Não se amofinem, melhor, não se assustem! Seu nome se escreve dessa maneira mesmo. Litlle John. Sem tirar nem pôr.
Aliás, quando esse meninozinho nasceu, branquinho, cabelos lourinhos como da maritaca a qual chamavam de Lourinha, tão fracotinho, seus pais, mais lucubrava a mãe, pensou que ele não passaria do terceiro dia de finados. O pediatra que o assistia na sala de cirurgia, quando ele foi retirado a força do útero da mãe, parece que ele não queria nascer, deu nota um para o seu apgar. Um para não fazer o pai se preocupar demais com o porvir do primeiro filho, o único que da casa nasceu.
Uma vez no berçário quase a enfermeira especialista o jogou na lata de lixo dos achados e finitos, já que ele chegou de olhinhos fechados, e assim ficou até quando veio o rabecão da maternidade, e, como ele não dava sinal de vida, e ficava na incubadora semimorto, um dia, domingo cedo, quando o padre da paróquia perto veio ver os doentes terminais, na intenção de fazer-lhes a última comunhão, de dar-lhes a extrema-unção, ao encontrar o meninozinho pálido como estrela decadente, fez o sinal da cruz, benzeu-lhe a cabecinha anemiada, e encomendou-lhe a alminha ao santo dos anjinhos que não viveram além das paredes do hospital.
Mas, contrariando as previsões, o nosso menininho, o qual foi batizado de Litlle John, depois acabou sendo Joãozinho, ele cresceu um pouquinho, sempre branquinho, seu topete louro foi escurecendo, escurecendo, até ficar da cor de urubu escuro.
Aos seis anos todos na escolinha pobrinha já sabiam dos modos afeminados do queridinho da professora. Assentava-se à primeira carteira. Era ótimo aluno. Principalmente nas aulas de prendas domésticas, de pintura, de corte e costura, e, a que mais gostava, era a de maquiagem. Como ele ficava lindo depois do batom índigo- carmim, do blush moreno jambo, do rímel preto asa de urubu caído no balde de piche!
Inda mais quando usava salto alto. E se equilibrava jeitosamente desfilando crente depois da aula de português.
Aos quinze precisava escolher qual a profissão a ele eleita. Maquiador seria a de número um. De cabeleireiro, a segunda. Mas, o que o contrariava fundo nas profundezas insossas de sualma, era o fato de que por mulher nunca se sentia atraído. Quem o fazia suspirar de emoção, fazia-o sentir lá no fundo um ardume forte no coração, era um moreninho forte, apesar dos poucos mais de dezesseis aninhos, lindo como uma cotovia no cio.
Apesar da aparente rejeição do amiguinho, ele não arredava os pezinhos de perto de onde ele estava. Seja no recreio, seja na aula mais horrorosa que absolutamente detestava: matemática.
Aos quase vinte teve de sair da escola. Contrariado, já que o quase namorado ficaria mais um tempo. Como ele estava apaixonado pelo rapagão forçudo, corpo malhado em academia, nadador quase peixe fresco passado na frigideira dos olhos mortiços dele mesmo.
Mas, quis a vida que os dois fossem apartados por uma encruzilhada que acontece entre dois namoradinhos. O amiguinho colorido foi pela estrada principal. Joãozinho foi por um atalho pro mau caminho.
Quando, aos quase cinquenta, cabeleireiro respeitado, feito rico, morando numa casa- mansão num bairro chiquetérrimo, eis que, num dia cinzento, bateu a porta do antes Litlle John um sujeito caindo aos pedaços.
Como ele tinha um coraçãozinho de ouro- rosa- choque- purpurina, abriu-lhe a linda porta de madeira rosa esmeralda, convidou o desconhecido a entrar, introduziu-o à sala de jantar, candelabros de cristal da Mongólia, e, debruçados por sobre a mesa coberta por uma toalha bordada em fios de ouro cinza, fez com que a visita, até então estranha, se deliciasse com a lagosta ao termidor recém tirada dos arrecifes do fundo de um mar próprio, numa prainha só de uso dele e dos amigos chegados.
Depois do lauto rega-bofe, acompanhado de um vinho ilibado, antes degustados tira-gostos cheirando a Caviar Beluga, o nosso Joãzinho, feito Litlle John Sênior, fez a visita ir ao banheiro decorado com lustres de cristal de muitos quilos de profundidade.
À porta pediu à camareira que fizesse ao recém chegado de presente um lindo traje de festa.
Depois, de banho tomado, perfumado até as axilas com um perfume de gardênia, lindamente vestido num fraque novinho, quando nosso hospedeiro deu com a visita limpa como bunda de nenê depois do banho de talco azul, duas lágrimas escorreram-lhe do canto dos olhinhos azuis (agora ele usava lente de contato).
Quando o nosso ex-Litlle John reconheceu na visita seu antigo namoradinho, teve um ataque no coraçãozinho frágil. Morreu com a mesma singeleza que nasceu.
No dia das exéquias apenas o querido amigo, além de um cãozinho querido, acompanharam a linda urna rosa–piscina-cor-de-barro-mole até um maravilhoso túmulo comprado de pouco no elegante cemitério da Recoleta. Um lindo cemitério famoso na capital da Argentina.
Um mês depois o velho namoradinho, único herdeiro do mortinho sensível, mandou gravar no mármore quente pelo sol de janeiro essa inscrição: “aqui Requiescat in Pace o querido Litlle John, meu amado querido.”















