Sonhos existem para serem convertidos em realidade. Caso contrário eles não passarão de sonhos. Ficarão pra sempre guardados num departamento estanque, dentro da caixa que recebe as células pensantes, submersos na calada da noite. Quando a gente acorda, e descobre de que cor era o sonho, pode não apreciar-lhe a cor. Mas o sabor…
A propósito: qual seria o sabor de um sonho? Teria o sabor de sorvete de baunilha? Ou seria outro, quem sabe de limão? Perdoem-me! Sonho de limão deve ser azedo. Como eu era, em criança, azedinho, pior que o limãozinho que ficava doce, ao ser adoçada a limonada, pelas mãos de minha mãe.
Por falar em mãe, quanta saudade dela!…
Ainda me lembro, tendo por testemunha a fotografia que por trás de onde escrevo me diz: “ei menino! Larga de ser exigente, mimado, aceite qualquer presente que o Bom Velinho lhe deixar na árvore de Natal!”
E eu fazia birra quando o presente era repetido. Quando era o mesmo caminhãozinho feito pelo preso da cadeia, nas suas horas de ócio. Que eram tantas…
E quando o presente era o velho jogo de dominó, eu repetia a cena. Empinava as tabuinhas de dominó, uma a uma, fazia derriçar todas, só pra ver o tlec tlec dos pobres dominozinhos caindo, um a um, como caíam por terra meus sonhos azuis.
Minha mãe sempre me alertava: “filho, contente-se com o pouco que a vida lhe traz.” E eu, sempre insatisfeito, tanto com o jogo de dominó, quanto com o caminhão de madeira feito por um preso, fazia birra, confusão que me deixava de castigo horas a fio, e dali só saía ao berrar, como bezerro: “mãe! Quero leite!” E o grande copo de leite vinha branquinho, eu não tomava o copo inteirinho, e continuava tal e qual um bezerrinho, chorando alto, para que a minha mãe, coração mole, me deixasse sair da cadeira dura, e fosse bulir com meu irmão mais novo, na intenção de caçar briga.
Confesso uma confissão de papel escrito: eu não era um bom menino. Queria sempre mais. Além da paz que o pouco me podia trazer.
Uma vez adulto, depois sênior, depois de deixar o menino sair do castigo, refletindo melhor, aprendi a não querer tanto.
Se não queria um caminhãozinho de madeira feito pelos presos, agora, que o tal brinquedo mais me atrai mais, quem sabe um de plástico, vendido nas lojas de um e noventa e nove servisse?
Hoje, depois de léguas rodadas, de ter embirrado tanto, de ter pedido leite pra sair do castigo, acabei por tirar leite branco da vaca preta. E como me satisfaço fazendo isso! Mesmo com a pouca renda que o leite dá
Antes era bastante vaidoso. Gostava de ter um topete armado no alto, ensombrando a testa, não tão ancha como a tenho agora. Agora, não porque os cabelos se foram. A vaidade também se foi. Bem como sentimentos menores escorreram pelo ralo do tempo.
Nos idos tempos me achava o máximo. Mesmo sendo de estatura mediana. Não indo além da altura dos ombros da linda namorada, que o tempo levou. Hoje me contento em ser da altura que a média indicada pela fita métrica dos brasileiros demonstra. Não mais, nem menos.
Antes era um rapaz aprisionado em sonhos de me tornar dono de posses além das minhas posses. Hoje, com o que tenho, estou mais contente que antes de ter tanta coisa que fazia parte dos meus sonhos desfeitos.
Antigamente pensava ter raciocínio rápido. Hoje aprendi que, pra quê ser tão rápido, se o tempo resiste aos ventos, a tempestades velozes, e acaba passando o tempo, sem que a velocidade do vento consiga destruir essa irrefutável verdade.
Ainda me lembro de tanta coisa que desejava.
Se desejava um brinquedo logo era atendido nas minhas pretensões. Se desejava alguma estrela cadente meus pais a buscavam no laço. E aquela estrelinha miúda logo estava guardadinha no criado falante da beirada da minha cama. Se desejasse um sonho ele desvirava sonho, e caía real no meu bolso cheio de pratinhas novas.
Ontem foi ontem. Hoje beira o amanhã. Ontem era de um jeito. Hoje sou um desajeitado homem sênior que refugou tanta coisa, tanta coisa, que o tempo cuidou de lavar, ensaboar, enxugar, e acabou guardando num lugar tão especial, que nem eu mesmo sei onde está.
Ontem eu queria tanto. Hoje, pra quê, indago. Me satisfaço com muito menos. E sou mais feliz assim. O motivo? Justamente por não querer sempre mais…















