Lavrense Ana Paula conta como enfrentou assédio sexual no vôlei e como virou ícone da direita

14/09/2018

Ana Paula Henkel não tinha nem 20 anos quando ouviu uma proposta indecente de um dirigente do clube em que jogava em Minas Gerais: só teria o salário aumentado se “cedesse aos caprichos” dele. Assustada, foi procurar o pai e denunciou o dirigente, que perdeu o cargo e o direito de negociar os contratos das jogadoras do time.

O caso ocorreu há mais de 26 anos, mas, de alguma forma, moldou o pensamento da ex-jogadora sobre a relação entre homens e mulheres no esporte e na vida. “Acho que homens e mulheres se complementam”, afirma a mineira. “Se a gente pega pessoas do nosso lado, nosso pai, namorado, tio, irmão, e diz o que está acontecendo, viramos um time muito mais forte contra um assédio masculino.”

Nesta entrevista ao UOL Esporte, a medalhista de bronze em Atlanta-96 explica por que critica “o feminismo de sofá” e conta como se irritou ao ver um jornal enfatizar seu corpo após uma derrota na Olimpíada.

Cursando mestrado em ciência política na Universidade da Califórnia, onde mora, ela também conta que lição tirou do vídeo que gravou em 2014 apoiando o então candidato a presidente Aécio Neves. Fã da antiga primeira ministra britânica Margareth Thatcher (a “Dama de Ferro”), Ana Paula virou uma das vozes mais ativas da direita brasileira nas redes sociais. “Tentam dar uma conotação pejorativa à palavra conservadorismo, como se ele representasse uma era de escuridão do mundo. Eu sou conservadora com orgulho.”

“Meu pai peitou quem me assediou”

Quando foi assediada pelo dirigente do clube mineiro, Ana Paula pediu ajuda aos homens que tinha por perto. Ela acredita que a militância radical pelo direito das mulheres pode afastar os gêneros.

“O feminismo atrapalha um pouco essa relação até no assédio. Acho que homens e mulheres se complementam. Eu, num caso desse, fui ao meu pai. Às vezes, a mulher, na teoria, não tem uma voz tão ativa de dizer não. Mas temos. Nós temos!” Apesar de não revelar nem o nome do dirigente nem o clube em que o caso aconteceu, a ex-jogadora afirmou que a proposta foi feita com todas as letras.

“Era uma melhora significativa no contrato financeiro e a condição era ceder aos caprichos de um homem, de um dos dirigentes do time. [Foi] descarado, falado em todas as letras. Eu tinha 18, 19 anos.”

Ela afirma que ter sido assediada não lhe causou um trauma: “Meu pai foi lá e peitou a pessoa. E, por causa disso, outras meninas falaram, outras meninas que não tinham essa estrutura familiar se sentiram protegidas com a presença do meu pai. Duas, três meninas seguraram na mão dele e falaram que tinha acontecido com elas também.”

“Depois o próprio clube fez investigação, mas ela ficou confidencial. A gente nunca soube quantas pessoas realmente esse dirigente tentou aliciar dessa forma. Mas ele foi desligado do clube.”

Em Atenas, se irritou com foto de sua bunda no jornal

Ana Paula participou de quatro Olimpíadas e, aos 29 anos, disputava sua terceira, em Atenas. Era sua estreia no vôlei de praia após ter sido medalhista de bronze na quadra em 96. Ela havia acabado de ganhar o circuito mundial e entrava como uma das principais concorrentes a medalha. Sua dupla com Sandra acabou os Jogos em quinto lugar, após uma derrota para as também brasileiras Adriana Behar e Shelda nas quartas de final.

Um detalhe da cobertura da imprensa no dia seguinte irritou Ana Paula. O episódio lembra como uma parte do jornalismo costumava enfatizar mais seus atributos físicos do que seu desempenho esportivo.

“Eu fiquei p… da vida de ver minha desclassificação na manchete e ‘a bunda mais bonita de Atenas se despede das Olímpiadas’”, lembra ela. “Eu tinha treinado três anos para estar ali, tinha chances de medalha.”

Na verdade, a coluna Renato Maurício Prado, no jornal “O Globo” de 23 de agosto de 2004, traz uma frase um pouco diferente na legenda de uma grande foto da atleta, de costas: “Despede-se da arena de Atenas a silhueta mais fotografada dos Jogos”. O título da coluna era: “E agora, vão fotografar o quê?”

Anos depois, Ana Paula encontraria o jornalista. Os dois conversaram sobre o assunto e se entenderam. Procurado, Renato Maurício Prado disse que teve e tem até hoje um bom relacionamento com a ex-jogadora. “Sou um grande fã da Ana Paula. Ela foi traída pela memória. Acontece.”

“Acho que no esporte o que é bonito tem que ser enaltecido, visto”, afirma Ana Paula, para quem o rótulo de musa nunca foi um grande incômodo. “O esporte habita esse inconsciente de deuses e deusas, corpos bonitos, acho que isso serve até de inspiração para as pessoas.” Ela disse acreditar que o episódio foi uma exceção na cobertura jornalística. “Aí pegamos a exceção e vamos para o outro espectro, de não pode falar nada. Tem que trazer um pouco de equilíbrio, chegar ao meio termo.”

Sobre o rótulo de musa:

“Nunca me incomodou a ponto de ficar irritada. Quando fui pra praia muita gente falava que ia ver meninas de biquíni jogando vôlei. Nunca me importei. Era um atrativo. O cara vai chegar lá, ver um jogo muito legal e falar ok, elas estão de biquíni, mas que jogo maneiríssimo”.

“Transexual no esporte é barreira perigosa para mulheres”

No ano passado, a ponteira Tifanny se tornou a primeira atleta transexual a atuar na Superliga. Sua contratação gerou uma onda de solidariedade entre os que defendem a integração de pessoas trans, mas também provocou algum incômodo no esporte. Algumas atletas reclamaram de sua força física e lembraram que o corpo de Tifanny se formou antes de ela fazer a transição de gênero.

No Twitter, Ana Paula criticou a participação de Tifanny do campeonato. Desde então, tem se posicionado contra a inclusão de transexuais na modalidade feminina. A federação internacional de vôlei recomenda que as federações locais permitam a participação de mulheres trans, desde que exames atestem um limite de testosterona no sangue. Tiffany está dentro do limite permitido.

“Eu acho que a principal barreira que as mulheres vão enfrentar no esporte é a inclusão de transexuais, e essa é uma barreira perigosíssima”, afirma Ana Paula. “Essa pauta sai da esfera da tolerância e vira uma questão científica, biológica. Homens que foram formados com testosterona durante anos e mulheres que não têm esse direito em momento algum da vida.”

Ela acredita que a liberação vai levar pais de crianças a produzirem superatletas trans para competir com mulheres. E, no longo prazo, isso causaria a expulsão de mulheres cisgênero do esporte.

“Vai ter criança que vai começar a tomar testosterona. Com 12 anos, faço uma superatleta com testosterona. Com 17, baixo o nível de testosterona daquela menina. Ela parece homem, tem corpo formado como homem e vai jogar com meninas que passaram o tempo todo ali limpas”, afirma ela.

“Por que o transexual pode ser homem, usar testosterona durante 30 anos, ter músculo mais forte, coração maior que o meu, pulmões maiores e eu não pude ter isso? Cadê as feministas dizendo que as mulheres vão ficar de fora? Não tem como competir. É biologia humana. Homem e mulher. Mulheres vão ser ceifadas do esporte.”

A guerra psicológica em Atlanta contra as ex-amigas cubanas

Uma das rivalidades mais memoráveis do esporte olímpico é a que opôs brasileiras e cubanas no vôlei. A geração de bronze de 96 (Ana Moser, Marcia Fu, Fernanda Venturini e companhia) é até hoje lembrada pelos duelos intensos com as caribenhas, representadas por nomes como Regla Bell, Regla Torres e Mireya Luis. Ana Paula lembra que as duas seleções eram amigas no começo dos anos 90. “Elas vinham pro Brasil e em Cuba não tinham nada. Não tinham sabonete, pasta de dente. No supermercado, nós comprávamos pra elas. Mas quando começamos a ganhar delas, a amizade já não era mais tão bonitinha [risos].”

O episódio mais lembrado aconteceu em 96, quando as duas seleções, favoritas ao ouro, se enfrentaram em uma inesperada semifinal. O Brasil vencia o jogo, mas as cubanas encontraram um jeito de desestabilizar as adversárias e acabaram ganhando a partida (e a guerra psicológica) por 3 a 2.

“Falavam de tudo, provocavam. Desde o famoso salta chica [pula garota] até os palavrões”, conta Ana Paula. “Chamavam a gente de filhas da p… Tinha gente que entrava nesse barco e tinha gente que recuava. Foram anos desse confronto verbal, físico, emocional. Era uma guerra psicológica. Às vezes, nosso time se desestabilizava quando entrava na provocação delas.”

Ao final do jogo, com a vitória cubana, Ana Moser se aproximou da rede e pediu respeito às rivais, que celebravam efusivamente. Foi a senha para um dos maiores bate-bocas da história do vôlei olímpico.

 

 

Ana brigou com cubana, mas também viu fogo amigo Ana Paula morre de rir ao rever as cenas caóticas após a derrota brasileira. Mas depois que as câmeras pararam de filmar, ela ainda teve tempo de se envolver em uma confusão na entrada dos vestiários

“Eram duas entradas, uma pro nosso vestiário, uma pro delas”, lembra a ex-atacante da seleção. “Como a nossa estava fechada, eu tinha que passar em frente ao vestiário delas. Eu já estava ouvindo as comemorações, a gritaria. Pensei: ‘Tomara que não tope com nenhuma delas.’ A Torres e mais duas estavam vindo pra entrar no vestiário. No que eu virei elas falaram piiii.”

Ana Paula faz uma censura sonora para não repetir o palavrão que ouviu das cubanas. Mas a afronta foi o suficiente para tirá-la do sério.

“Pensei: ‘Ah já perdi esse jogo, não vou levar desaforo casa’. Virei pra elas e falei ‘Qual é? E aí?’ E nisso uma botou dedo em riste, a Torres me empurrou, eu empurrei. Tudo aconteceu tão rápido porque a gente tava no meio das duas portas e nisso as cubanas no vestiário ouviram e saíram. As meninas do Brasil saíram. Onde era uma e mais três cubanas já tinham virado 24.”

Mas a história que mais arranca risos de Ana Paula sobre aquele verão quente de 96 é outra. E envolve duas de suas colegas de time: Filó e Hilma, que estava machucada e foi assistir à semifinal de muletas.

“No outro dia, contando mortos e feridos, uma com arranhão nas costas, outra com arranhão no pescoço, a Filó diz: ‘Tenho um galo na cabeça. Não sei qual cubana me bateu’. Começamos a conjecturar, foi fulana, ciclana. E a Hilma fala: ‘Filó. Fui eu’.”

“Como assim?”, perguntaram as brasileiras.

Hilma: “Vi aquela confusão e bati com minha muleta em alguma coisa.

“Acho que acertei você.” Acho que hoje faria as coisas um pouco diferente, a maturidade traz uma paciência, uma coisa de ser mais diplomática. Ali você tem 20 e poucos anos. Sou aquariana. A cabeça era ‘Ah não, se ganhar, vou pôr o dedo na cara.’ Se tivesse a maturidade de hoje, não sei se provocaria. Existem outras maneiras de dar uma cutucada.”

-Ana Paula, sobre brigar com cubanas.

“Falam do conservadorismo como se fosse a escuridão do mundo”

Ana Paula não compete em alto nível desde 2010. Foi estudar arquitetura e ciência política nos EUA, onde mora. Mas em 2016, sem sair de casa, começou a se tornar um ícone dos conservadores da internet brasileira. Pelo Twitter e em constante diálogo com outros ativistas de direita, como os músicos Lobão e Roger Moreira, ela se engajou ativamente na campanha que levou ao impeachment a presidente Dilma Rousseff.

Ela também se tornou crítica a uma parte da imprensa do Brasil.

“Parte da imprensa faz muito copiar e colar dos veículos de esquerda americanos, como New York Times, Washington Post e CNN”, opina ela. ”E existe muita pauta progressista exaustivamente martelada aqui no Brasil. Eles tentam dar uma conotação pejorativa à palavra conservadorismo. Sempre fala do conservadorismo como se fosse a era de escuridão do mundo. Eu sou conservadora com orgulho. Quanto menos Estado melhor. Deixa a gente empreender, deixa a gente criar emprego, crescer, fazer a economia girar.”

Ela nem sempre foi tão conservadora quanto hoje, porém. “Foi uma jornada longa pra mim, aprendizado, leitura, vivência ali na UCLA [Universidade da Califórnia], que está se tornando um ambiente histérico da esquerda, de opressão, de patrulha forte. Mas vivi na prática o que o Estado mínimo faz com sua vida. O quanto o Estado mínimo em sua vida é produtivo. Quando você toma as rédeas da sua vida, sua vida anda.”

Marido a “proibiu” de ler biografia de Hillary

Casada com o ex-jogador de vôlei e advogado Carl Henkel, a mineira aprendeu logo no começo do namoro como seria conviver com um republicano conservador. Em uma viagem aos EUA, ela mostrou interesse em ler a biografia da democrata Hillary Clinton. A reação de Henkel foi incisiva.

“Compra hoje e amanhã você tá no voo de volta ao Brasil”, disse ele. Ana Paula não entendeu e o namorado também não explicou. “Ele falou: ‘Do your homework’ [faça seu dever de casa]. Aí comecei a ler, li muitas coisas de pessoas que não eram democratas ensandecidos nem republicanos cegos. Li sobre a Fundação Clinton, que é um Instituto Lula com anabolizante. Aí pedi desculpa pra ele. I am so sorry.”

“Se soubesse o que sei hoje lógico que não faria”

Eleitora de Donald Trump nos EUA (“Muita gente, inclusive eu, tampou o nariz pra votar no Trump”, diz ela), Ana Paula também fez campanha para o senador Aécio Neves nas eleições presidenciais de 2014.

Quando Aécio se tornou réu no STF por corrupção e obstrução de justiça, detratores da ex-jogadora passaram a pedir explicações sobre um vídeo em que ela pedia votos ao tucano. Ana Paula afirma que não se arrepende de ter feito o vídeo.

“Se eu soubesse o que sei hoje, lógico que não faria. Mas, na época, eu não sabia de nada.” Ela diz que, se fosse hoje, não declararia apoio nem para Aécio, nem para nenhum candidato: “I learned my lesson [risos]. Aprendi minha lição até porque a Lava Jato come um por dia. Nunca sabe, nunca sabe. E provavelmente nessa eleição eu não vou abrir meu voto, justamente por isso. A Lava Jato tá aí.”

Quando filho joga, vira uma “Bernardinha”

Filho do técnico Marcos Miranda, que treinou Ana Paula na praia, Gabriel tem 17 anos e está no ensino médio. Com 1,98 m de altura, tem participado dos campeonatos de vôlei da escola. Nessas ocasiões, a mãe vira um poço de nervos do lado de fora da quadra.

“Prefiro jogar com 60 mil pessoas me olhando, de biquíni e na Olimpíada”, disse ela sobre a angústia de assistir ao filho jogar. “Mãe na arquibancada… já levei cartão amarelo. Já teve juiz falando em um jogo que não queria dar amarelo para mim. Hoje, faço parte da equipe de estatística do time do meu filho porque tenho que fazer alguma coisa.”

“Fico, assim, uma mini ‘Bernardinha’. É mais a ansiedade de não poder ajudar.”

Mesmo com tanto incentivo em casa, Gabriel já deu sinais de que não quer seguir carreira no esporte profissional. “Ele é filho de pai e mãe jogadores de vôlei”, diz Ana Paula. “Entre Marcos e eu, são oito Olimpíadas. O padrasto tem mais uma Olimpíada, meu cunhado André Heller tem mais três, minha irmã também é do vôlei. Então, o Gabriel disse assim: ‘Vou ser advogado’. Ok.”

O filho de Ana Paula já recebeu convite para estudar em Havard.

“Aparência pra mim é o de menos. Você se arruma, põe cabelo mais bonitinho, sem exagero um botox aqui, passa um creme melhor, muda alimentação… mas dor não quero sentir. E atleta paga um preço muito alto. A gente passa do limite pra chegar à alta performance, exagera. Uma hora a conta chega. Dói tudo”

-Ana Paula, sobre as dores de seus 46 anos

~ Uol

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