Foi num dia de rara felicidade para aquela família humilde: pai, mãe, duas irmãs, quando nasceu o terceiro filho. “É homem! Bradou o pai! Até que enfim, alguém que me possa substituir nas lidas da roça. Enfim um dia vou poder me retirar das tetas das minhas queridas vacas, seres aos quais aprendi a me afeiçoar. Entretanto, após tantas madrugadas acordando antes do sol, vendo a lua se recolher, vou poder ver de perto, tomara que com saúde, meu filhão parrudo gerir o meu negócio, que é também o dele.”
Foi um dia de festa em toda comunidade. Um porco capado foi sacrificado. Feito tostado na brasa, uma comilança que varou noite, fez-se madrugada, até ver o espocar de fogos que foi visto além da serra que ensombrava aquela casinha pequenina.
O meninote tão esperado nasceu com a lua a se derreter naquela noite linda. Era verão. Roças de milho de um verde furibundo deixavam-se embonecar num singelo abraço de um caule fino. Em pouco mais de um mês as vacas teriam um banquete, esperando a hora de os pés de milho com espiga e tudo ficarem no ponto exato de se tornarem vitaminas gordas no cocho de cimento onde a vacada de pêlo luzidio se refestelava na comilança.
Tudo sorria verde nos dias que sucederam ao nascimento do “príncipe encantado”. As duas irmãs mais velhas ficaram com um cadinho de ciúme do varão que nasceu chorão. Isso tudo tinha motivo: sabiam que mulheres na roça não tinham futuro.
O menino foi batizado de Gilmar. Acontece, naqueles idos anos, outro Gilmar fazia sucesso na Seleção.
Aos seis aninhos, época de ir à escola, a escola buscava os meninos da roca até a cidade. Pena!, deveria ser vice- versa. Lá ia ele, merendeira cheia de saudades do pai, da mãe, que acompanhava a cria até onde a alegre jardineira apanhava os pimpolhos, e, olhinhos cheios de vontade de não ir, como ele tinha saudade dos seus amados bichos!
Mas o filho tão sonhado tinha de estudar. Jurava, um vizinho abelhudo, que: menino que não ia à escola seria, fatalmente, companheiro da mula empacadeira que puxava a carroça que custava a subir o morro cambeta. E isso o nosso Gilmarzinho não queria pra si.
Um dia, ao ver um coleguinha dizer que queria ser médico, o nosso querido menino da roça pensou em ter alguma profissão. A roça não lhe seria a sina. Ao se lembrar do pai, o magrelo Tião do Aristeu, com as mãos tal e qual pedra tirada em serra alta, anos nos costados grossos, o corpo, pouco mais de cinquenta, denotando oitenta, cabelos como paina da paineira, ralos e finos, a pele do rosto vincada como pregas que a chuva faz na estradinha de terra, cheia de canaizinhos por onde a enxurrada descia, o destino a ele reservado, a dura vida na roça mais e mais o desapetecia.
Aos quase dezoito, ao acordar, depois de uma chuvarada mansa fazendo-o se deliciar com os pingos d`água tamborilando-lhe a janela trincada por culpa de um trinca-ferro que não quis viver em cativeiro, resolveu se mudar.
Enxertou-se de coragem que não sabia possuir. Olhou pra trás os pingos de água salina descaindo chorosos dos olhos negros da mãe, apertou a mão do pai, velho amigo, ídolo de verdade, pensou ter visto nele alguns indícios de saudade, e viu realmente lágrimas contidas à força da bravura indômita que também caíam pelas rugas do rosto velho e sofrido do amigo pai.
Tirou da gaveta algumas parcas roupinhas de ir à missa. Tomou por empréstimo o boné ainda novo de um tio. Tirou de dentro do colchão algumas minguadas economias. Afivelou tudo no velho embornal surrado. E foi ao ponto onde o velho caminhão leiteiro usava passar. Quando a chuva deixava.
Nem olhou a casinha branca de azul, motivo de velhas lembranças. Quando deu por si percebeu um riachozinho escorrendo sem sinal de chuva pela própria face lisa e jovem. Era, em verdade, choro. Um choro que fazia doer seu coraçãozinho de moço ainda menino, que pela primeira vez se aventurava pelos descaminhos perdidos da cidade.
Apeou da boleia caindo pelas tabelas do velho caminhão leiteiro. Se pudesse, e se a vontade pedisse forte, faria um pedido único ao dono amigo do caminhão caindo aos pedaços: “por favor, dê meia volta. Volte de onde vim!”
Contudo encheu-se de coragem. Estufou o peito forte de vontade, e ficou, parte não, uma parte que queria partir, deixou a parte que queria voltar de onde veio, estudando o que seria dele, numa cidade estranha, sem o grito do amigo galo a acordá-lo nas madrugadas verdes da sua rocinha querida.
Já tinha o endereço de uma pensão de quinta. Dado por um amigo com a mesma história por que iria passar.
Ali chegou depois de várias idas e vindas. Recebeu-o uma senhora gorda com ares de gavião que espreita o pinto novinho com olhos de cobiça.
Como ela sonhava ter o moço esbelto e forte do lado na cama! Colchão esse que clamava por corpo de macho, a loura gorda deixou-o ficar sem ao menos um depósito que garantisse a hospedagem. Em pouco mais de um mês conseguiu transformar seu intento em doce realidade. O pobre Gilmar, sem estudo que lhe garantisse um bom emprego, se viu, de repente, não mais que num repente, feito gigolô de viúva remediada. Justamente ele, trabalhador, rapaz que ainda amava uma namoradinha deixada na cidade perto da roça onde morava.
Aguentou cinco meses o duro ofício de manteúdo. Em pouco tempo passou a odiar os abraços e beijos melosos-grudentos da mulher cada vez mais faminta de sexo.
Conseguiu, nariz e asco domados, juntar algumas economias, que, em pouco tempo permitiram-lhe montar um pequeno negócio. O negócio prosperou. Da loja um passou a ver com bons olhos a loja dois.
Mas, sempre que acordava pela manhã, vendo apenas asfalto, fumaça, buzinaço, gente que se acotovelava impaciente pelas ruas lotadas, num fim de ano, véspera de Natal, sentindo como nunca a falta da sua rocinha querida, ao ver que a conta do banco apenas crescia em números, em felicidade a vida decrescia, fez pra si um voto de decisão. Iria voltar de onde veio. Iria retroceder nos anseios de ficar na cidade, de enricar, de viver entre nababos, de possuir carros do ano, mesmo que custassem mais que a boiada inteira do pai amado, Tião do Aristeu.
No dia seguinte deu um chute nas duas lojas de onde tirava o quádruplo do que o velho pai conseguiria tirar em mais de dez vidas.
Achou no armário novo o velho embornal surrado. Na ocasião algum bicho fez um furinho do lado. Deitou nele as mesmas poucas roupas de quando veio.
Nem passou pela rodoviária. Muito menos pelo banco. Deixou as gordas economias para o canil municipal. De onde tinha vindo o amiguinho cão fiel, o Gabriel. Um viralatinha encantador.
Em pouco mais de cinco anos, enfim, redescobriu uma verdade. A felicidade habita não num apartamento luxuoso. Muito menos em carros custosos. Ela se escondia na sua rocinha encantada. Foi quando olhou, com o peito recheado de saudade, para dentro do velho embornal surrado. Ali se escondia a chave da felicidade. Tão perto dos olhos, e tão perto do sentimento forte, que lhe tomava por inteiro o coração.















