18:18
18/05/2012

A voz do Brasil

11, janeiro 2012 - 11:17:38

ppadua@navinet.com.br

Acompanhava meu amigo Eduardo Lacerda numa quinta-feira, 23 de agosto de 1968, na minha única visita a Ouro Preto, para a fundação de um cineclube. Estávamos sentados em um barzinho com um pessoal da Universidade bebendo cerveja e cuba livre. Quando de um alto falante distante começou a sair a voz de Vicente Celestino, cantando o “O ébrio” e depois “Coração materno”. Morrera aos 73 anos o tenor que cantava: “ Disse o campônio a sua amada/Minha idolatrada diga o que queres?/Por ti vou matar, vou roubar/Embora tristezas me causes mulher/Provar quero eu que te quero”. Na minha casa este disco tocara na vitrola da minha mãe até gastar. E menino ainda eu assistira o filme o “O Ébrio” dirigido por sua esposa Gilda de Abreu e estrelado por ele.

Sofia, uma das moças sentada ao meu lado, passava suas longas pernas nas minhas, me bolinando. Ela era filha de alemães, seu pai era pintor e muito conhecido na cidade. Parecia ter somente dois assuntos na sua linda cabecinha: sexo e relembrar das cenas de cenas de “Hiroshima mon amour” e “L’année dernière à Marienbad”, de Alain Resnais que assistira em Belo Horizonte, na Imprensa Oficial. Lembro-me que ela tinha cabelos muito negros, compridos, um rosto lindo e quando dizia “mon amour”, fazia uma boca sensual.

O projeto de reativar ou fundar cineclubes nas cidades do interior foi uma das melhores ações do movimento do cinema novo mineiro. Mas tinha uma logística complicada. O filme, sempre em 16mm, era alugado e tinha que ser enviado para as cidades. No começo deu tudo certo. Até o dia que não me foi possível enviar as latas pelo ônibus para minha cidade natal. Os dirigentes locais se desesperaram e acabaram por exibir um filme do Tarzan e da Jane, o que assustou minha tia Milita, adepta dos filmes de arte.

Sempre tive um relacionamento estranho com a cidade de Ouro Preto: paixão e distanciamento. Acabei indo lá poucas vezes, mas mesmo assim, Maurício Andrés Ribeiro e eu, fizemos um belo cartaz, baseado em uma foto em alto contraste, que foi premiado. Por sinal, nunca vi a peça depois de finalizado.

Em 1968, enquanto procurávamos difundir a sétima arte o mundo já estava de cabeça baixo. Principalmente no exterior, marcado pela rebeldia dos estudantes na Europa, potencializado em maio de 1968, o que influenciou a juventude brasileira.. O golpe de 1964, ao contrário do que se pensava endurecia cada vez mais. O autoritarismo cresceu e se firmou no dia 13 de dezembro de 1968, com a decretação do AI-5, lido na voz grave do locutor Alberto Curi, a Voz do Brasil, irmão do narrador esportivo Jorge Curi e do cantor Ivon Curi, nascidos em Caxambu. As perseguições advindas desta ação da direita inviabilizaria todas as ações populares e estudantis no país.

Mas, naquele dia em Ouro Preto, nem a morte de Vicente Celestino, que nos emocionou a todos, foi capaz de nos entristecer. Minha grande preocupação era as pernas de Sofia roçando nas minhas, seus seios empinados e sua boquinha articulando “mon amour”. Afinal de contas começávamos um tempo de liberdade total, do amor livre, da liberação das drogas e do surgimento do amor livre.

Acabei a noite com uma moreninha de Ubá, estudante de Geologia, que me arrastou para sua república.

A visão de Sofia, a gringuinha saliente, desapareceu na madrugada escura da memória, como também todos os absurdos gerados pelo Golpe de 1964…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gostou? Compartilhe com seus amigos!
Facebook Twitter Email Linkedin Digg Delicious

GUIA COMERCIAL - DESTAQUES

O guia comercial mais completo de Lavras e região! Confira alguns destaques!

Classificados

Ver todos classificados
Lavras24horas - notícias em tempo real.