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18/05/2012

Pra ele nada de novo, a não ser um ovo velho num ninho novo

2, janeiro 2012 - 23:18:16

Virada de ano. Data nova no calendário. Muitos hipotecam à esposa, aos filhos, aos dependentes, mudança radical nos costumes. Prometem deixar de fumar. Moderar na bebida. Moderar no trabalho. Moderar inclusive no consumo de alho. Ou de jiló.

No entanto, como nem toda promessa tem seus encantos, e a reles promessa fica esquecida no olvido, essas mudanças radicais se perdem tão logo o ano novo nasce. Sendo solenemente encaixotadas numa gaveta mofada do sótão. Esperando a hora de a cobra dar o bote.

Um exemplo completo de que as intenções de mudança que sempre acontecem na dobra dos anos só ficam no papel me foi contada em prosa por um emérito contador de causos.

Assim ele dá início à sua história.

O Miguelzinho, caboclo tinhosamente pobrinho, nascido em família mais miserável ainda, só não veio a morrer ao nascer, pois uma parteira especialista em causos ruins veio-lhe ao socorro. Salvou-o do bico do urubu, pois o pobre Miguelzinho, num dia de lua nova, quando a mãe começou a sentir as dobras do parto, sem saber inclusive que estava grávida, pois não tinha se deitado com ninguém, salvo com o provável pai do menino, tornado estéril por culpa de uma caxumba recolhida que desceu de elevador ao andar inferior, sete meses após recebeu, da mesma parteira esperta, a notícia que ia ser mãe naquela hora.

Foi um corre-corre dos diabos. A bolsa rota deixou um corguinho de água limpinha escorrendo por entre as pernas da nossa mocinha, mãe do caboclinho pobrinho, nascido num casebre mais ainda miserável.

Ah!, não fosse pela intervenção da parteira… Nem historinha teríamos a contar. Quanto mais esse causo verdade, tão verdade que o Pinóquio não está aqui para referendar.

Aos dois aninhos nossa criancinha teve sarampo. Varicela veio aos dois e meio. Catapora, um mês depois. Aos cinco e poucos dias teve erisipela, dengue e diarréia infecciosa por mortadela vencida, que o pai postiço tinha trazido de brinde do botequim da esquina.

Aos dez um padre caridoso lhe deu extrema-unção. Só não morreu por interseção de uma benzedeira milagreira, que prometeu a mãe que o menino, caso ele se salvasse do olho gordo da morte, seria um príncipe com muita sorte. Não é que ele quase foi?

Acontece, por uma capricho da avenida, o nosso caboclinho valente (quem não fica valente ao passar por tudo isso?), um dia virou gente.

Gente da roça via de quase sempre é gente boa. E nossa figurinha, com firma não registrada em cartório, ficou sendo mais uma.

E ele vingou os trinta anos de idade. Mas parecia ter o dobro da idade.

Era pau pra quebra-galho. Era meio pedreiro, roçador de pasto à foice, fingia-se de retireiro, não fazia feio como cuidador de galinha caipira. Só que não encontrava ovo algum, perdido nos ninhos escondidos nas bananeiras que já deram cacho.

Aos sessenta, doente da próstata, da bexiga, depois de ter sofrido dois acidentes vasculares cerebrais, mancando das duas pernas, fora o joelho estropiado por culpa de um coice do cavalo Marreta, que engordou depois de ver a coisa preta, o seu Miguel, ex Miguelzinho, viu na folhinha que o ano iria mudar. De dois mil e onze para dois mil e doze.

Sentindo-se no fim da vida, eita vida sofrida!, olhando o que tinha passado, de papel passado, prestes a ver pipocarem os fogos da virada do ano, na roça este foguetório passa longe, numa manhã nevoenta viu a galinha cantar.

Como não tinha nenhum ovo no armário da cozinha, saiu à procura do tal ninho escondidinho.

Tanto fez que encontrou, no meio de dois pés de banana nanica, um só ovinho vermelho. Era um belo ovo, provavelmente de uma linda franga em começo de postura.

Levou à casa pobre aquela iguaria imensa. Tão logo levou o ovo à frigideira, ao quebrá-lo, qual não lhe foi a surpresa ao ver que o ovo era choco. Que cheiro nauseabundo sentiu!

No primeiro dia do ano, na virada de dois mil e onze a dois mil e um ano depois, um vizinho lhe perguntou: “e aí, Miguel Quase Defunto? Como foi a entrada do ano novo?”

Num último suspiro Miguel respondeu: “nada de novo. A não ser um ovo velho num ninho novo. E ainda por cima choco.”

A seguir, fungou e morreu…

 

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