Paulo Curió traz uma crônica emocionante esta semana – Confira!

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13/04/2018
Imagem Ilustrativa : GRAPHIC STOCK

A FOME DA MENINA NICOLE

Eu gosto muito desse clima de outono, as manhãs sempre são agradáveis, o sol aquece na medida ideal e o vento ajuda a manter a temperatura amena. Neste sábado acordei cedo, era dia de aplicar prova na faculdade. Após o término busquei meu filho, precisávamos comprar calças do seu uniforme escolar, as deles estão furadas nos joelhos, fico até com vergonha de mandá-lo pra aula, parece desleixo, mas não foi. Havia encomendado as calças em uma confecção, deixei pago, dois meses de espera pra não ter o pedido atendido. Saímos de lá e fomos almoçar.

Nosso dia estava programado, iríamos almoçar e mais tarde iríamos para a UFLA treinar Hapkido, pelo menos tentar, o Pedro está praticando esta arte marcial há menos de um mês e eu não entendo nada dela, sou apenas um mero capoeirista aposentado. Arrumamos suas coisas, na casa de sua mãe e seguimos rumo a minha casa. Ao entrarmos no carro propus:

– Vamos tomar um milk-shake?

Vocês já devem imaginar a resposta, afinal, nenhuma criança negaria um delicioso milk-shake de chocolate, ainda mais logo após o almoço.

Entramos no carro e o Pedro logo pediu – Pai, coloca forró – ele está viciado na música “Homem com H” do Ney Matogrosso. Ele estava contente no banco de trás. Sentou-se e colocou o cinto de segurança, enquanto me pedia para abrir o teto solar. Ele estava todo “estiloso” com seus cabelos compridos e óculos aviador. Espiei pelo retrovisor, um sorriso surgiu em meu rosto. Era um dia comum, dia de passear com os filhos. O Eduardo estava fazendo simulado na escola, esperava sua ligação após o término para buscá-lo.

Seguimos em direção ao centro da cidade, onde compraríamos o milk-shake. Ao estacionar, bem em frente ao estabelecimento, uma família se aproximou. Vestiam trajes simples. A mãe, ainda com cara de início de adolescência, segurava uma criança no colo, uma menininha, não soube precisar a idade, mas era entre 7 e 10 meses de vida. A criança estava com um vestidinho azul, de alcinha, um vestidinho de verão, mas pouco para o outono. No outono, principalmente na sombra, a temperatura é um pouco mais baixa, uma criança nessa idade pode facilmente adoecer.
O pai se dirigiu a mim.

– Senhor, posso falar com você?

Respondi sorrindo que “sim”, apenas pedi que esperasse fechar o carro e descer o Pedro. Apertei sua mão, enquanto ele disparava justificativas por ter me abordado. Já sabia que pediria algo, então, fui em direção a criança e coloquei a mão em seu pezinho, estava geladinho, como eu imaginava. Perguntei a mãe, que portava-se como uma adolescente rebelde, se tinha alguma meia na bolsa da criança, sua resposta veio num tom de desdém e indiferença – Tem – mas nada fez.
O pai continuou com sua história. Disse ter recebido a cesta básica da obra onde trabalha como servente, mas estava sem ter uma “mistura” para dar pra criança. Queriam um pouco de “suã” pra misturar na comida.

– Graças à Deus, o arroz e o macarrão “nois” até tem, “mais nóis” queria dar uma carninha pra ela também.

O Pedro, segurando minha mão e atento a tudo, me fez um sinal com os olhos, como quem diz – “Vamos ajudar!”. Os convidei para me acompanharem até o mercado. No caminho sondei a história. A criança não foi planejada, o pai com 19 anos e a mãe com 16, tiveram um breve relacionamento e dele nasceu a Nicole, a linda garotinha que estava muito sorridente enquanto mastigava alguma coisa. Foi quando o pai percebeu e perguntou a mãe:

– O que a Nicole está comendo?

– Papel – respondeu a mãe. Como se a resposta fosse óbvia – ela tá com fome, não tem nada pra comer.

O pai, que sofria de gagueira, mal conseguia falar. Retirou o papel da boca da criança, e mesmo nervoso, pediu de forma delicada à mãe.

– Dá o leitinho que tem na bolsa dela.

– Eu já te disse, só leite não dá, ela tem fome!

Pedi que apressassem o passo, comecei a ficar muito incomodado com a situação. Saber que a criança estava desde cedo sem comer, me fez muito mal.
O pai ainda tentava me contar a história, se culpava por ter engravidado a adolescente, era nítido no olhar dela que o condenava também. Ele repetia sem parar.

– A gente não planejou, mas agora tem que cuidar. Fazer o quê? A criança não tem culpa.

A expressão da mãe me assustava. Parecia fria, indiferente, não carregava sua filha nos braços, carregava um fardo.
Chegamos ao mercado e fiz algumas compras. Comprei também algo para comerem. Ao sair, avistei o pai impaciente, andando de um lado para o outro. Sua impaciência não era comigo, ou pela minha demora na enorme fila do mercado, era com a situação, com a vida, com sua impotência por não poder ajudar sua filha.

Atravessamos a rua, o Pedro e eu, e entregamos as compras nas mãos do pai. Nicole, a garotinha, como um anjinho, sorria pra nós. Aproveitei para conversar com a mãe. Expliquei o que havia comprado, como ela deveria armazenar e dividir para durar mais tempo. Falei pra ela do uso da soja, onde comprar, como fazer e a importância de manter a criança sempre alimentada, tendo carne ou não. Ressaltei, também, a necessidade de cuidar dos filhos com amor, com zelo. Sei como é ter um filho no meio da adolescência, passei por isso, mas diferentemente desta mãe, eu tinha condições financeiras e uma base familiar.

Foi quando olho para o lado e vejo o pai em prantos. Abraçado às sacolas, debulhado em lágrimas. Fiquei inerte, não soube como reagir. Estendi a mão, para cumprimenta-lo, pedindo que não chorasse, aquilo não era necessário. Ele segurou minha mão forte, ameaçou beijá-la. Retirei a mão rapidamente e o abracei. Pedi encarecidamente que não chorasse mais, tentando conter o meu choro. Ele seguia agradecendo a Deus em voz baixa, enxugando as lágrimas e abraçando insistentemente as sacolas. Com uma voz já chorosa, reforcei o pedido para cuidarem melhor da Nicole.

A mãe, que permanecia sentada com seu “fardo” no colo, continuava alheia a tudo.

– Tem um pão de queijo quentinho aí. Assopra e dá na boquinha dela. Agora, por favor. Sua filha está com fome. – Disse de forma mais direta a mãe, enquanto me afastava.

De mãos dadas com meu filho, segui meu caminho. Um pouco adiante olhei pra trás, vi o pai abrindo as sacolas, respirava aliviado, sorria e abraçava sua filha, que agora estava em seu carinhoso colo.

– Pai, demorou, mas deu tudo certo. – disse o Pedro.

Sua frase soava como uma sensação de dever cumprido. Era minha vez de abraçar meu filho e agradecer. Meu choro se estendeu a tarde inteira. Senti em meu peito a mesma sensação de impotência daquele pai. Fechei meus olhos, respirei fundo e pedi ao cosmos.

– Que a fome jamais nos alcance!

Paulo Curió*

 Sobre o Autor

Nascido em Porto Alegre, Paulo Curió, mudou-se para Lavras no início de sua adolescência, em 96. Amante da cultura popular, capoeirista desde os 5 anos de idade, desenvolveu projetos de capoeira por mais de uma década. Foi em Lavras, ainda nos anos 90, que seu trabalho como professor de dança ganhou notoriedade, sendo convidado a ministrar aulas em diversos locais. No início dos anos 2000, resolveu estudar as artes cênicas, indo para as cidades do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte. Desenvolveu projetos de destaque no âmbito cultural na cidade como Coordenador do Núcleo Cultural Unilavras. Metalúrgico desde 2005, graduou-se como engenheiro mecânico, tornando-se professor dos cursos de engenharia civil e produção. Atualmente, leciona em cursos de pós-graduação pelo Grupo UNIS, sendo engenheiro e responsável técnico da Mercomolas Indùstria de Molas,  consultor na Onixx Consultoria Organizacional. Curió, também, é músico na banda Circo da Lua e professor de forró. Como escritor, lançou em 2017 sua primeira obra, intitulada “Hemisférios – dos amores racionais às razões do amor”, um livro de contos, crônicas e poesias.