Lindo dia amanheceu hoje! Um ventinho assobiador espalhava folhas por todas as partes. O azul do céu agradecia aos anjos por morarem ali. O verde luxuriante das matas nos fazia crer que um bando de maritacas verdinhas tinha feito um ninhal no meio do pasto. Um sol tímido punha as manguinhas de fora para tentar namorar a lua. A lua, ah!, pedia ao sol que não lhe queimasse a face macia. E as estrelas, qual grandes vagalumes, fingiam que caíam do alto. E mostravam todas a decadência frente ao astro rei.
Nesse dia risonho, nem quente, nem frio, mediano, foi que, ao chegar à roça que tanto amo, no debruçar da tarde, quase noite, noite ainda esperando a tarde morrer, vi, a voar e pousar, ao mesmo tempo, canarinhos da terra, pardos e já amarelinhos, machos e fêmeas, num frenético arrulhar de bicos e penas, me ensinando a cor do amor de verdade.
No mesmo cenário carregado de verde, em todos os tons: verde abacate, verde tomate verde, verde mata carregada nas tintas verdes, verde edredom, não muito verde, verde jabuticaba antes de enegrecer, ainda vacas pastejavam. O boi pressentia-lhes o cio, cheirando-lhes o traseiro. Dois cavalos, macho – eunuco, e fêmea – mãe – de – fresco, três cachorros fingindo-se de pastores de bichos. Patos, galinhas, um ganso apenas, que enviuvou de pouco, a sombra de um carneirinho preto que morreu, por falta da sua fêmea, peixes – filhotes à espera da hora certa da panela, ou de se reproduzirem. Pintinhos, amarelinhos tais e quais os canarinhos. Mais maritacas, pragas da roça. Bichos mansos, bichos ariscos, muitos em sintonia perfeita com a natureza. Quantas árvores de rara beleza agreste. Plantas pra mim desconhecidas. Reconhecidas por quem entende. Ah!, mais uma vez minha boca se encheu de uma sensação estranha.
Seria emoção? Seria estupefação? Ou seria assombro devido à tamanha beleza?
Não sei responder a resposta a tal complicada inquisição.
O fato é que dormi na roça. Dormi pouco. Mais fiquei a escutar o tempo do silêncio. Em meio a ele o coaxar dos sapos era uma sinfonia aos meus ouvidos moucos às sandices da televisão.
Plena madrugada acordei de um sono indormido. Saí da casa amarelazul a fim de caçar borboletas pisquentas, tidas por vagalumes. Eles andam escassos das noites escuras banhadas pela luz da lua. Nas cidades, eles, os pirilampos, talvez, ofuscados ou enciumados pela amarelice artificial da luz elétrica, de muitos mais watts de potência, andam sumidos da boemia fora das noitadas em mesas de bares. A entornar gordos canecos de cerveja.
Sem um vagaluminho solitário e sonâmbulo na caixinha de fósforo preparada de véspera voltei a casa amarelazul. Logo a porta um enorme sapo, ou seria rã, fazia às vezes de porteiro da minha casa eventual, que acolhe meus restos saturados dos ares da cidade. Não lhe permiti a entrada. Convidei-o, gentilmente, que voltasse à lagoa onde alguma fêmea deveria estar preocupada com o seu súbito desaparecimento. Ele, com seu ar pachorrento e preguiçoso, ficou por ali mesmo.
Tentei de novo dormir, insucesso retumbante. De repente, não mais que num repente, derriçou uma aguaceira danada dos céus. Relâmpagos, trovões, faíscas riscavam o alto com fagulhas que pareciam fogos de artifício. O fato só cuidou para que eu, já deslumbrado, não mais dormisse naquela linda noite alta. Lá em cima o céu, recheado de estrelas, a chuva foi-se, de repente, sorria pra mim. Eu fazia o mesmo na minha pequenez de poeira da terra.
Sem dormir, ou sonhar, tudo era um sonho, despertei-me da minha noite de insônia com um bando de maritacas chocadeiras saindo lépidas da laje da casa amarelazul. O bando pousou suave numa sibipiruna mais verde que todas as verdes maritacas gritadeiras.
Perto as vacas esperavam pacienciosas a hora de enfiar o pescoço no cocho cheiinho de comida com cheiro de azedume de milho feito silo. Dos seus úberes lotados pingava um leite branquinho, fora aquele da mãe vaca parida de pouco.
Do lado de fora berravam ariscos incontidos bezerrinhos famintos. Do lado de dentro esperavam ansiosas as mamães vacas. Boas de leite e de coração genuinamente cabendo dentro de corações ruminantes.
Tomei leite ao peito da vaca indicada por meu retireiro. Ao fundo do copo esmaltado um cadiquinho de açúcar cristal fazia a festa das formigas doceiras.
Deixei a roça antes do pôr do sol. Uma vez no alto do morro, cercado de Yucas de um verde claro, vi, no embornal dos meus olhos, uma lagriminha miúda, descida num turbilhão antecipado de saudades.
Era uma visão idílica. Uma paisagem que, em absoluto, não se observa nas barbas da cidade.
Tudo aquilo me fez lembrar a efeméride da vida.
E eu queria apenas ter uma parcela mínima da sua infinitude maiúscula















