Desde quando nosso capiauzinho nasceu, na barra do seu bercinho de madeira tirada no mato da roça do pai, uma imbaúba velhusca, mais de cem anos nos costados, se podia ler a inscrição. Era um versinho lindinho, a cara do menininho que eclodiu rumo à vida num dia quente de verão.
“Saudade é um parafuso que dentro da rosca cai. Só entra se for torcendo, porque batendo não vai. Mas quando enferruja dentro nem distorcendo não sai.”
E esse menino que vivia mirando estrelas, ao ver vagalumes piscando, os enfiava numa caixinha de fósforo, não na intenção de vê-los mortos. E sim de que eles brilhassem só pra ele, numa noite escura sem estrelas, sem lua, uma noite em que só ele e Deus fossem testemunhas do silêncio vazio das noites da roça.
Aos sete já fazia poeminhas. Como o que abre essa história.
Outros passaram-lhe pelo lápis de cor. Eles eram escritos numa folha de caderno de pautas apertadas, letrinhas espremidinhas, lindas e redondas, do tamanho certo para acertar em cheio no coraçãozinho de alguma meninazinha vizinha de cerca.
Depois, aos mais de cinco aninhos, deixou escrito em letras rosadas: “se eu pudesse me enferrujaria dentro do coração de cada um que amo.”
Em outro papelucho, resto de papel de pão, na sua rocinha singela, onde vivia, os papéis escasseavam, ele fez mais uma previsão, infelizmente acontecida anos poucos depois: “ na próxima primavera as flores podem florescer no seu túmulo”. Dito e mal feito.
Mas, antes que o previsível fosse feito real, antes que a aurora boreal tintasse o céu nas cores da sua aquarela rica, o nosso poetinha rural apaixonou-se perdidamente por uma linda moreninha do outro lado da cerca de arame farpado, que tinha mais ferrugem que sua alma cabocla, de tanto sentir no peito saudades, tanto de coisas vivas ou mortas.
Aliás, saudades eram coisas que só ele melhor conhecia. O motivo? Tanta sensibilidade.
Como no local onde morava os meninos eram acostumados a empunhar o cabo da enxada, logo ao despertar da aurora, e ele, mãos fininhas como folhinha de aroeira do sertão, que causa calombos que coçam nas mãos dos sensíveis, ele, só de olhar na direção do sol, que reluzia vaidoso no alto, e fazia arderem as vistas dos desacostumados, como ele, a dura lida renhida da roça não lhe vestia perfeitamente o talho dos costados.
Enquanto seus priminhos, ele era filho só, chegavam do trabalho suados como cavalo de carroça ao chegar no lombo do morro agudo, ele, montado, não no cavalo eunuco, e sim na sua sensibilidade de menina moça, ficava em casa, à sombra de um telhado salpicado de estrelas que pareciam entrar de fininho pelas frestas das telhas velhas, atitude que era duramente criticada pelos mais velhos.
Mas ele era assim. Não assado.
O nosso heroizinho afeminado, desacostumado às lides rurais, era tido por quase todos, menos seu honrado pai, mais menina do que menino.
Acontece, num dia em que o sol castigava covardemente a pele dos homens do campo, a do nosso menininho(a), fazia empipocar, de tão vermelha – pimentão – maduro, ao ir à missa de domingo, quando o velho padre falou: “vão em paz. O Senhor os acompanhe!”, o mesmo Senhor não escutou as preces do padre.
Quando, dia tardio, quente, sem vento, o nosso menininho sem muita convicção do que era, era ele, ou seria ela?, ia calmamente pela estrada afora, pensando nos versinhos que deitaria no resto do caderninho puído pelos dentes de rato, sem olhar direito o caminho, se por ali tinha algum bichinho venenoso, eis que sentiu na canela uma picada quase indolor. Chegou a casa com o tornozelo inchado e em fogo. Não havia nenhuma alma viúva, ou morta, a acudir-lhe em tempo oportuno.
Em duas horas agonizava no catre pequeno. Em duas e meia fechou os olhinhos.
Ao seu féretro apenas duas dúzias de camponeses. Pessoas simples, poéticas, disputavam a alça direita do caixãozinho cor de maionese queimada.
Na lápide singela, primavera em seu começo, profetizou-se a profecia: “ na próxima primavera as flores podem florescer no seu túmulo.”
Foi então que o Alma Cabocla conseguiu ser entendido.















