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18/05/2012

Elucubrações em noite de desastre natural

18, janeiro 2012 - 0:05:19

ppadua@navinet.com.br

Nem bem o ano colocou sua cara nova no horizonte e tempestades tropicais desabaram pelas Gerais. Chegamos de viagem, rejuvenescidos, pelo menos espiritualmente, por uma permanência relativamente longa na paulicéia futurística e nos vimos às voltas com problemas corriqueiros de calhas que extravasam e telhas quebradas, fruto das chuvas de verão. Dramas menores frente aos enfrentados por parte dos moradores da cidade de Lavras, como meu amigo de longos anos e muitas causas, quase todas perdidas, Adjamar Veríssimo, morador da Rua da Bomba, músico, líder comunitário e ativo político do Partido dos Trabalhadores, que viu sua casa, os instrumentos de sua banda comprados com muito sacrifício e todos os seus bens materiais sucumbirem à uma legitima tromba d’água, no triste espetáculo de tudo o que foi comprado e ajuntado durante muito tempo desaparecendo em poucos minutos na enxurrada e na lama. O que mais me impressiona é que de uma hora para outra, uma das mais importantes ferramentas da civilização moderna, que é a comunicação, desapareceu, dando lugar a boataria, sempre nefasta, que nada constrói e passa longe do que chamamos de solidariedade humana. Oh! Santa Clara, padroeira das Comunicações, abre nossas mentes!

A energia elétrica, o fornecimento de água potável e o sinal de tevê paga, são mantidos. Para relaxar, já que me asseguram que o mundo não irá acabar debaixo d’água, ligo na MTV que produz uma variedade de reality shows e programas de televisão relacionados à cultura pop, para o público formado por adolescentes e jovens. Assisto um programa chamado Luv, que para meu assessor de assuntos aleatórios, o Wallace, dono do Espaguetão, é uma deturpação da palavra “love”, em inglês, utilizada pela rapaziada de New York. Deverá ser um bom entretenimento, penso. Afinal, apresentado pela exuberante loura que é Ellen Jabour, promete duas coisas meio fora de uso: o namoro e a paquera. Moças bonitas, saradas, bem nutridas e antenadas participam de uma espécie de gincana. No final o grande prêmio para a vencedora é beijar na boca uma das participantes. Uau! E que beijo! O mais longo e sensual que presenciei nos últimos anos…

Semanas atrás, andando nas nos shopping centers e nos bares percebia que a tal de homoafetividade está tomando conta dos relacionamentos. Décadas atrás, quando eu era adolescente, ser gay era um grande trauma para pessoas. Até mesmo vestir uma camisa vermelha e calçar sapatos brancos gerava um grande preconceito. Até mesmo o final da palavra homossexualismo era um sufixo que nos remetia para uma doença ou designava uma ideologia ligada ao famigerado “mal grego”. Ser bicha, viado, pederasta, sapatão ou sandálinha era uma opção que poucos assumiam. Ainda mais com a disseminação do vírus da AIDS, doença de pervertidos… Mas, com o tempo percebemos que tudo mudava e homem ter comportamento de macho e mulher de fêmea tornou-se politicamente incorreto… Um amigo me propõe organizarmos um movimento que culmine com grandes manifestações de heterossexuais a pontuar nossa existência. Sei, não. Com tanta gente saindo do armário temo por seu sucesso.

Na madrugada termino minhas meditações. Certeza de assuntos meteorológicos era com minha avó Nair. Se nuvens negras formavam-se para as bandas da Vila de Nepomuceno logo cairia um grande temporal. E mais: em tempo de chuvas, todo sinal é de chuva… Todos os grandes jornais de antigamente tinham um repórter a vislumbrar os céus para fazer a previsão do tempo. Com toda a parafernália informatizada esqueceram-se de divulgar um Aviso Meteorológico da Defesa Civil que previa fortes chuvas na região a partir do dia cinco de janeiro e um possível temporal, ou seja, tempestade, com violenta agitação da atmosfera na terça feira (10). Só que isto acabou acontecendo no dia anterior, saiba-se lá por que desígnios de Deus…

Com relação ao programa Luv da maravilhosa Ellen Jabour, continuo a defender a livre expressão nos meios de comunicação, com reservas ao meu pudor vitoriano e de milhões de espectadores que de longe sonham com assuntos como homoafetividade e a necessidade de sermos politicamente corretos.

E para terminar estas elucubrações em noite de desastre natural, num mundo louco como o nosso, reler e sentir o “Poema de sete faces”, do Poeta Maior, Carlos Drummond de Andrade: Quando nasci, um anjo torto/desses que vivem na sombra/disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida./As casas espiam os homens/que correm atrás de mulheres./A tarde talvez fosse azul,/não houvesse tantos desejos./O bonde passa cheio de pernas:/pernas brancas pretas amarelas./Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração./Porém meus olhos/não perguntam nada./O homem atrás do bigode/é sério, simples e forte./Quase não conversa./Tem poucos, raros amigos/o homem atrás dos óculos e do bigode./Meu Deus, por que me abandonaste/se sabias que eu não era Deus,/se sabias que eu era fraco./Mundo mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução./Mundo mundo vasto mundo,/mais vasto é meu coração./Eu não devia te dizer/mas essa lua/mas esse conhaque/botam a gente comovido como o diabo.

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