Lavras,
30/09/2014 18:26
20, abril 2012 - 19:46:19

Exclusivo: A história do lavrense que morreu durante o incêndio do Edifício Joelma, em 1974

Catástrofe mudou os parâmetros de segurança dos prédios no país e entrou para o imaginário dos brasileiros

 

1974. A cidade de São Paulo está em polvorosa. Há centenas de pessoas e veículos pela rede de ruas que cortam a metrópole. Um dia que poderia ser tão comum como tantos outros, mas que entrou para a história do Brasil.

Naquela manhã do dia 1º de fevereiro, uma sexta-feira, um incêndio de grandes proporções causado por um curto-circuito mudaria para sempre a vida de mais de 700 pessoas que estavam no Edifício Joelma, na avenida Nove de Julho, nº 225, no coração comercial da maior cidade da América Latina.

Passados 38 anos da tragédia que causou a morte de 188 pessoas e feriu outras 300, o nome de um lavrense ressurge em meio as cinzas deixadas por uma das maiores catástrofes nacionais.

Trata-se de Sebastião Anacleto da Silva (1943-1974) uma das vítimas fatais das chamas que destruíram o Edifício Joelma. A história desconhecida pela população lavrense voltou à tona graças a um depoimento de seu irmão, o professor lavrense Antônio Marciano da Silva, 63 anos, que pela primeira vez falou sobre o assunto com exclusividade à reportagem do Portal Lavras 24 horas.

“Meu irmão sempre foi um sujeito muito querido. Era uma pessoa humilde e caridosa. Foi sempre um espírito iluminado, que não buscava os valores de hoje. Muitos amigos se lembram dele de forma carinhosa e isso nos conforta muito”, diz o docente do curso de Recursos Hídricos do Departamento de Engenharia de Água e Solo da Universidade Federal de Lavras (Ufla).

Professor Marciano conta que Sebastião Anacleto, de 31 anos,  trabalhava como analista de sistemas no Banco Crefisul, empresa especializada em crédito, financiamento e investimento, cujos escritórios ficavam instalados nos 25 andares do Edifício Joelma.

Naquela sexta-feira ensolarada quando Sebastião Anacleto saiu de sua casa, localizada no bairro Alto do Jaguaré, para trabalhar na empresa, ritual que ele cumpria desde que fora contratado pela mesma quase um ano antes, nem imaginava o que estava por vir.

O lavrense trabalhava no 21º quinto andar do edifício quando o incêndio, provocado por um curto-circuito em um aparelho de ar condicionado, teve início no 12° andar por volta das 9h. As chamas rapidamente se espalharam por vários pavimentos do prédio, cuja estrutura das salas e escritórios era constituída de vários elementos inflamáveis (divisórias de madeira, móveis, cortinas e acarpetados), o que contribuiu para que o fogo se alastrasse.

A tragédia teve proporções dramáticas com pessoas até mesmo saltando para a morte em razão do fogo que tomava conta de vários andares do prédio. Como não havia escada de incêndio requeridas para a altura, o Corpo de Bombeiros teve que usar helicópteros para socorrer uma multidão na laje do prédio. Houve muitos sobreviventes e grande dificuldades para extinguir as chamas do prédio. Uma multidão se acotovelou em torno do edifício em meio às equipes de resgate. Uma cena dantesca.

Relatos da época mostram que além do calor infernal, havia a armadilha da cortina de fumaça, que subia andar a andar a uma temperatura de 700°C. Este foi o principal fator que tirou a vida de Sebastião Anacleto, que morreu por asfixia provocada pela fumaça. Seu corpo estava intacto quando foi retirado do edifício à noite e reconhecido pelos familiares.

A notícia de sua morte pegou a família do lavrense, juntamente com as dezenas de outras que perderam amigos, parentes e conhecidos no incêndio do Joelma de surpresa. Um fato que ganhou repercussão até mesmo internacional, dois anos depois do incêndio do edifício Andraus, também na capital paulista.

Sebastião Anacleto estava casado há apenas cinco meses com a paulista Shikuko Tobaro Silva, hoje com 67 anos, mas não tinha filhos. Seu corpo foi enterrado no Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, um dia após a tragédia, e seus os restos mortais foram transferidos para o Cemitério Paroquial São Miguel de Lavras em 1978.

Ele era filho do construtor civil José Roberto (falecido) e Francisca Augusta da Silva, 90 anos, e irmão do Mauro Silva, 70 anos e também de José Roberto, 56 anos, que morreu vítima de um afogamento no ano de 2003 em Ilhéus, na Bahia.

Sonho

 

“Meu irmão sempre foi um sujeito muito querido. Era uma pessoa humilde e caridosa. Foi sempre um espírito iluminado”, diz o irmão, o professor lavrense Antonio Marciano da Silva

 

Professor Marciano conta que, como muitos outros lavrenses, Sebastião Anacleto partiu para São Paulo na década de 60 em busca de oportunidades de trabalho.

A primeira experiência profissional aconteceu no Banco de Crédito de  Minas Gerais, em 1964, que na época era dirigido por outro lavrense, Gil Botelho, popularmente conhecido como “Dr. Vilela”, que abriu portas para muitos de seus conterrâneos.

Na Universidade Federal de São Paulo (USP), Sebastião Anacleto cursou Administração entre 1968 e 1973, para depois conseguir uma vaga como analista de sistemas do Banco Crefisul. Ele havia cursado o ensino médio e fundamental no Instituto Presbiteriano Gammon de Lavras.

Baseado em relatos que a família lavrense ouviu de testemunhas da do incêndio do Edifício Joelma na época, Sebastião Anacleto pode ter morrido na tentativa de salvar outros companheiros que trabalhavam no Banco Crefisul.

Muitos sobreviventes se refugiaram na laje do prédio, enquanto outros se mantiveram em banheiros, sacadas e parapeitos do Edifício Joelma na tentativa de fugir das chamas.

“Não tenho a menor dúvida de que meu irmão tomou uma atitude dessa natureza. Ele era um ser humano muito generoso e que gostava muito de ajudar o próximo”, avaliou o docente.

Calafrio

 

O lavrense Sebastião Anacleto da Silva, 31 anos: uma das 188 vítimas fatais do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo

 

 

 

Professor Marciano revela que o último encontro com o irmão ocorreu em janeiro de 1974 em São Paulo. Sebastião morava na cidade com os pais, que haviam deixado Lavras para ficar com ele. Na época, o professor da Ufla fazia seu mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRG).

“Quando deixei a cidade tive uma forte sensação de vazio, um nó na garganta e no peito. Era uma sensação de angústia. Parei o carro e liguei para ele na hora” revela emocionado o professor Marciano.

Ele revela que sensação parecida voltou a tomar conta dele na manhã do incêndio do Joelma. “Eu estava em uma imobiliária conversando com umas pessoas e por uns instantes fiquei alheio a tudo ao meu redor. Senti um calafrio e tenho certeza que nesse momento ela passou dessa para uma melhor”. O docente afirma ter a certeza que morte prematura do irmão foi uma forma de Deus evitar que ele sofresse futuramente em razão da sua generosidade excessiva para com o próximo.

Espiritismo  

 

Resgate às vítimas das chamas que consumiram os quase 25 andares do edifíco no centro de São Paulo

 

Ele diz que o reencontro com o passado vivido pela tragédia aconteceu de forma especial no ano de 1978, quando seu irmão, Mauro Silva, levou a mãe ao encontro do médium espírita Chico Xavier, em Uberlândia.

Professor Marciano afirma que, mesmo não professando uma religião, nessas horas de luto sempre procuramos outras explicações para justificar os fatos. Essa foi à forma que a família escolheu para acalmar o coração de Dona Chiquinha.

“Recebemos uma carta psicografada com a letra do Sebastião e isso foi um reconforto para todos nós. Foi graças ao Chico Xavier que minha mãe pode saber que ele estava bem”, finalizou.

Memória

Confira alguns vídeos  sobre o incêndio nos endereços: http://www.youtube.com/watch?v=-XbgbjYkX34 e http://www.youtube.com/watch?v=lLGZKN_HW6o