquele mesmo extenso estado.

A viagem transcorria, o tempo passava e uma cidade grande, ao longe, se descortinava; O trem passaria por dentro de seu extenso centro urbano. Já era quase hora do almoço e, já nos primeiros bairros afastados, o cheiro dos temperos vinha forte. O trem, então, tomou uma exclusiva área pouco povoada e, mais devagar que o comum, adentrou um longo pátio ferroviário. Percorreu-o em parte e parou por perto de instalações prediais da ferrovia. Ali as locomotivas iam ser abastecidas de combustível. 

Antes que parasse totalmente, dois outros maquinistas (ou auxiliares) – Ananias viu pelo crachá – adentraram a cabine, a vistoriar uns poucos lacres e o tacógrafo… Eles “brigavam” pelo reduzido espaço, enquanto, lá fora, pelos estrados das máquinas, outro trabalhava com mais liberdade, a fazer o serviço de conferir níveis de óleo dos motores, compressores de ar e água de refrigeração das cinco locomotivas.

Essa parada durou quase uma hora e, a seguir, o trem arrancou. Seguiu lento, ainda dentro do mesmo pátio. O pátio, então, se abriu em mais linhas e revelou curvas suaves num terreno plano. Aos poucos foi “descortinando” – à visão de Ananias – outra seção de instalações da ferrovia… Esta era uma seção bem maior que a primeira e bastante mais complexa. Ali foi feita uma segunda parada.

A parada se deu quase ao final do pátio, após o trem passar defronte imponentes oficinas e outras instalações. Na parada, as locomotivas ficaram ainda distantes da estação local – era uma estação pequena, que ficava mais à “ponta” do pátio.  Aquele lado do complexo era urbanizado. A linha férrea, após transpô-lo, ia passar pela área urbana, cruzando primeiro uma avenida e, depois, mergulhando por entre um verdadeiro beco formado por prédios.

Trem parado, Ananias saltou da locomotiva. Olhava, admirado, as imponentes instalações da ferrovia ali. Viu que aquela seção maior do complexo ferroviário ficava entre altos muros. Muros que o isolava de prédios e casas por um lado e, pelo outro, o isolava de pequenas fábricas.

Outro maquinista veio para dar continuidade à viagem do comboio.  O que chegava desceu da locomotiva e, certamente, dava por encerrada aquela sua viagem. Ananias o seguiu. Voltaram-se  em direção a um prédio comprido e sem graça; Mas era   uma edificação ainda imponente, que combinava com a maior parte das edificações ali… No cimo do portal da sala à qual adentraram, Ananias leu: “Escala de Maquinistas”.

Ananias que pesquisara tanto as ferrovias, especialmente as da REFESA, aprendera sobre suas “cidades-chave”. Sabia que aquela continha oficinas e escritórios daquela fração da estatal e era a morada de muitos ferroviários.

Por sinal, estava chegando ao mesmo local que tinha por destino, em sua viagem tão longe de casa. Apenas, chegava de modo diferente do qual planejara. Vinha dirigir-se àquele núcleo ferroviário, com intenções de “vender ideias” que estavam esboçadas naqueles papéis que ficaram no automóvel – Ananias, um ex-bancário, além de “maluco por trem”, era um inventor de parafernálias elétricas e mecânicas para locomotivas e vagões.

Ananias sabia que estava chegando àquele núcleo ferroviário num momento de “transição” (e considerava bom momento)… Aquela fração da estatal estava passando pelo processo de desestatização – processo que já havia se dado nas ferrovias de sua região. 

Uma vez dentro da escala de maquinistas, uma sala ampla com mesas e espécie de balcão em alvenaria a demarcar espaço, Ananias ouviu o maquinista responder algumas perguntas sobre o incidente daquela manhã a alguns supervisores de locomoção – seus chefes. Ficou sabendo que o local onde seu carro se esborrachara era chamado, pelos ferroviários, de “calabouço da pedra”.

Ananias a tudo buscava e viu que, no interior da escala, havia quadros de aviso com fundo em cores diferentes e viu que o maquinista que chegara passou a ler papéis diversos distribuídos neles… Fez algumas anotações e, depois, se foi.

E Ananias, apesar da euforia (estava numa escala de maquinistas de um núcleo da REFESA em bitola larga, afinal), sentiu-se sonolento; De maneira arrebatadora. Foi, então, com ares de preocupação, procurar um local pra deitar-se. Pensou, mais uma vez nas cinco filhas e, por meio delas viu, também, a mulher… Sabia bem o que ela tinha a dizer sobre aquilo tudo que estava acontecendo. Não queria nem sonhar em estar por perto, para escutar. Sem nada querer pensar naquele momento, foi para um canto sossegado, deitou-se e adormeceu.

Em sua casa, no mesmo dia, a esposa e as filhas de Ananias ficaram sabendo de tudo… por etapas. A princípio, só do acidente, dito grave. Depois, um parente próximo, preparando o terreno, dissera-lhes, com ar de riso, que “se acaso Ananias tivesse morrido no acidente, estaria feliz, pois seu carro caíra exatamente em cima da linha de um trem”… E, então, a mulher certificou-se que estivera certa em suas repreensões e admoestações a ele; O repreendera muito por “viver com a cabeça na estrada de ferro”; por “desperdiçar domingos e feriados rodeando tão execráveis ‘garagens’ de trem”. Certificou-se, enfim, que estava certa nas vezes em que o alertara pela desatenção ao volante quando avistava um “simples trem de ferro”. E pensava ela nas palavras com que iria recepcioná-lo, assim que o visse. Procurava até um arsenal novo de palavras e frases, pois cansada já estava de chama-lo de “bisbilhoteiro de estação”, “piolho de garagem de trem”, ‘“bananias’, o ‘enche saco’ das ferrovias”…

Mas, logo, voltou o mesmo espirituoso parente e falou – acertando sem saber – que Ananias “haveria de estar mesmo era muito feliz, afinal, embarcara de vez na viagem de trem que tanto queria”.

            Chegada a hora de fechar o caixão, a viúva colocou (por ela mesma, uma vez que Ananias jamais tivera coragem de pedir), junto ao corpo, uma pequena fotografia de trem. E, como no “combinado”, jogou fora os rascunhos com outros “projetos importantes” dele. Tratava-se de mais esboços, de inventos para locomotivas e vagões… Desde jovem, Ananias sonhara em impressionar alguém importante na ferrovia de sua região, para poder se tornar um maquinista de trem, uma vez que, pelas vias normais, não houvera conseguido – uma contradição, pois tinha histórico de aprovação em concursos bem mais criteriosos.

Longe dali, Ananias – ou melhor, sua alma – começava a realizar seu “sonho de vida”.

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