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18/05/2012

Rastejantes lanudos

22, fevereiro 2012 - 10:14:29

Pode parecer incomum aos que estranham palavras novas, quando disse: lanudo.

Mas, realmente, merece umas reticências… , pois desejo explicar, calmamente, ao fim do meu texto completo, o que lanudo quer dizer.

“O povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la”. Afirmou-o pra mim o então desconhecido Eduardo Bueno.

Acrescentaria a essa notável mensagem de puro patriotismo: “quem perde a capacidade de se indignar, perde parte essencial de si mesmo.”

“Stamos em pleno mar. Doudo no espaço, brinca o luar. Dourada borboleta…”

Foi um poeta quem cantou isso.

Estamos num país que experimenta um momento mágico. Inflação posta sob freios. Obras por todas as partes. Um clima quente assopra as folhas das palmeiras. O desemprego amiúda-se. A saúde? Não tão alvissareira. O dinheiro, com seus olhinhos miúdos, não parece tanto em falta. Homens, mulheres, crianças, se alvoroçam todos em atividades febris. Dizem, lá fora, que o Brasil experimenta calmas turbulências. Em contraste evidente aos primos ricos. Que, lá no alto do planeta, além de enfrentarem nevascas, lindas em cartões postais, terríveis, na vida real, acabam por ver mortos desabrigados de teto.

Fala-se em crise na Europa. Com seus castelos medievais se esboroando como castelos de cartas. Uma a uma, até o patamar mais baixo.

Tudo fede a desmotivação no hemisfério norte. Os ricos, não tanto, da parte de cima do continente, tentam dar as mãos aos menos aquinhoados pela fortuna. Depõem-se mandatários mandriões. Sobem ao poder outros, até então ilesos de pecadilhos maiores. Até se provar que os tais pecadilhos não são tão leves como se imaginava.

No Brasil, sobre quem alguém disse: “em se plantando tudo nasce”, felizmente bafejado por bons ventos alísios que sopram do sul, e quase ventam em direção ao norte, grassam ainda algumas ervas daninhas, alguns políticos que se arvoram em Robins Hoods, no entanto, fazem parte de quadrilhas, tais e quais das que os mesmos afanaram ouro a dar aos pobres. Dúbia presunção…

A grande distinção entre nós, e eles, reside num singelo fato. Nós, aqui em baixo, não estamos acostumados a reivindicar, ou, se o fazemos, ignoramos de qual lado da moeda que rola, rola, e quando cai, fica sobre a cara ou coroa. Acabamos confusos sobre a quem dar, no pleito que se avizinha, eleger, dentre todos, o voto que vai permitir assentar-se, comodamente, ou não, à cadeira do chefe dos destinos da cidade onde temos a felicidade de morrer, ou, até lá, viver condignamente. Não entre tantos e tantos buracos. Entre regos d’águas vindos do esgoto. Entre escolas que não têm vagas. Entre hospitais que recusam leitos a quem precisa, e não tem como pagar.

Disse Castro Alves: “Stamos em pleno mar. Doudo no espaço, brinca o luar. Douradas borboletas…”

Borboletas são avezinhas-insetos que vivem menos que as flores dos ipês. Vão de flor em flor. Em busca do néctar destas mesmas flores. Até pararem de voar. Mortas, secas, a enfeitarem algum painel de colecionador.

Carneiros são bichos lanudos, pachorrentos, que comem tudo ao derredor. Existem os carneiros felpudos e os pelados. Que se saem melhor nos dias de agora, de forte calor.

Eles, os lanudos carneiros, se deixam levar pra onde quisermos. São como manadas robóticas de gente, que não tem, ou não sabe, o que reivindicar.

A mídia até que faz a sua parte. Noticia verdades verdadeiras, ou verdades açucareiras, o que o leitor deseja ler, ou fecha os olhos quando a verdade magoa.

As gentes, um tanto alheias aos exemplos que a história conta, não tomando atitudes que podem mudar o curso do ribeiro que corre pro mar, antes de se deixar conspurcar, incorremos no erro leviano de deixar repetir os mesmos equívocos. E deixar o mesmo ribeiro ficar poluído como os pobres corguinhos que têm a infelicidade de cruzar os ajuntamentos humanos. De nome: cidades.

No sábado, não sei se no perto passado, ou noutro, vi um bando de carneiros lanudos sendo levados ao abatedouro. Iam placidamente. Bucolicamente conduzidos por um só menino. Mal sabiam os bichinhos que o fim vinha próximo.

Ao ver os tempos bons por que passa o país, enquanto outros, do norte, mais cultos e preparados, mais politizados, mais educados, a crise alastra como fogo morro acima, num dia de ventania, na seca. Como a gente deveria se comportar? No momento de águas cristalinas que correm pro mar? Como carneiros lanudos? Ou como uma manada de corsas altivas, correndo céleres de uma família de leões famintos, no intuito de salvar a própria vida ?

É pegar ou largar o osso. Osso de algum bicho morto. Que o cachorro arrasta sempre, a fim de acabar de roer

 

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