Quando acordei no dia de hoje o calendário atrevido me confidenciou: “você já passou dos sessenta!” E eu, um tanto sonolento, ao olhar o espelho retruquei nervoso: “e você, superfície espelhada enxerida, quantos anos me dá?”
“Quer em verdade saber? Olhe-se na minha cara. Conte as rugas que lhe passarinham a face. Pra cada ruga, cada cabelo branco, cada dente frágil, por cada lembrança finda, adicione tantos anos quantos pensa ter.”
Comecei a contar pelas rugas. Eram tantas… Recomecei a contagem pelos dentes precisando de substituição. Passeei pelas cãs que pareciam flocos de neve caídos pelas têmporas. Quantos elas eram… Infindáveis. E, quando fui saber quantas lembranças me cavoucavam o baú de guardados pelo meu cérebro, aí, ah!, caíram-me ao chão os tantos anos tantos que o calendário da vida me fez passar. Foram anos felizes. Tristonhos. De uma tristeza acabrunhada pelas lembranças de tantas perdas passadas. De tantas carícias deixadas ao léu, de tantos e tantos amores que pelas minhas mãos passaram. De tantas coisas boas, assim, assim, nem tanto, que me fizeram chorar, ou chorar de rir, ou navegar entre as estrelas, numa noite sem elas.
Depois da conversa nada amistosa com o espelho, de me expor de corpo inteiro, de, finalmente me convencer que a mocidade se foi, faz um tempinho, fiz a mim mesmo alguns vaticínios.
Sei que não sou mais um jovenzinho peralta. Um que andava atrás de meninas de pernas grossas. Sei que não mais sou um adulto em busca de sucesso. O sucesso ficou com saudades daqueles tempos. Sei que aquele jovenzinho cheio de sonhos azuis deixou tintar esses mesmos sonhos azuis numa cor sem cor, seria cinzenta? Ou negra urubuzenta?
Depois de tantas conjecturas, de tantas considerações obscuras, de tantas lembranças ternas, outras amaras, de tantas lucubrações sem tutano, de tantos sonhos insepultos imersos nas trevas da obscuridade, penso, me deixo inserir em meio a tantos pensamentos vãos, e quase posso divagar: a vida passa. Em meio a tempestades e procelas, em meio a ondas gigantescas, em meio a torvelinhos sem redemoinho, daqui, da minha quase senilidade, da minha grotesca apatia, imaginando o que há de vir numa encruzilhada da estrada, uma estradinha pequena, mas grande demais para a força das minhas pernas, antes peraltas, num ponto em que não mais puder decidir como e pra onde ir, se vou, se volto, se paro, se me preparo mais para seguir adiante, ou se divago mais devagar, ou se volto pra onde vim, quem sou eu para saber de onde vim, ou simplesmente se vim, se vou, pra onde?, nem sequer imagino.
Sigo adiante. Deveria ser o que me bastaria. Mas, impossível diagnosticar, como tenho tentado fazer a vida inteira, sem ao menos adivinhar o que faz afligir aos outros, que se assentam angustiados à cadeira defronte de onde escrevo tanto, tanto, sem parar, sem querer parar, pensando seriamente em voltar, pra onde vim, se ao passado, ao presente, ou ao futuro, um futuro por demais incerto, inseguro, como quando andava titubeante, sob olhares vigilantes da minha mãe, que já se foi, e, um dia a irei encontrar, em outro mundo, outra vida, seja onde for, pra lá irei.
Passei dos sessenta. Rumo célere aos setenta. Não sei se irei além. Tomara… Com saúde, e, se um dia tiver de morrer, ah!, se pudesse ser a exceção à regra, umazinha só, somente, se pudesse escolher em que idade iria parar, pra sempre, com certeza, seria na doçura dos meus vinte anos.
Pra onde foram meus vinte anos? Pra antes dos trinta? Depois dos dezenove? Bem antes de onde estou agora?
Hoje, tarde quente, ameaça de chuva no ar, como tem chovido além da conta!…, penso, mais uma vez, a última, meus vinte anos se foram, pra longe da linha imaginaria que ainda me cavoucam as lembranças. Pra onde? Mais uma vez, gostaria de saber.















