O corpo de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, foi sepultado na manhã de segunda-feira (1º/12) no Cemitério do Cristo, em João Pessoa (PB). No funeral, silencioso e rápido, estavam apenas duas pessoas: a mãe, Maria da Penha Machado, e uma prima.
A despedida mínima reflete a trajetória profundamente marcada por abandono, falta de tratamento e sucessivas falhas das redes de proteção desde a infância.
Gerson, conhecido como “Vaqueirinho”, foi afastado da mãe ainda pequeno. Maria da Penha perdeu o poder familiar há mais de dez anos devido a um quadro grave de saúde mental. Na tentativa de facilitar uma possível adoção, o nome dela chegou a ser retirado da certidão de nascimento dele — mas a adoção nunca aconteceu.
Enquanto os irmãos foram acolhidos por novas famílias, Gerson permaneceu em instituições, quase sempre rejeitado por apresentar comportamentos psicóticos e dificuldade de vínculo.
A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que o acompanhou por anos, relata que ele fugia constantemente dos abrigos em busca da mãe — também doente — acreditando que ela ainda poderia recebê-lo. Aos 12 anos, foi encontrado sozinho à beira de uma rodovia após uma das fugas. Avaliações da época indicavam sofrimento mental severo, que só mais tarde seria diagnosticado como esquizofrenia.
Sem tratamento contínuo, Gerson passou longos períodos vivendo nas ruas. Dormia em praças, pedia comida e, segundo familiares, tentava ser preso porque via no presídio um dos poucos lugares onde se sentia seguro. A prima Ícara Menezes contou que ele “tinha medo das pessoas darem nele” e buscava proteção em celas onde conhecia o diretor.
Em várias situações, chegou a atirar pedras em viaturas apenas para ser detido.
A morte de Gerson reacende o debate sobre jovens em sofrimento mental grave que ficam presos em ciclos de abandono, sem apoio adequado do Estado — e que, como ele, são enterrados quase sozinhos, depois de uma vida inteira invisível.





